06/05/2007
Uma
noite para lembrar: o concerto de Morricone no
MÚSICA EM CENA
Enfim, chegou o grande dia que todos aguardávamos. Após a coletiva realizada dia 02/05, o MÚSICA EM CENA - 1º Encontro Internacional de Música de Cinema, iniciou com o histórico evento que foi o concerto de Ennio Morricone. Pela primeira vez o Brasil foi o palco para a apresentação de um dos grandes compositores da história do cinema, e o público correspondeu lotando o tradicional Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
Já na chegada a expectativa e a ansiedade eram enormes. Nunca havíamos apoiado e feito a cobertura de um evento desta envergadura, mas felizmente tudo correu perfeitamente. Num lugar privilegiado do teatro, foi impossível não me emocionar quando o vídeo do MÚSICA EM CENA começou a passar no telão, e o público começou a ovacionar os temas conhecidos que ouvia. Infelizmente nem tudo foi perfeito, a organização teve algumas dificuldades e José Wilker, lendo sob protestos da platéia um discurso longo, deslocado e mesmo equivocado do ausente Ministro da Cultura, foi o ponto negativo da noite. Mas felizmente esses detalhes foram ofuscados, pulverizados pelas maravilhosas duas horas de música que se seguiram.
Porque
o que vimos e ouvimos ali foi a comprovação da
capacidade que a boa música de cinema, mesmo à
parte do filme para o qual foi criada, tem
de assumir o primeiro plano e emocionar
profundamente seus ouvintes. Sem as imagens em
celulóide, entram as presenças de Morricone, da
Orquestra Sinfônica da Petrobras, do Coral
Sinfônico do Rio de Janeiro e dos maravilhosos
solistas que acompanham o Maestro, como a
soprano Susanna Rigacci e a pianista Gilda Buttá.
O repertório é praticamente o mesmo do concerto
de Munique,
recentemente lançado aqui em DVD. Em
momentos de enlevo musical, noto à minha volta
mulheres soluçando, com lágrimas nos olhos, e
homens tocados pela beleza do que ecoava por
todo o teatro. Reviviam emoções já sentidas no
escuro do cinema, ali resgatadas pelos mágicos
acordes do Maestro. Momentos deslumbrantes, que
apaixonaram a platéia a ponto de, ao final,
Morricone - sem dúvida também profundamente
emocionado com a reação provocada por suas
obras-primas - retribuiu ao carinho e à paixão
com que foi agraciado com um inédito triplo bis.
Um feito e tanto para um senhor prestes a
completar 79 anos e que segue maravilhando, com
sua arte, pessoas de todas as idades, em todo o
mundo.
Para minha satisfação, um dos três bônus foi a reprise de "The Ecstasy of Gold", minha composição favorita do italiano e que, com a mão trêmula, gravei para a posteridade - um trecho da gravação pode ser conferido AQUI. Sem dúvida foi o ponto alto da parte da minha vida dedicada à paixão por trilhas sonoras. Mas outras emoções sem dúvida o evento me proporcionou, como o meu encontro, no coquetel que se seguiu, com o curador do MÚSICA EM CENA, Tony Berchmans, que como eu ainda não acreditava que aquele nosso sonho comum finalmente se concretizara. Disse a ele e repito aqui, todos nós temos para com ele um débito que nunca poderá ser pago. Porque o feito de Tony e da organização é de uma importância quase inconcebível, e que de modo amplo somente poderá ser melhor avaliado daqui a algum tempo.
Se
houve problemas, é injusto destacar falhas que
fatalmente ocorreriam na organização de um
evento deste porte, porque afinal de contas foi
graças à abnegação de um grupo de pessoas (como
qualquer ser humano, elas não são
infalíveis), que algo até há pouco considerado
impossível aconteceu. Algo pelo qual aficionados
de uma faixa etária que ia dos 15 aos 90 anos,
aguardavam ansiosanente. Pessoas como Clesius
Marcus Real de Aquino, provavelmente o maior
colecionador de trilhas sonoras brasileiro, e
Márcio Alvarenga, estudioso que mantém em Minas
um dos raros programas radiofônicos nacionais
dedicados à música do cinema, além de ser
colaborador do ScoreTrack. Ambos,
amigos com quem há anos travo profícuos contatos
à distância e que finalmente pude conhecer
pessoalmente. Pessoas como Remo Usai, autor da
trilha sonora do clássico filme nacional ASSALTO
AO TREM PAGADOR, a quem tive o privilégio de
conhecer. E tive também um momento tiete - pude
abraçar a querida Renata Boldrini, que além de
linda e competente, mostrou ser pessoalmente
aquela mesma pessoa simpática e radiante que
conheci através da telinha.
Enfim, o MÚSICA EM CENA não poderia ter iniciado de melhor maneira. Indiscutivelmente foi um concerto que poderá ofuscar as palestras, shows e concertos que se seguirão. Mas que não deixa dúvidas - o Brasil está pronto para realizar, com sucesso, novos eventos do gênero, e este foi apenas o primeiro de muitos e gloriosos que se seguirão.
08/05/2007
MÚSICA EM CENA: Painel "A Importância da Música na Narrativa Cinematográfica"
O nosso MÚSICA EM CENA - 1º Encontro Internacional de Música de Cinema, teve seguimento com este interessante painel realizado no auditório de O Globo. Dele participaram a pianista, cantora e compositora norte-americana Lisbeth Scott, o compositor Marcus Viana e o diretor Cacá Diegues, com a coordenação do jornalista, estudioso da música de cinema e escritor João Máximo.
O painel foi aberto com uma apresentação de Lisbeth Scott, que ao piano interpretou sua canção "Where" de As Crônicas de Nárnia: O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa. Após a apresentação, Lisbeth e os participantes assumiram seus lugares e passaram a responder perguntas da platéia, encaminhadas por escrito, ou as que João Máximo fazia na hora.
A simpática Lisbeth respondeu à primeira pergunta, formulada pelo ScoreTrack, a respeito de sua experiência de trabalho com John Williams. Ela não poupou elogios ao profissionalismo e cavalheirismo de Williams, que utilizou os vocais da artista nos temas "Munich, 1972" e "Remembering Munich". Lisbeth ainda respondeu sobre Hans Zimmer, a quem considera um sujeito "de muita sorte e esperto, que trabalhou em alguns filmes extremamente bem sucedidos". Também comentou sobre como foi seu ingresso no mundo das trilhas, e questionada sobre Ennio Morricone, ressaltou a importância dele e de sua trilha A Missão como norteadora de sua carreira.
Lisbeth Scott, Marcus Viana, Cacá Diegues e João Máximo
Marcus Viana, em suas respostas, discorreu sobre seus trabalhos para cinema e TV, em especial Olga e o recente documentário O Mundo em Duas Voltas. Sempre é interessante ouvir um compositor falar sobre seu processo criativo, que no caso de Viana sempre esbarra na precariedade de recursos do cinema nacional. Ele falou que em Olga tinha a esperança de trabalhar com uma orquestra de cordas, mas o dinheiro acabou e ele teve de gravar, sozinho, os 18 instrumentos. Esta "orquestra de um homem" também expressou sua admiração por grandes compositores do cinema, como Miklos Rozsa e John Williams.

Lisbeth Scott e este que vos escreve
Já o diretor Cacá Diegues demonstrou ser um grande conhecedor do cinema e de trilhas sonoras, explanando sobre o uso da trilha incidental/canções em seus filmes, a questão dos direitos autorais, a edição de trilhas nacionais em disco, etc. Destacou a importância do trabalho de Bernard Herrmann nos filmes de Hitchcock, e manifestou o discutível ponto de vista de que músicos que eventualmente fizeram incursões no cinema, como Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e Miles Davis, podem ser considerados compositores de trilhas sonoras.
Enfim, este foi um painel que certamente agradou a todos os presentes, e que deu com êxito seguimento a este projeto único (em termos de Brasil) que é o MÚSICA EM CENA.
O compositor Remo Usai e a equipe do ScoreTrack: Jorge Saldanha, Tarso Ramos e Cesar Ehmann
11/05/2007
MÚSICA
EM CENA: Painel "Profissão: Compositor"
Nosso MÚSICA EM CENA - 1º Encontro Internacional de Música de Cinema encaminha-se para seu encerramento, que infelizmente não vou poder acompanhar porque já estou retornando para Porto Alegre. Entre outras coisas, não assistirei ao show e painel de Gustavo Santaolalla e o concerto de encerramento regido por Júlio Medaglia. Mas hoje ainda pude comparecer ao interessante painel “Profissão: Compositor”.
O painel contou com a participação do diretor Sérgio Rezende (O Homem da Capa Preta, exibido após o painel), de sua esposa e produtora Mariza Leão, do pesquisador e restaurador de cinema Hernani Heffner e do compositor Ney Carrasco. Mais uma vez, os debates foram conduzidos pelo compositor David Tygel. Os painelistas dividiram suas experiências com os presentes, tendo Mariza Leão dado um interessante insight sobre o papel do produtor nos aspectos relativos à música do filme - contratação de compositores, seleção de canções, pagamento de direitos autorais, orçamento para a música, etc.
Sérgio Rezende e Mariza Leão
Rezende exibiu trechos de alguns de seus filmes que tiveram trilhas incidentais de Jaques Morelembaum e Tygel, como exemplos de música aplicada à imagem. Tygel, por sua vez, exibiu partes do filme de 1991 (inédito no Brasil) A Child of the South, no qual ele e Rezende trabalharam. Neste filme, Tygel desenvolveu sua partitura a partir de uma canção de ninar africana, cantarolada no início por um dos personagens.
Rezende, Leão, Heffner, Tygel e Carrasco
Heffner explanou sobre o desenvolvimento da trilha sonora no cinema nacional, desde o advento do som até os dias de hoje, destacando as gerações de compositores que nele atuaram. Carrasco, que assim como Tygel leciona música de cinema, falou sobre técnicas de composição. Juntamente com os demais convidados, na parte final do painel respondeu às perguntas da platéia, boa parte dela formada por alunos da PUC - RJ e de músicos que começam a aventurar-se nas trilhas de teatro, comerciais e cinema experimental. Mas então é isso, leitores. Em breve, teremos em nosso site mais artigos e matérias relativas a esta 1ª edição do MÚSICA EM CENA, realizados por nossos colaboradores que permaneceram cobrindo o evento até o seu final.
10/05/2007
MÚSICA EM CENA: Painel e shows de Lisbeth Scott e Wagner Tiso
Por problemas decorrentes do temporal que atingiu o Rio no dia 09/05, não pude comparecer ao painel do MÚSICA EM CENA - 1º Encontro Internacional de Música de Cinema “O Processo de Concepção da Música de Cinema”, que segundo os presentes foi muito interessante. Mas hoje estive na PUC - RJ para acompanhar o painel que deu seguimento ao do dia 08/05, que tratou do mesmo tema - "A Importância da Música na Narrativa Cinematográfica". Novamente presentes, João Máximo, Cacá Diegues e Marcus Viana. Desta vez a coordenação dos trabalhos ficou a cargo de David Tygel, um dos raros compositores brasileiros que se dedica exclusicamente às trilhas sonoras. Juntando-se ao grupo de discussões, o consagrado ator de TV e cinema, José Wilker.
David Tygel, Cacá Diegues, José Wilker, Jõao Máximo e Marcus Viana
Para exemplificar a importância da Música na narrativa cinematográfica foram projetados trechos de filmes como 2001 - Uma Odisséia no Espaço e La Nave Va. Os presentes fizeram várias perguntas aos painelistas, com temas tão variados quanto o processo de criação da música, a influência do diretor no trabalho do compositor, a evolução da trilha sonora desde os trabalhos dos veteranos da Golden Age até os dias de hoje, a crescente edição de trilhas antigas em CD, etc. Foi interessante comparar as opiniões contrastantes dos painelistas, em razão de sua área de atuação. Mais uma vez presente na platéia, o veterano compositor Remo Usai recebeu uma merecida homenagem pelo seu importante e infelizmente não reconhecido trabalho.
Tygel e Cacá Diegues
Mas o painel, encerrado com a exibição do filme Olga (trilha de Marcus Viana), foi apenas a primeira atividade do dia. À noite, no Canecão Petrobras, ocorreu um grande show com a cantora, pianista e compositora norte-americana Lisbeth Scott, um dos maiores compositores brasileiros do cinema, Wagner Tiso, e seus convidados Tony Garrido e Elba Ramalho.
Wagner Tiso no Canecão Petrobras
Mas quem conquistou mesmo uma platéia inicialmente fria foi Lisbeth Scott, com sua beleza, simpatia e principalmente talento. Em sua apresentação de uma hora, que abriu o show, ela interpretou várias de suas canções ouvidas em filmes como As Crônicas de Nárnia, Cruzada e A Paixão de Cristo. Sua interpretação de "Remembering Munich", da trilha de Munique, composta especialmente para ela por John Williams, foi emocionante. Lisbeth compôs as letras da música em quatro idiomas, a pedido do diretor Steven Spielberg. Um trecho da interpretação desta canção pode ser conferido AQUI.
Lisbeth Scott: talento e simpatia no Canecão
Infelizmente não pude acompanhar a apresentação de Wagner Tiso até o fim, pois tive a rara oportunidade de encontrar com Lisbeth nos bastidores. Nem pensei duas vezes para falar novamente com ela, após o painel do dia 08/05, e pedi-lhe que autografasse o CD que comprara no saguão. A conversa foi rápida, mas suficiente para que eu lhe desejasse muito sucesso e dissesse que ela era a artista mais doce que já conhecera. Pode ser impressão minha, mas acho que ela estava um pouco ruborizada enquanto autografava o disco. Seja como for saí do Canecão feliz, com meu CD autografado e a certeza de que o MÚSICA EM CENA, de fato, está sendo uma experiência única.

