MEU TIO MATOU UM CARA (Brasil, 2004)
Gênero: Comédia
Duração: 87 min.
Elenco: Ailton Graça, Darlan Cunha, Deborah Secco, Dira Paes, Lázaro Ramos, Renan Gioelli, Sophia Reis
Compositores: André Moraes, Caetano Veloso
Roteiristas: Guel Arraes, Jorge Furtado
Diretor: Jorge Furtado

Cinema sem culpa

Novo filme de Jorge Furtado reafirma sua condição de verdadeiro autor, e de quebra nos mostra um lado pouco conhecido de Porto Alegre

Que bom que aqui no Brasil existe um cineasta como Jorge Furtado. Pode-se ir com tranqüilidade ver um de seus filmes. Já vou para o cinema esperando algo, no mínimo, gostoso de ver. MEU TIO MATOU UM CARA (2004) é o terceiro filme de uma espécie de "trilogia do rapaz apaixonado", iniciada com HOUVE UMA VEZ DOIS VERÕES (2003) e O HOMEM QUE COPIAVA (2003).

Destavez, o cara apaixonado é Duca (Darlan Cunha), que está doidinho por sua colega de sala de aula Isa, interpretada por Sophia Reis (filha de Nando Reis). O problema é que ela gosta mesmo é do Kid (Renan Gioelli, que está também no filme BENS CONFISCADOS, de Carlos Reichenbach, ainda inédito no circuito comercial). Completando o grande elenco temos Aílton Graça e Dira Paes como os pais de Duca, Lázaro Ramos como o tio do título e Deborah Secco, como a amante do tio.

Inicialmente o filme me pareceu ter uma estrutura teatral, já que começa com Lázaro Ramos entrando no apartamento do irmão e dizendo que matou um cara. Nada se vê sobre o incidente. Não se vê a arma, nem o corpo, nenhum flashback reconstituindo o fato. As informações que temos são passadas através de conversas ou de jornais. Mas o filme vai mudando de tom e vê-se que essa teatralidade não é algo constante no filme.

Mais até que em O HOMEM QUE COPIAVA, a trama de crime é só um pretexto para o desenvolvimento da relação afetiva dos personagens. Nos filmes de Jorge Furtado, o amor é mais importante que tudo. Tanto que até mesmo os crimes e pecados são praticamente isentos de culpa. Apesar de usar o mcguffin como Hitchcock, diferente dos filmes do mestre inglês, não vemos aqui a culpa cristã, mas uma agradável sensação de libertação. Basta lembrar do final de O HOMEM QUE COPIAVA, com os protagonistas que, mesmo tendo matado e roubado, são saudados pelo Cristo Redentor, que os abraça e perdoa. O amor supera todos esses "detalhes".

Seguindo esse raciocínio, dá pra lembrar do personagem de André Arteche em HOUVE UMA VEZ DOIS VERÕES, e de seu amor por uma pessoa que não foi nada honesta com ele. Mas a paixão que ele sente por ela é suficiente para que o espectador não sinta repulsa ou raiva da personagem feminina. Algo parecido acontece com a personagem de Deborah Secco, que independente do que possa ter feito não é, em nenhum momento, antipatizada pelo público. Muito pelo contrário.

Já que comecei a fazer comparações com os outros filmes, daria também para fazer paralelos com os dois casais dos últimos filmes de Furtado: Darlan Cunha e Sophia Reis em MEU TIO MATOU UM CARA seriam os equivalentes aos personagens de Lázaro Ramos e Leandra Leal em O HOMEM QUE COPIAVA, tanto por conta da cor da pele do rapaz, quanto pela aparência simples da moça. Já os personagens de Lázaro e Deborah seriam os equivalentes do bobalhão de Pedro Cardoso e da gostosa de Luana Piovani.

As referências à cultura pop, à televisão, ao cinema, à Internet e ao videogame aparecem ainda mais fortes nesse novo filme. Os créditos iniciais, inclusive, são apresentados em cima de um jogo de computador. A Internet é parte essencial da vida do jovem, seja para se procurar um detetive particular, seja para conversar via programas de chat. Apesar disso ser uma realidade atualmente, isso não é muito mostrado nos filmes.

Os diálogos são sempre interessantes. Assim como nos filmes de Tarantino, os diálogos não precisam ter uma relação de importância direta com a trama principal. Destaque para a cena em que Duca e Isa vão comprar CDs e estão com apenas vinte reais. Ela pergunta: "compramos um original ou quatro piratas?" Achei isso bem ousado, já que se poderia alegar que o filme estaria incentivando a compra de CDs ilegais, principalmente levando-se em consideração que ele foi produzido também com dinheiro da Rede Globo. Por outro lado, isso não deixa de ser uma crítica aos altos preços dos discos no país, contrastantes com o baixo poder aquisitivo do povo brasileiro.

O dinheiro - ou a falta de - é também elemento importante nos três filmes de Furtado, principalmente em O HOMEM QUE COPIAVA, em que Lázaro Ramos corria atrás de 38 Reais para comprar um presente para a Leandra Leal. Em HOUVE UMA VEZ DOIS VERÕES, temos o rapaz inocente que tem que conseguir grana para bancar um aborto. Falando em falta de dinheiro, numa das poucas cenas externas que o filme possui, Furtado mostra uma visão pouco conhecida de Porto Alegre. Normalmente não se imagina que Porto Alegre tenha favelas ou casebres.

Acho muito interessante perceber, vendo todas essas semelhanças entre os filmes, que estamos diante de um novo autor dentro da cinematografia brasileira. E com a vantagem de que é um autor que dialoga bem com o público desde o seu primeiro grande sucesso, com o genial e premiado curta ILHA DAS FLORES (1989). Entre as ótimas canções da trilha sonora, fiquei particularmente interessado em "Por Onde Andei", cantada por Nando Reis.

Cotação:
Ailton Monteiro
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