MATRIX REVOLUTIONS (The Matrix Revolutions, EUA, 2003)
Gênero: Ficção Científica
Duração: 129 min.
Estúdio: Warner
Elenco: Keanu Reeves, Laurence Fishburne, Carrie-Anne Moss, Hugo Weaving, Jada Pinkett-Smith, Mary Alice, Kate Beahan, Francine Bell, Monica Bellucci, Rachel Blackman, Ian Bliss
Compositor: Don Davis
Roteiristas: Andy Wachowski e Larry Wachowski
Diretor: Andy Wachowski e Larry Wachowski

Choque de realidade

No capítulo final da trilogia iniciada em 1999, os irmãos Wachowski transformam a saga de Neo em um clássico confronto entre o Bem e o Mal, e esclarecem definitivamente todas as dúvidas sobre o Universo Matrix. Ou não?

Em maio de 2003 MATRIX RELOADED deu seguimento à jornada de Neo (Keanu Reeves), Trinity (Carrie-Anne Moss) e Morpheus (Laurence Fishburne) contra as máquinas, que dominaram o mundo e escravizaram a humanidade, que vive em uma elaborada realidade virtual, a Matrix, desconhecendo por completo a terrível realidade: as pessoas não passam de meras pilhas biológicas, conectadas a gigantescas máquinas que sugam sua energia.

Hoje, ficou patente o maior equívoco cometido pelos irmãos Wachowski (os criadores) e a Warner: terem demorado quatro anos para lançar a continuação do original de 1999, que marcou época por ser uma bem bolada mistura de filosofia de almanaque, cyber-punk, religião, literatura, quadrinhos, animês, filmes de kung fu, efeitos especiais inovadores, e por aí vai. O problema foi que, no lapso de quatro anos, a concorrência inundou as telas com filmes de temática e estilo visual semelhantes (quando não simplesmente copiados) a MATRIX. Portanto, quando RELOADED estreou, mesmo que recheado de efeitos e cenas mirabolantes, ele esteve longe de ser, para o público, a experiência transcendental que o excessivo marketing prometia.

Além disso os Wachowski cometeram outro erro estratégico - a decisão de não dar entrevistas à mídia (o porta-voz deles é o produtor Joel Silver) irritou boa parte da crítica americana, que revidou com reviews negativos de RELOADED e REVOLUTIONS. Claro que somente isso não justifica a decepção de muitos fãs da série com os dois últimos capítulos, em especial REVOLUTIONS (que, estranhamente, é na maior parte das vezes reconhecido como superior ao capítulo anterior, mas gerou uma rejeição ainda maior).

A explicação talvez esteja na extrema originalidade de MATRIX, ao mesclar elementos que, vistos isoladamente, não têm nada de novo: a forma genial como foram combinados é que fez toda a diferença. Assim, por todo mundo o filme formou uma legião de seguidores que vislumbraram, ali, um manancial ilimitado de experiências e possibilidades novas, seja como cinema, seja como filosofia de vida. Em suma, levaram demasiadamente a sério o que, no final das contas, e como REVOLUTIONS deixa bem claro, era um clássico confronto entre o Bem e o Mal centrado na trajetória de um Messias, de um Escolhido (qualquer semelhança de Neo com Cristo NÃO é mera coincidência). Também, a decepção ficou por conta de os Wachowski não terem repetido a mágica, "reinventado a roda" nos filmes seguintes. Convenhamos, seria mesmo difícil que conseguissem, e me pergunto até se precisariam.

Segundo muitos, este capítulo final consagra a vitória da forma sobre o conteúdo, do comercial sobre a arte. Em parte isto é verdade, porque não nos iludamos: o sucesso de MATRIX foi inesperado, a história de que desde o início já estavam previstos três filmes é puro marketing. As duas seqüências, portanto, foram feitas de olho na caixa registradora, mas ainda assim, no meu ponto de vista, excederam às expectativas do que se poderia esperar de meros "filmes-pipoca".

Confesso que fiquei muito preocupado com a primeira meia hora de projeção de REVOLUTIONS: as cenas de Neo preso na Matrix, seus diálogos intermináveis com os programas hindus, a aparição da nova Oráculo, tudo parecia truncado, era muita conversa que, aparentemente, não levava a nada. No entanto, passada essa fase e a partir da partida de Neo e Trinity rumo à Cidade das Máquinas, e da de Niobe (Jada Pinkett-Smith) e Morpheus de volta a Zion, o filme deslancha e torna-se uma aventura de ficção científica memorável. Que, adicionalmente, conta com a trilha sonora mais épica e intensa da trilogia, baseada quase que exclusivamente na orquestra e coral de Don Davis.

REVOLUTIONS é um filme mais linear, coeso e homogêneo que RELOADED, e também o menos "Matrix" dos três filmes. Por ser a conclusão da trilogia, a trama teria que avançar, e tudo o que foi feito dentro da Matrix agora deveria, obrigatoriamente, refletir-se no mundo físico. Os criadores, não importa se por incapacidade, por uma decisão criativa ou mesmo comercial, colocaram vários pontos-chaves da história fora da Matrix. A maior parte das grandes seqüências ocorre no mundo real: o confronto de Neo com a versão em carne e osso do Agente Smith, Bane (Ian Bliss); o impressionante ataque das Sentinelas a Zion; e a chegada de Neo e Trinity à Cidade das Máquinas. 

Com essa opção por mostrar o "real" a maior parte do tempo, os Wachowski parecem ter dito às massas: "Ok garotada, coloquem de lado as teorias que propusemos em RELOADED, esqueçam a filosofia: agora é guerra, é matar ou morrer: as pessoas são  mutiladas e morrem aqui mesmo. E nem os heróis estão a salvo deste destino". Na batalha de Zion, retratada com impressionantes efeitos especiais, vemos milhares de Sentinelas atacando em bloco humanos que pilotam "Mechwarriors"; soldados são mutilados, esmagados, e personagens até então secundários, o Garoto (Clayton Watson) e Zee, a esposa de Link (Nona Gaye), mostram a que vieram e praticam atos de heroísmo; a bordo da nave que ruma para a Cidade das Máquinas, Neo e Trinity enfrentam o Smith "real", em um combate que não lembra em nada as lutas de kung fu estilizadas da Matrix. Aqui, nada de roupas negras fashion e óculos escuros: desta vez o combate é sujo, e também há sangue - e mutilação.

Porém, mesmo nas ações que se passam no mundo físico os Wachowski mantém as referências ao cinema e a outras formas de arte, algumas bem óbvias. O similar de carne e osso de Smith possui o mesmo nome do vilão que, nos quadrinhos de Batman, aleijou o Cavaleiro das Trevas - e, de forma análoga, provoca em Neo uma terrível mutilação. O líder dos "Mechwarriors" de Zion chama-se Mifune, em uma clara homenagem ao grande ator dos filmes de samurai de Akira Kurosawa. E toda a batalha em Zion é um tributo dos irmãos à estética STAR WARS.

No entanto, como que em uma volta a onde tudo começou, o momento decisivo do filme fica reservado para a Matrix: o confronto final de Neo e o Agente Smith (o excelente Hugo Weaving), que parece saída de um filme de SUPERMAN, ou uma versão live de DRAGONBALL Z. Smith, ao longo dos filmes, mostrou ser o mais rico e contraditório personagem da saga. É um programa que, ironicamente, transforma-se naquilo que mais detesta - um vírus, e ainda por cima contaminado por uma série de questionamentos e falhas tipicamente humanos. É para este duelo final com Smith, e a conclusão que se segue, que convergem todos os inúmeros caminhos traçados nos dois primeiros filmes. Dificilmente seria possível chegar a um final para a saga que agradasse a todos. Eu particularmente não me decepcionei, talvez porque, apesar de achar MATRIX um filme único, nunca o supervalorizei ou o considerei algo além do que realmente é: uma criativa, e muito boa, aventura de ficção científica.

De resto, acho que já há discussão suficiente sobre o significado do que foi mostrado ao final de REVOLUTIONS, por isso paro por aqui. Talvez por não esperar uma "reinvenção da roda", achei a conclusão da trilogia mais do que satisfatória, em um filme que, no final das contas, só é pior do que o excepcional capítulo inicial. Certo, concordo que neste filme Morpheus foi desperdiçado e não fez nada muito importante, e que - crime dos crimes - a Monica Bellucci aparece apenas em uma ponta... mas ele amarra satisfatoriamente as pontas que estavam soltas e nos revela definitivamente o que, afinal de contas, é a Matrix. Ou não?

Cotação:
Jorge Saldanha
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