|
Pequena
História da Música de Cinema Emerson F. C.
Paubel
I - Introdução, origens e a música no cinema mudo
Nos anos 1970, graças a uma
iniciativa da gravadora RCA e do maestro Charles Gerhardt, muitas dessas
partituras (scores) clássicas foram regravadas em reproduções fiéis
das gravações originais das trilhas sonoras, porém em moderno som estéreo.
Esta série de álbuns fez ressurgir o interesse pela música sinfônica de
cinema e obra de grandes compositores, como Erich Korngold e
Bernard Herrmann.
Todos os 14 álbuns, contendo muitas das partituras referidas neste artigo,
foram relançados em CD no início dos anos 1990 e alguns, infelizmente, já estão
fora de catálogo. Todos são recomendados para os admiradores da música de
cinema. Da função da música de cinema, o
celebrado compositor Bernard Herrmann certa vez disse: “A música na tela pode
ir ao encontro e intensificar a psiquê do personagem. Ela pode investir uma cena
com terror, grandiosidade, alegria ou miséria. Ela freqüentemente eleva mero
diálogo à estatura de poesia. É o elo de comunicação entre a cena e a platéia,
alcançando e envolvendo esses elementos em única experiência". Há muitas teorias a respeito das
razões por que a música foi escolhida para acompanhar os filmes. A primeira
pertence ao compositor Hans Eisler que, em seu livro “Composing for the
Films” (Compondo para Filmes), diz: “Desde que nasceram, os filmes têm
sido acompanhados por música. O filme mudo em si mesmo geraria uma sensação
de fantasmas, similar ao jogo das sombras. Além disso, as sombras e os
fantasmas estão relacionados entre si".
A função mágica da música seria aliviar essa sensação
de medo. Uma necessidade foi criada para bloquear o desprazer que o espectador
sentia quando ele via o elemento humano representando, sentindo, mesmo falando,
enquanto o resto ao seu redor permanecia em silêncio. O fato de o espectador poder ver o
espectro de pessoas na tela criava uma sensação de fantasmas; a música foi
introduzida não para suprir os personagens com a vida que lhes faltava (desde
que isto intensificaria esta sensação), porém para exorcizar o medo criado
pelos espectros e ajudar a platéia a superar o choque inicial. Logo, não é
coincidência que os filmes mudos sempre usaram música – que, amiúde, nada
tinham a ver com a ação transcorrendo na tela – ao invés de recorrer a
atores ocultos que, durante a projeção do filme, forneceriam os diálogos. Um outro ponto de vista é devido a
Kurt London que, em seu livro “Film Music”, diz que o uso da música
no cinema não deriva de qualquer necessidade artística ou psicológica, mas
por razões puramente práticas e, mais especificadamente, das péssimas condições
acústicas da sala de projeção. Ele observa que os projetores da época eram tão
barulhentos que uma necessidade foi criada para bloquear o ruído,
substituindo-o por algo mais aprazível; os proprietários das salas de projeção
instintivamente escolheram a música como a solução mais apropriada. O primeiro uso conhecido da música
no cinema ocorreu em 28 de dezembro de 1895, quando a família Lumière testou o
valor comercial de seus primeiros filmes. A projeção ocorreu no Grand Café no
Boulevard de Capucines, em Paris, e foi acompanhada por um piano. Durante os primeiros anos do cinema
comercial, o material musical usado consistia de quase tudo o que estava disponível
na época e, na maioria das vezes, tinha pouco a ver com a ação projetada na
tela. As peças musicais que eram tocadas eram selecionadas tanto pelo proprietário
do teatro quanto pelo regente da orquestra. Em 1909, um ano após a partitura
de Saint Saens, a companhia cinematográfica de Thomas Edison começou a
desenvolver sugestões especiais em música para os filmes que ela produzia. Por
volta de 1913, orquestras e pianistas de teatro tinham a oportunidade de
trabalhar com música para propostas dramáticas específicas, que podiam ser
encontradas em catálogos especiais. O mais conhecido exemplo é o Kinobibliotek
(ou Kinothek) de Giuseppe Becce, o qual foi publicado em Berlim em 1919.
As peças musicais no catálogo de Becce foram registradas de acordo com seus
estilos e a carga emocional que presumivelmente elas provocariam ao serem
ouvidas, e, de fato, a maior parte delas era de autoria do próprio Becce. Algumas das categorias sob as quais
as peças eram classificadas podem ser vistas no exemplo abaixo, retirado do
livro de Becce, “Handbook of Film Music” (Manual de Música de
Cinema). CLIMA DRAMÁTICO I.
CLÍMAX II. TENSÃO MISTERIOSA III. TENSÃO
AGITATO IV.
CLÍMAX APPASSIONATO As categorias acima mencionadas
eram subdivisões das seguintes classes principais: Ainda, a forma mais incipiente da
idéia de estilização e classificação musical foi materializada por Max
Winkler. Winkler pensava que dentro da música clássica há tanta abundância
de peças que, sendo elas divididas em categorias em relação ao Kinothek, de
Becce, haveria praticamente música pronta para qualquer cena em qualquer tipo
de filme. Esta idéia convenceu o diretor da Universal Film Co. na época,
Paul Gulick, que contratou Winkler. Então, este assistia aos filmes antes de
eles serem distribuídos, fornecendo ao teatro um catálogo de trechos de peças
clássicas e as instruções acerca das cenas sobre as quais elas deveriam ser
tocadas. Assim, trabalhos de Beethoven, Mozart, Grieg, Bach, Verdi, Bizet,
Tchaikovsky, Wagner e, em geral, qualquer um que não fosse protegido por
leis de direito autoral, foram utilizados. Winkler escreveu que: “Os
imortais corais de J.S. Bach tornaram-se adagio lamentoso para cenas
tristes. Excertos de grandes sinfonias foram retirados e apareceram como Materioso
Sinistro por Beethoven, ou Moderato Estranho por Tchaikovsky. As
marchas nupciais de Wagner e Mendelsshon foram usadas em cenas de casamentos,
brigas entre maridos e esposas e divórcios. Se elas eram usadas nas cenas
finais, seu tempo tornava-se maior, de modo que dariam a sensação de um final
feliz. Por exemplo, a “Marcha da Coroação”, de Meyerbeer foi desacelerada
tanto que foi utilizada como música de fundo para prisioneiros condenados à
morte. Felizmente, a idéia de Winkler não durou muito tempo! Entretanto, a justaposição de
diferentes peças musicais em um filme criou um problema estético. Os filmes
mudos não requeriam uma tradução musical para todas as cenas, mas justamente
o contrário: a simplificação musical do mosaico de figuras em movimento em um
fluxo contínuo. A demanda cinemática era uma variação das figuras e uma
consistência musical. Assim, a colagem de peças musicais - não importando o
quanto essas “pontes” compostas pelo diretor musical uniformizassem os
aspectos heterogêneos - faria, conseqüentemente, qualquer coisa menos estar a
serviço da estética cinemática. Apesar dos problemas de
sincronismo, havia certos filmes nos quais a música não valia nada.
Entretanto, a música para o filme “The Birth of a Nation”, de D.W.
Griffith, por exemplo, apresenta um interesse especial. Ela consiste de um amálgama
de peças extraídas das composições de Lizt, Verdi, Beethoven, Wagner e
Tchaykovsky, assim como de tradicionais canções populares norte-americanas (Dixie,
The Star-Sprangled Banner). Apesar da partitura do filme não ter um
valor musical particular, ela acabou ditando os padrões das técnicas de
orquestração e corte, as quais permaneceram ao longo de todo o período do
cinema mudo. A música do filme era o produto de uma colaboração entre o próprio
Grifftith – que além de ser diretor, havia estudado composição – e o
compositor Joseph Carl Briel. A estréia do filme foi no Liberty Theater,
em Nova Iorque em março de 1915. O compositor Arthur Honegger
(1892-1955) também possuía idéias incrivelmente avançadas para a função da
música de cinema. Ele via a partitura ideal como um componente distinto em um
meio unificado e sua obra ainda tem sido utilizada em filmes mais contemporâneos,
como os do diretor como Peter Greenaway. Outro importante compositor do
cinema mudo foi o alemão Edmund Meisel, que escreveu a música para os filmes Potemkin
e October, de Sergei Eisenstein. O diretor russo, certa vez, disse que o
som deveria “chicotear” e violentamente chacoalhar o espectador com sua tensão.
Entretanto, pelo fato de o som não poder ser tão intenso, deveríamos nos
voltar para os limites da capacidade física e mental da audiência (através da
música). A técnica de compor de Meisel era ímpar. Ele analisava a edição de
vários filmes mudos populares, focando em seus ritmos, clímax emocional e
humor. Depois, ele compunha um tema para cada cena. Finalmente, ele combinava os
diferentes temas usando o ritmo, a estrutura emocional e o desdobramento da edição
visual como a base para a estrutura e desenvolvimento de sua música. O filme Potemkin diz
respeito ao motim no navio de guerra de mesmo nome durante a fracassada
revolução russa de 1905. A película foi estruturada em cinco unidades
principais: a descrição das horríveis circunstâncias à bordo, que
constituem a causa do motim, o próprio motim, a ajuda dada pelo povo de Odyssos,
o ataque violento do Tzar Cozacks (as famosas cenas do porto de Odyssos) e o
triunfo final dos revolucionários. O que Meisel engenhosamente
percebeu era que a música para Potemkin não poderia ser um mero
contexto. Ela tinha que ser transformada em um inseparável elemento do filme,
servindo e complementando o ritmo, o esqueleto e a estética da parte visual.
Como resultado, a força combinada de som e imagem transformam essa colaboração
num dos exemplos mais significativos da história do cinema. Em seu livro, Film Form, Eisenstein diz que música
e imagem deveriam funcionar em modo de contraponto, a fim de que elas
convergissem a parte visual e sonora para um denominador comum. No mesmo livro,
ele fala sobre seu encontro com Meisel, o que ocorreu em 1926, em Berlim, no
sentido de discutir a música para Potemkin: “(...) aquela era minha
demanda explícita; rejeitar melodias comuns para o ‘encontro com as tropas’
e dar consistência a esta necessidade estabelecendo, dentro da música, mas
também dentro do filme, trajetos musicais nos principais pontos decisivos,
atribuindo assim uma nova qualidade à estrutura sonora”. Deste modo, Potemkin estilisticamente ultrapassou
os limites do cinema mudo, deixando de ser apenas um filme dotado de
acompanhamento musical e se aproximou do cinema sonoro, no qual música e
imagens existem numa unidade entrelaçada.
É por isso que o “mudo” Potemkin dá uma lição ao cinema
sonoro. Isto é, para um trabalho ser organicamente funcional, há de obedecer a
uma única lei de construção, que deve governar não apenas cada um de seus
elementos separadamente, mas o trabalho como um todo. Além de Edmund Meisel, havia outros compositores
conhecidos que escreveram música durante a era do cinema mudo. Arthur Honegger
compôs música para os filmes La Route e Napoleon, de Abel Gance.
Darius Milhaud compôs para L´inhumaine, de Marcel Herbier, e Dimitri
Shostakovich para o filme russo The New Babylon. Ainda que
tais filmes tenham sido
importantes, eles também foram a exceção, pois a maior parte dos teatros
usavam os vários métodos descritos anteriormente (peças clássicas, Kinothek,
etc.) para o desenvolvimento e execução da música durante a projeção. Para
os teatros menores, que não tinham nem dinheiro e espaço para uma orquestra, várias
máquinas foram inventadas no sentido de substituí-la. Estas máquinas
apareceram primeiramente no mercado em 1910 e tinham nomes como “One Man
Pictures Orchestra”, “Filmplayer”, “Movieodeon” e “Pipe-Organ
Orquestra”. Separadamente da música, estas máquinas forneciam uma série de
efeitos sonoros e seus formatos iam desde um piano com um pequeno conjunto de várias
percussões até máquinas complexas similares em tamanho a uma orquestra de
vinte peças.
Além disso, a música teve outro importante papel durante o período do cinema mudo: criou inspiração para a arte de representação durante as filmagens. Era muito comum ter músicos tocando para grandes estrelas quando elas tinham que atuar em cenas difíceis. Este efeito “estimulante” nos atores foi aplicado pela primeira vez em 1913 por Griffith durante a filmagem de Judith of Bethulia, mesmo que a música não tenha sido usada depois – o que é natural, pois não havia jeito de gravá-la no filme. Muitas vezes, usavam-se gravações ao invés de música ao vivo, mas, em ambos os casos, a música servia ao mesmo propósito (inspirar os atores e nada mais). A chegada do som ao cinema pôs um fim em tudo isso, mas gerou muitos outros problemas completamente diferentes para os compositores de cinema. Estes problemas têm muito pouco a ver com a própria música. |
|
SEGUE
- A MÚSICA NO CINEMA SONORO E OS COMPOSITORES DA ERA DE OURO |