Não há filmes de
Spielberg sem John
Williams...
não há suspense sem
Bernard
Herrmann...
e não há filmes de animação sem Alan Menken, principal compositor da
história da Disney e segundo da história das trilhas em Oscars
ganhos (até 2008 ele levou oito Oscars, um a menos que
Alfred Newman,
com nove, e dono do recorde entre os compositores), e terceiro maior
vencedor (perdendo para Newman e Walt Disney, este com 32 prêmios da
academia), além de ser o maior vencedor ainda vivo. Tudo isso
assusta? E muito, considerando o fato de Menken ter feito apenas 13
trilhas para o cinema, até a data em que foi escrito este artigo. Mas para quem não conhece a trajetória do
"Senhor Melodia" (como é chamado pelos críticos e companheiros
cinematográficos), apresento- lhes a história de um compositor que
tinha tudo para virar dentista, mas que acabou nos palcos da
Broadway, e nos tapetes vermelhos do Oscar.
Alan Menken
nasceu em New Rockelle, Nova York, em 1949 e, como já foi afirmado
anteriormente, ele tinha tudo para transformar- se em dentista, já
que seu pai, seu tio e alguns primos atuam na profissão. Mas por um
talento natural, e até mesmo uma vocação, ele desde criança mostrava
uma aptidão especial para a música. Segundo seu pai, quando este
tocava piano, Alan, ainda pequeno, conseguia alcançar qualquer nota
tocada com a voz. Como muitos outros compositores, ele aprendeu
piano, violino e acordeom. Aos 18 anos, entrou na faculdade para ser
paramédico, e acabou conhecendo várias pessoas relacionadas à arte,
incluindo Howard Ashman, um homem que seria fundamental na sua
carreira. Nessa mesma época, também conheceu uma bailarina que se
tornaria sua esposa, Jane, e algumas canções de amor feitas para
seus filmes foram baseadas em seu amor por ela. No final da década
de 1970, Ashman convidou Menken para compor um musical e, no inicío
da década de 1980, eles lançaram na Broadway "A Pequena Loja dos
Horrores", musical que tornou- se grande sucesso e que, em 1985 teve
uma adaptação cinematográfica que valeu em 1986 a primeira indicação
ao Oscar a Menken, na categoria de melhor canção. Isto foi
suficiente para chamar a atenção de pessoas importantes, incluindo
Ron Clements e John Musker, diretores de animação da Disney, que
convidaram Ashman e Menken para os ajudarem a criar um novo filme de
animação que fizesse sucesso em um patamar maior. Eles desenvolveram
então, a idéia de A Pequena
Sereia, história baseada no livro de Hans Christian Andersen.
Além de compositor, Alan foi também co- autor da história, assim
como Howard. O projeto, que levou 2 anos para ser levado às telas e
não era visto com total bons olhos por Jefrey Katzenberg (na época
chefe do departamento de animação da Disney e atual dono da
DreamWorks, ao lado de Steven Spielberg), que achava que o filme não
faria o mesmo sucesso de O
Ratinho Detetive e
Oliver e sua Turma, ambos filmes antecessores lançados pelo
estúdio. Mas o que aconteceu foi justamente o contrário- o filme não
só fez um sucesso muito maior (tanto de bilheteria, quanto de
crítica), como aclamou a trilha e as canções compostas por Menken
(com letras de Howard Ashman) - e não foi por menos, já que a trilha
sonora de A Pequena Sereia
é uma preciosidade. O sucesso do filme foi tão grande que os
críticos anunciaram a "Renascença da Disney", onde estava surgindo
uma nova era gloriosa no estúdio. O ápice do filme veio então na
entrega do Oscar, onde faturou 2 prêmios: Melhor Trilha e Melhor
Canção para "Under the Sea'', além da indicação de melhor canção
para "Kiss the Girl'' - Alan ganhou então os seus primeiros dois
Oscars.
Depois de
A Pequena Sereia, Menken
trabalhou na trilha de A
Bela e a Fera (que até hoje é considerada pelos críticos
como seu maior e melhor trabalho - além do filme ser considerado
como a melhor animação de longa-metragem da história) e, embora
estivesse muito feliz com o sucesso anterior, trabalhou de maneira
muito sensível no filme, pois seu amigo e parceiro profissional
Howard Ashman contraíra AIDS e sabia que estava com os dias
contados. Ao longo do desenvolvimento da produção do filme, Ashman
ia convalescendo cada vez mais e, como um estúdio que age de maneira
correta, a Disney mandou todos os músicos e produção à Nova York,
para que eles ficassem mais perto de Howard. A situação era
realmente muito delicada, e Menken sempre se lembra de um fato que
ocorreu durante as gravações, onde Howard queria fazer um comentário
durante a canção "Something There" para que Paige O'Hara (voz de
Bela) cantasse do jeito de Barbra Streisand, comentário que só foi
escutado quando todos fizeram muito silêncio. Houve então um clima
de tristeza pois, antes mesmo do filme ser lançado, Howard Ashman
faleceu - e Alan Menken chegou a pensar que a sua carreira estaria
acabada (no que ele estava muito enganado). O filme foi lançado,
aclamado e, considerado pelos críticos como "o melhor musical da
Broadway que não está nos palcos e sim nas telas do cinema em forma
de animação". Mais uma vez Menken ganhou dois Oscars (Melhor Trilha
e Melhor Canção para "Beauty and the Beast", além de mais duas
canções do filme terem sido indicadas: ''Be Our Guest'' e ''Belle''),
e Howard Ashman foi merecedor do primeiro Oscar póstumo da história
por uma pessoa que morreu de AIDS.
Depois
de A Bela e a Fera, para
preencher a lacuna aberta pela morte de seu amigo, Alan chamou Tim
Rice para compor as últimas canções de
Aladdin (e algumas
canções para a versão da Broadway de
A Bela e a Fera), outro
filme da Disney pelo qual os produtores não tinham muita expectativa
de um sucesso estrondoso como o de
A Bela e a Fera. Com Tim,
Menken compôs ''One Jump Ahead'' e ''A Whole New World" (as outras
músicas foram escritas ainda por Ashman quando este estava vivo),
sendo que esta última fez um sucesso meteórico nos Estados Unidos,
ficando em primeiro lugar da Billboard e dando a Menken 4 Grammys. O
sucesso de ''A Whole New World" foi tão grande que as pessoas iam
assistir Aladdin só para
ouvir a música (o que fez com que, em termos de Bilheteria, o filme
tenha faturado mais do que A
Bela e a Fera nos EUA). Mais uma vez Menken ganhou dois Oscars
(Melhor Trilha e Melhor Canção, além de ter sido indicado ao Oscar
de canção também por ''Friend Like Me''), e transformou- se em um
compositor aclamado totalmente. Ofereceram- lhe então o projeto de
levar às telas a história de
Pocahontas, o que fez com que Alan tivesse de recusar a trilha
de O Rei Leão, por estar
envolvido com o filme sobre a princesa índia.
O Rei Leão fez um
sucesso realmente muito grande no mundo inteiro e, quando
Pocahontas foi lançado,
não houve o mesmo interesse das pessoas em ir assistir um filme de
animação. Mas isso não atrapalhou a carreira de Alan, já que a
principal canção do filme ''Colours of the Wind'' (composta em
parceria com o iniciante na época Stephen Schwartz) fez grande
sucesso, e é considerada a melhor música já feita por Alan. Por
Pocahontas Alan levou
mais dois Oscars (Melhor Trilha e Melhor Canção), e chegou ao
patamar de oito Oscars por quatro trilhas.
Após
Pocahontas ele compôs as
trilhas de O Corcunda de
Notre Dame (que foi indicado ao Oscar de Melhor Trilha) e de
Hércules (onde foi
indicado ao oscar de melhor canção), ambos filmes com excelentes
scores, mas que não
fizeram tanto sucesso quanto os anteriores. Houve então uma parada
nas trilhas de cinema durante sete anos. Talvez porque os filmes da
Pixar começaram a ser lançados (e John Lasseter, chefe da Pixar,
achar Alan clássico e musical demais) e Menken mesmo querer dar uma
parada devido ao trabalho contínuo de dez anos. Em 2002 ele foi
convidado por Will Finn (animador da Disney que trabalhara em filmes
como A Bela e a Fera,
Aladdin e
O Corcunda de Notre Dame)
para fazer a trilha da animação
Nem que a Vaca Tussa,
que seria a última animação tradicional da Disney. A pausa de Menken
foi então quebrada e ele fez a trilha do filme, que foi lançado em
2004 e obteve boas críticas em geral. Em 2004 também ele lançou a
trilha de Anjo de Vidro,
filme protagonizado por Alan Arkin, Penélope Cruz, Susan Sarandon e
Paul Walker, e que mostra uma faceta nova de Alan: a composição para
um filme real e dramático. Em 2006 ele lançou a trilha de
Soltando os Cachorros,
mas foi com o convite para compor a trilha de
Encantada é que Alan
viu-se envolvido em um projeto realmente importante. O filme,
dirigido por Kevin Lima (diretor de
Tarzan e
102 Dálmatas), seria uma
comédia que teria a intenção de misturar atores reais com animação
(no mesmo formato de Uma
Cilada para Roger Rabbit e
Mary Poppins), e fazer
uma caricatura das histórias lançadas pela própria Disney. Alan
chamou Stephen Schwartz para fazer as letras e, ao lado de Kevin
Lima, escolheu a pouco conhecida Amy Adams (que só era conhecida por
sua indicação ao oscar por
Retratos de Família) entre 300 atrizes que fizeram o teste
(sendo que algumas bem famosas). Encantada marcou, em 2007, a
verdadeira volta de Alan Menken aos grandes filmes. O longa fez
grande sucesso de bilheteria e crítica, consagrou Amy Adams (que foi
comparada a Julie Andrews) e deu a Alan três indicações ao
Oscar (pelas canções ''Happy Working Song'', ''That's How You Know?''
e ''So Close'') e, segundo muitos, só não ganhou mais um Oscar
justamente por já ter oito estatuetas no currículo (se ele ganhasse
um nono ele se igualaria a Alfred Newman, sendo que este tem muito,
mas muito mais trilhas compostas para filmes do que Alan), mas foi o
suficiente para destacar o nome do compositor novamente ao mundo do
cinema.
Em 2008 Alan
passou a se dedicar a trazer os filmes da Disney à Broadway:
A Pequena Sereia já foi
lançado (com muito sucesso diga- se por sinal), e
O Corcunda de Notre Dame
será lançado até o final do ano. Alan também está envolvido em um
projeto com Taylor Hackford (diretor de
Ray) e Helen Mirren, que
será lançado na Broadway em 2009. Diante de uma carreira tão
fabulosa e meteórica, Alan Menken conseguiu ultrapassar grandes
nomes das trilhas da Disney como Frank Churchill, New Washington e
os irmãos Sherman, e se consagra hoje como o maior e mais importante
compositor já existente na história da Disney. E como Alfred Newman,
John Williams, Bernard Hermann,
Jerry
Goldsmith
e
Ennio
Morricone,
conquistou o status de
um compositor que fez algo original e diferente, deixando a sua
marca no mundo do cinema. Suas trilhas jamais serão esquecidas, e
acredito que veremos ainda muitas outras trilhas maravilhosas saindo
de sua inspiração inebriante. "O Senhor Melodia" ainda terá muita
história para contar.
Filmografia de Alan
Menken, cortesia de
Internet Movie Database