MINORITY REPORT - A NOVA LEI (Minority Report, EUA, 2002)
Gênero: Ficção Científica
Duração: 145 min.
Estúdio: Fox
Elenco: Tom Cruise, Colin Farrell, Max von Sydow, Samantha Morton, Steve Harris, Neal McDonough, Patrick Kilpatrick, Jessica Capshaw
Compositor: John Williams
Roteiristas: Scott Frank, Jon Cohen
Diretor: Steven Spielberg

Entre Luzes e Sombras

Steven Spielberg nos apresenta o futuro imaginado por Philip K. Dick em um filme cheio de contrastes

Nos seus 2 últimos filmes (A.I. e este Minority Report), Steven Spielberg tentou combinar dois estilos - o das fantasias de ação que lhe deram fama e o dos filmes sérios, que lhe renderam a consagração da Academia de Cinema. Em A.I. o frio conceito original de Stanley Kubrick por vezes se chocava com a visão mais sentimental de Spielberg, mas ainda assim o filme funcionava se visto, na essência, como um conto de fadas. Já a sua mais recente incursão pela ficção-científica é um thriller futurista, mais uma ficção "noir" baseada em um conto do escritor Philip K. Dick (a exemplo do clássico BLADE RUNNER e do movimentado O VINGADOR DO FUTURO) que, por sua vez, também apresenta diferenças conceituais impostas pelo diretor.

Na Washington de 2.054, os assassinatos podem ser previstos graças a três precogs (pré-cognitivos) que vivem reclusos em uma organização chamada Pré-Crime, chefiada por Lamar (Max Von Sydow). Com base nessas previsões, uma força policial comandada pelo oficial John Anderton (Tom Cruise) é capaz de prender o potencial criminoso antes mesmo que ele cometa o assassinato. O sistema vem apresentando bons resultados e está prestes a ser adotado nacionalmente, ao mesmo tempo em que um jovem agente do FBI (Colin Farrell) é destacado para avaliar o desempenho de Anderton e da própria Pré-Crime. Mas o inesperado acontece: a precog Agatha (Samantha Morton) tem uma visão que mostra claramente Anderton assassinando um homem, e a partir de então o policial vê o sistema que defendeu por anos voltar-se contra ele, em uma trama complexa que Spielberg procura conduzir com a sua habitual competência.

Durante grande parte da projeção testemunhamos um futuro cheio de contrastes, na verdade em uma extrapolação do que já vivemos hoje. Em determinadas cenas vemos uma cidade luminosa, repleta de carros que correm em pistas horizontais e verticais, condomínios residenciais da classe média arborizados e limpos, etc.; em outras, becos e conjuntos habitacionais imundos que abrigam os párias de uma sociedade que, nos anos que antecederam ao Pré-Crime, vinha experimentando um crescente aumento no índice de homicídios. Esses diferentes ambientes são visitados por Anderton, seja em sua busca por drogas - ele é viciado por sentir-se culpado pelo desaparecimento de seu filho – seja ao fugir de seus ex-companheiros, em algumas seqüências de muita ação. Aliás, uma delas ocorre na linha de montagem de uma fábrica de automóveis, sendo curiosamente muito semelhante à de Anakin Skywalker na linha de montagem dos andróides em STAR WARS: EPISÓDIO II - ATAQUE DOS CLONES. Pelo jeito, uma mútua citação dos amigos Spielberg e Lucas.

No futuro engendrado por Dick e Spielberg, todas as informações de uma pessoa estão armazenadas em sua retina, e onde quer que se vá, scanners identificam o indivíduo. Neste sentido o filme tem momentos muito bem engendrados, como a seqüência na qual “aranhas escaneadoras” invadem um "pardieiro" atrás de Anderton, que após substituir cirurgicamente seus olhos, se esconde em uma banheira cheia de gelo enquanto os aparelhos lêem as retinas dos vizinhos. Em outro momento, Anderton entra em um shopping no qual as pessoas, após serem escaneadas, são bombardeadas por mensagens publicitárias personalizadas. Seria algo como se os “cookies” de computador saltassem do mundo virtual para o real, eliminando toda a privacidade das pessoas. Sim, MINORITY REPORT, apesar de seu clima "noir" e de suas cenas de ação alucinantes, tem um lado de "denúncia" do poder opressivo do Estado e da eliminação da privacidade dos cidadãos.

Mas Spielberg não se aprofunda na discussão e mesmo a abandona a certa altura, juntamente com o clima sombrio e pessimista que até então predominava. Anderton descobre que a chave para desvendar o mistério de seu crime futuro pode estar em um registro (o “Minority Report" do título) contido na mente da precog Agatha, e decide retornar ao Pré-Crime para seqüestrá-la. As reviravoltas da trama, típicas dos filmes "noir", vão acontecendo, até que em determinado momento não imaginamos como Anderton poderá sair da encrenca em que se meteu. Mas aí chegamos perto da conclusão do filme, e indubitavelmente o final decepciona um pouco, não tanto pelo que acontece, mas pelo modo como Spielberg o conduz. “Apressado” e “Simplista” são os adjetivos que me vêm à cabeça, mas poderia haver outros.

O fato é que o espectador não deve se iludir: apesar de ser talvez a obra mais sombria da carreira do diretor, e por boa parte do tempo acharmos que ela tem maiores pretensões, MINORITY REPORT é um típico exemplar do “cinemão” norte-americano, um filme de verão feito para levar multidões aos cinemas. A diferença é que ele é mais sério do que a média desse tipo de produção, e a tecnologia não é o chamariz principal, mas sim um valioso complemento da trama. Se por um lado temos várias cenas feitas em CGI, de outro vários truques são feitos on camera. Até mesmo a música de John Williams, que tende a sobressair-se nos filmes de Spielberg, aqui assume o papel secundário que tradicionalmente é reservado à trilha sonora.

MINORITY REPORT é um filme que apresenta um futuro cheio de contrastes, e que também os possui estruturalmente (contradições?), mas que ao final acaba sendo uma obra que pelo menos rivaliza O VINGADOR DO FUTURO, outra boa adaptação de um conto de Philip K. Dick. Mas sem dúvida nada mais é do que entretenimento, e por isto mesmo está longe de ser um BLADE RUNNER.

Cotação:
Jorge Saldanha
FILME EM DESTAQUE