CIDADE DOS SONHOS (Mulholland Drive, EUA, França , 2001)
Gênero: Suspense 
Duração: 146 min 
Elenco: Justin Theroux, Naomi Watts, Laura Harring, Ann Miller, Robert Forster, Dan Hedaya, Angelo Badalamenti, Mark Pellegrino
Compositor: Angelo Badalamenti
Roteirista: David Lynch 
Diretor: David Lynch 

Me engana que eu gosto

"A vida real também não faz sentido", é a explicação de Lynch para a falta de nexo de seu último filme. Bom, só se for a dele... 

David Lynch já foi um dos mais originais cineastas de vanguarda dos EUA. Filmes como VELUDO AZUL, ERASERHEAD, CORAÇÃO SELVAGEM e mesmo DUNA (seu maior fracasso) fizeram a cabeça de vários cinéfilos nos anos 80 e 90, com suas altas doses de personagens bizarros e situações de total non-sense. Mas, mesmo assim, as obras dele sempre prezaram pela coerência e lógica, mesmo que francamente malucas. 

Muitos apregoam uma decadência total de Lynch nos dias de hoje. Confesso que o último filme dele que assisti havia sido OS ÚLTIMOS DIAS DE LAURA PALMER, que realmente é muito ruim - ainda mais se considerarmos o quanto foi boa a série TWIN PEAKS, na qual baseia-se. Seu mais recente filme, CIDADE DOS SONHOS, também gerou bastante polêmica: uns o consideraram uma obra-prima complexa e repleta de mensagens subliminares, enquanto outros o viram como um exercício patético e grotesco de estilo, totalmente sem sentido e montado às pressas e toscamente. Sou daqueles que embarcaram na segunda opção. Ainda mais depois de ficarmos sabendo que o filme nada mais é do que um episódio-piloto rejeitado para série de TV, que foi esticado e completado à força por Lynch para poder lançá-lo nos cinemas e lucrar alguns trocados... 

Se não bastasse isso, o filme ainda é deficiente em quase todos os sentidos, mal feito, com fotografia sem graça (para TV) e um elenco muito fraco (a atriz que faz a tal de "Rita", Naomi Watts, tem tanto silicone no corpo que mais parece um travesti). A trama em si, embora tenha um início interessante e promissor, nem vale a pena ser resumida, pois foi sumariamente reduzida de um roteiro (do próprio Lynch) que deveria ter virado uma série (no estilo de TWIN PEAKS) e nunca um longa! 

Triste mesmo é ver que tanta gente embarcou nesse engodo produzido engenhosamente pelo diretor, que embrulhou seu filme numa embalagem bastante atraente àqueles que adoram ficar quebrando a cabeça para decifrar os significados "escondidos" por trás de tramas propositalmente sem nexo e lógica. Lynch, brilhantemente temos que admitir, soube manipular muito bem as aparências, transformando um filminho medíocre para TV de uma hora de projeção em um longa-metragem de duas horas e dez minutos, totalmente sem pé nem cabeça mas recheado de imagens oníricas, seqüências letárgicas, conteúdos pseudo-psicológicos e erotismo semi-pornográfico. 

Pior mesmo é ver o diretor tentando explicar a total falta de lógica do filme com a seguinte frase: "A vida real também não faz sentido". Ah, conta outra! Só se for a vida dele... E tem gente que engole isso e ainda tenta imprimir ao filme a alcunha de "genial". Lynch deve divertir-se muito com eles.   

Cotação: *

André Lux

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