MURRAY GOLD
Entrevista exclusiva para o ScoreTrack.net

Murray Gold é um dos mais talentosos compositores ingleses da TV e do cinema, em ascenção. Hoje seu nome é mais conhecido mundialmente graças à música que compõe para a nova versão da premiada série de ficção científica Doctor Who. Em julho de 2007 Gold concedeu ao nosso editor Jorge Saldanha esta entrevista exclusiva, onde ele fala sobre seus projetos passados, presentes e futuros.

Murray Gold

Jorge Saldanha - Sr. Gold, saudações do ScoreTrack.net. Somos um website brasileiro sobre cinema e trilhas sonoras, e é uma honra podermos realizar esta entrevista. Então, vamos começar pelo básico: onde você nasceu?
Murray Gold - Olá Jorge. Eu nasci em Portsmouth, na costa sul da Inglaterra, que já foi principalmente uma cidade de trabalhadores navais.

JS - Qual é a sua formação musical? Você teve um treinamento clássico?
MG - Eu aprendi a tocar piano aos 6 anos. Minha professora cobrava muito pouco, 25 pences por meia hora de aula. Ela ensinou minha avó e não quis mudar o preço. Meus pais provavelmente não gastaram mais do que £100 em todas as minhas aulas de piano. Mais tarde também tive aulas de clarinete. Na escola estava mais interessado em improvisar e compor canções do que tocar. Nunca fui um músico excelente. Eu sei que no seu país há excelentes músicos por toda a parte. (A propósito, eu adoro a música do Brasil, e já toquei piano para Flora Purim)

JS – Flora Purim? Fantástico, ela e seu marido Airto Moreira são de fato grandes músicos. Bem, pelo que sei você começou a compor música para o teatro. Isto é correto?
MG - Sim e não. Antes disso eu estava compondo para competições na escola, e escrevi canções para ficar popular entre as garotas. Eu as interpretava ao piano. Sabe, isso funciona! Mas quando fui para a universidade eu comecei a escrever partituras para o teatro, na verdade apenas para experimentar com meu 4-pistas. Tornei-me diretor musical de um famoso grupo de comediantes chamado The Footlights. Após a universidade fiz muitos trabalhos para o teatro, especialmente 'The Gate' que teve apresentações internacionais.

JS - Você também é um escritor premiado de peças. Conte-nos algo sobre este aspecto de sua carreira.
MG - Então, escrevi duas peças na universidade que foram produzidas. Depois disso escrevi uma coisa para o Battersea Arts Centre chamada 'Resolution', que era uma história doida sobre o amor (e todas não são!). Escrevi uma peça para a Oxford Stage Company chamada '50 Revolutions', que foi produzida em Londres no Whitehall Theatre com um elenco de 15 atores. Após, escrevi duas peças de rádio; a primeira ganhou um prêmio de melhor peça radiofônica do ano, e acabou sendo produzida em Leeds na West Yorkshire Playhouse, com Christopher Eccleston estrelando. Ele estava interpretando a minha peça quando foi contratado como O Doutor em Doctor Who. Naquela época, eu não sabia nada sobre uma nova versão da série.

JS - Você prefere escrever música para conjuntos menores ou para grande orquestra?
MG - Acho que é mais fácil ser distinguido com um grupo menor. Às vezes você só consegue ouvir a orquestra, e não a peça, o instrumento. Mas dito isso, a força e a escala da orquestra são coisas fantásticas. Suponho que, no fim, eu gosto de ouvir os dedos. Sabe, quando você grava um guitarrista de muito perto, você consegue ouvir muitos detalhes. Dá para ouvir os dedos dele roçando nas cordas. Você pode ouvir ele/ela respirando. Eu gosto disso.

JS - Sobre tornar-se um compositor de televisão e cinema, isto foi planejado ou apenas... algo que aconteceu?
MG - Suponho que foi apenas algo que aconteceu. Nunca tive a mínima idéia sobre planejar alguma coisa. Eu não sou o tipo de pessoa que mostro meu trabalho para os outros. Detesto forçar a barra. Por outro lado, vejo jovens compositores por toda a parte, e eles são muito assertivos e bem organizados. O que é ótimo - desde que eles também não percam seu charme.

JS - Sobre compor para a televisão e o cinema, você teve alguma grande influência?
MG - A cada ano que passa eu admiro Bernard Hermann cada vez mais. Sempre adorei o score de Taxi Driver (apesar de preferir o álbum de Charlie Mingus 'The Black Saint and the Sinner Lady', que parece ter sido uma inspiração), mas aquele foi seu último trabalho e eu meio que ignorei o que ele fez antes. Simplesmente gosto do modo que ele usa combinações incomuns de instrumentos, e escreve pequenas células matemáticas ou ostinatos. Gosto disso. Gosto de música feita de células, que ao mesmo tempo não é tão 'mínima'. Mas os compositores que me fizeram sentar e prestar atenção foram Ennio Morricone, é claro - eu não conheço nenhum compositor de filmes que não admire Ennio. John Williams, obviamente. Adoro seu trabalho com Spielberg. ET é meu favorito. O score de Danny Elfman para Batman (1) foi fabuloso e soou completamente novo à época, mesmo que fosse a retomada de um velho som. Thomas Newman é um gênio. O score de American Beauty provavelmente teve maior impacto entre os compositores que o de qualquer outro feito para um filme recente. É essencialmente o blues, mas feito com um bom gosto imaculado. Eu admiro o bom gosto, mesmo tendendo a não ser um expoente dele. Normalmente deixo a exuberância e a alegria ficarem em seu caminho.

JS – Murray, vejo que nós dois temos algumas preferências musicais em comum. Para mim Herrman é o maior de todos, e considero Williams e Morricone como sendo duas lendas vivas da música do cinema. Eu tive a maravilhosa experiência de estar na platéia do concerto de Morricone ocorrido aqui no Brasil no último mês de maio. Sobre o seu trabalho no cinema, quais foram as suas experiências mais gratificantes?
MG - Meu filme mais recente, Death at a Funeral, foi dirigido por Frank Oz. É um filme muito bem bolado. Foi ótimo trabalhar com alguém que faz parte da aristocracia de Hollywood. Compus a trilha de um filme chamado Kiss of Life há alguns anos, e a música ganhou um prêmio na França. É um filme aflitivo, muito bonito, feito de coração absolutamente aberto. Você pode ouvir isso na música. O filme ganhou um BAFTA no Reino Unido, é muito não-comercial e bastante depressivo, por isso não teve muita repercussão.

JS Vamos falar mais um pouco sobre Death at a Funeral, conte-nos sobre sobre a música feita para este filme e a experiência de trabalho com Frank Oz. Sabe, por fazer as vozes de Miss Piggy e de Yoda e ser um talentoso diretor, Oz é uma lenda para muitos de nós.
MG - Ele também é uma lenda para mim! Sua carreira foi magnífica. Ele estava no Muppet Show quando eu tinha 17, acho. Era um ótimo programa. Era exatamente o que o entretenimento deve ser, independentemente da época em que foi transmitido. Frank basicamente pediu algo que soasse muito não-Hollywood. Bem, ele conseguiu. Na verdade, para os títulos de abertura em animação fiz uma pequena música de 2 1/2 minutos, o que ficou muito bom. E ela foi um pouco "Hollywood-y". Mas, na maior parte, é uma espécie de música folk. Acordeon, violões, tuba. Creio que tem um som legal. Pude trabalhar com algumas pessoas que adorava, quando criança. É sempre um verdadeiro prazer porque você pode ser generoso e sincero, e é um luxo estar com pessoas que inspiram generosidade e sinceridade. Já outras pessoas simplesmente lhe deixam nervoso.

JS Sim, este é um fato. Qual são os seus projetos correntes?
MG - Estou escrevendo um musical para ser apresentado em Nova York. Acabei de ser convidado para compor o score de um filme na Espanha, e tenho mais dois projetos em desenvolvimento no Reino Unido. Não sei se conseguirei fazer a todos.

JS - Provavelmente hoje seu nome seja mais conhecido graças à música que você compõe para a tremendamente popular e premiada série de ficção científica Doctor Who. Como você se envolveu com a série?
MG - Eu já havia trabalhado com o roteirista-chefe Russell Davies em muitos shows: Queer as Folk, Casanova, The Second Coming, Mine all Mine. Talvez seus leitores conheçam alguns deles. Ele é um escritor brilhante, com um espírito muito para cima. Ele me perguntou se eu gostaria de participar.

JS Bem, se a atual encarnação de Doctor Who é um enorme sucesso, isso se deve principalmente à dedicação e ao talento do Sr. Davies. Quanto à música do programa, o “Doctor Who Theme” de Ron Grainer é um clássico. Foi um desafio criar uma versão atualizada do tema?
MG - Na verdade foi uma coisa bem simples de fazer, assim que decidi fazê-lo. Ao mesmo tempo, não é algo que eu realmente já tenha terminado. Eu só o levei até um determinado estágio, foi transmitido e aquele se tornou o tema de 2005. A idéia foi bem simples. Eu já estava cantarolando as linhas das cordas um bom tempo antes. Não há muito mais que eu tenha feito. Sim, há os tímpanos - eu sempre coloco tímpanos nos programas de Russell - e a trompa. De certo modo, a coisa mais difícil é o fervor quase religioso que acompanha qualquer alteração do material de Doctor Who. Fãs do programa podem ser bem possessivos sobre coisas que eles consideram como suas, ou do seu passado. Eles foram possessivos até com a minha canção que coloquei no Especial de Natal em 2005. Ela apareceu no CD de uma forma diferente, e eles quiseram a "canção deles" de volta. É muito engraçado.

JS - O tema original de 1963 é puramente eletrônico, e agora tem elementos de orquestra. Essa mudança foi uma decisão natural, criativa?
MG - Foi apenas criada para dar ao tema um estilo similar ao da música incidental. Ambas vieram do material que está na tela. Os roteiros são cheios de calor, coração e leveza. A razão pela qual quis fazer a série foram os roteiros. Era aparente desde o início que a nova versão sabia exatamente o que estava fazendo.

JS De fato, Doctor Who é um dos mais bem escritos programas contemporâneos da TV. Agora vem uma pergunta difícil: entre toda a música e scores que você escreveu para as (até agora) três temporadas de Doctor Who, do que você mais gosta? Particularmente acho que 'The Girl in the Fireplace' tem das melhores músicas que já ouvi na televisão. E, como todo mundo, adoro a música dos Daleks e Cybermen...
MG - Ora, muito obrigado Jorge. Isso foi muito gentil. Não sei se eu tenho um favorito. Obviamente 'Rose', o primeiro episódio, tinha tantos temas que foram expandidos ao longo da primeira temporada, que ele para mim é um candidato. Eu o assisti na televisão recentemente. É um episódio brilhante. Creio que o score de 'The Doctor Dances' foi um dos meus favoritos. Às vezes os eventos que acontecem na tela simplesmente escrevem a música. É uma espécie de experiência inconsciente. Eu gosto quando funciona assim. O score de 'Doomsday' no final foi muito premeditado, e levei um tempo para acertar a faixa de 'The Girl in the Fireplace', ao contrário de outros episódios, como 'The Doctor Dances' e 'The End of the World', onde a música simplesmente flui da tela. Devo dizer que coloco muito coração em cada episódio, então normalmente sempre há alguma coisa da qual me orgulho um pouco.

JS - No recentemente lançado CD de Doctor Who há ótimas seleções da música da série, mas eu ainda sinto falta de algumas faixas. Um "Volume 2" está nos planos?
MG - Novamente, obrigado. O Volume 2 sairá no final do ano. Estamos tentando fazê-lo ainda melhor. Se você tiver algum pedido, me fale e eu verei o que posso fazer.

JS Agora é a minha vez de agradecer! Então você conheceu Christopher Eccleston antes mesmo de Doctor Who mesmo assim aqui vai outra pergunta difícil: qual Doutor você acha o melhor, Eccleston ou David Tennant?
MG - Ha ha ha. Você sinceramente não espera que eu responda isso! Sério, se alguém envolvido com o programa lhe desse uma resposta direta sobre isso, eu ficaria muito surpreso. Sei que pareço um político fugindo da pergunta, mas simplesmente não posso lhe dizer. Algum dia, talvez.

JS Certo, mas até que chegue este dia responda esta outra: a mudança do ator principal afetou de algum modo a música da série?
MG - Bem, sim, porque apesar de agora ser um clichê, Chris era mais sério, e David mais bem humorado. Em termos de história, o 9º Doutor estava cheio de culpa mas emergiu como o 10º cheio de vitalidade. A música vem evoluindo numa longa jornada que não terminou. Hoje posso me referir a um grande corpo de música já feito, isto é fantástico. E sei de crianças que podem identificar cada cena por sua música. É muito louco, ela se tornou uma espécie de mapa da série. As trilhas também começaram a ser gravadas mais e mais com músicos ao vivo. Eu sempre tive uma reputação de compor música com grande energia e exuberância, mas também com muita alma e alguma ternura. Quero garantir que ela permaneça assim tanto para mim como para o programa.

JS Além de Doctor Who, você também compôs a música para a spin off Torchwood. Há diferenças entre compor para cada série? Destaque as principais semelhanças e diferenças entre os dois programas, musicalmente falando.
MG - Sim, há uma grande diferença em estilo. Torchwood não deveria soar como Doctor Who. Torchwood é mais eletrônica. Eu realmente não me importo com a história, Doctor Who precisa de um som grande, afetuoso, caloroso. Torchwood necessita soar mais contemporâneo. Na verdade, mais como uma série sci fi americana. A música é mais climática e sombria. Há lugares em Torchwood onde você simplesmente não coloca a música, em termos de exuberância e leveza, tudo vai para a série irmã. Doctor Who é na verdade um programa mais cultivado (risos).

JS - Ano passado ocorreu na Inglaterra um grande concerto com a música de Doctor Who. A mim me pareceu um grande evento, você esteve muito envolvido com ele?
MG - Sim, fui consultado durante a maior parte do planejamento. Basicamente eu planejei o lado artístico da noite, ou pelo menos a estrutura dele. Claro, não tive absolutamente nada a ver com a realização e o sucesso que teve. O crédito vai para a maravilhosa equipe de produtores e diretores. As entradas para o concerto aparentemente se esgotaram em 2 1/2 horas. Foi uma noite divertida.

JS - Nas suas trilhas sonoras fica transparente que você é um compositor que fica à vontade numa grande variedade de estilos: pop/rock, jazz e claro a música incidental mais tradicional. Cite um gênero musical que você particularmente aprecia.
MG - Eu adoro música brasileira! Jorge Ben, Airto Moreira... bem, você sabe que os músicos do mundo todo consideram o Brasil como uma espécie de lugar mágico para a música, e eu nunca estive aí! Mas eu gosto de música de toda a parte do mundo. Adoro ouvir o som do povo. Gosto de música folclórica - e música cigana, judaica. Esta realmente é cheia de vida. Nada pode transmitir a alegria da vida mais rápido que um pouco dessa música. Claro, eu não estou feliz o tempo todo, mas esta música tem um tipo de êxtase, e eu adoro isso.

JS Estou maravilhado com sua predileção pela música brasileira, e sinceramente espero que você venha nos visitar muito em breve. O que virá a seguir?
MG
- A seguir escreverei um musical. Nasci para escrever musicais. Acho que sou bom nisso. E muitas pessoas pensam assim também, porque recebo muitos convites para isso. Para ser sincero, as coisas de que mais gosto na vida são as tradicionais: sol brilhando, boa companhia, vinho e música. É isso que virá a seguir, espero.

JS O mesmo por aqui! Murray, obrigado por seu tempo e por esta bela entrevista. Nós do ScoreTrack.net lhe desejamos uma brilhante e duradoura carreira.

Agradecimentos especiais a Murray Gold e Tom Kidd por tornarem possível esta entrevista.

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