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II - A música no cinema sonoro e os compositores da Era de Ouro De fato, se a platéia não se
importasse com os diálogos, mas estivessem interessadas somente nas imagens,
Hollywood jamais teria se aborrecido em criar os filmes sonoros. Mas, desde o
princípio, os entusiastas se importaram e, assim, a trilha sonora nasceu. Daqueles dias iniciais de som até
a atualidade, os produtores têm investido pesadamente na presença do som no
sentido de ajudar a contar suas histórias ou transmitir suas mensagens. Eles
descobriram que imagem e som são dois lados da mesma moeda. Como se pode ver, a presença da música
tem sempre algum efeito no que o espectador perceberá sobre uma cena.
Dependendo da seleção musical, este efeito pode reforçar, contradizer, ou
completamente alterar a intenção original do filme. A música para uma trilha sonora
pode ter uma das seguintes origens: inspirada ou partitura original. A música “enlatada” (canned)
é obtida a partir de um acervo pré-gravado. Por um determinado valor, o
produtor pode adquirir os direitos para usar seleções de música existente em
sua produção. Um grande número de companhias produz volumes de faixas de alta
qualidade, de uso geral intencionalmente para este fim. A música é composta e
gravada de modo a facilitar a edição “modular” para acomodar a duração
da cena e o seu desfecho. Os produtores podem pagar por música
numa base seletiva (needle drop), por minuto na tela ou ilimitada. O modo
seletivo significa comprar música a partir de uma seleção, por uso. Os
acordos ilimitados permitem uso sem restrições de uma biblioteca musical
inteira tanto para uma produção completa como por um ano inteiro. Ao
determinar o valor dos direitos, os proprietários dessas bibliotecas também irão
querer saber as intenções e natureza da distribuição do filme (teatral,
educacional, home video, teledifusão nacional, etc.). O leitor deve ser
alertado, entretanto, em ter extrema cautela ao usar álbuns de música
comercial (pop, rock, soul, oldie, clássico, etc.) como fontes de música para
suas produções. Mesmo nos casos onde a canção é de domínio público, o
arranjo e interpretação são protegidos por direitos autorais e leis de comércio
rígidas. Se você acha que é absolutamente imperativo o uso de uma canção
“real” ao invés de um acervo pré-existente, esteja certo de obter a
permissão, escrita, da gravadora em questão. Além do “enlatado”, o outro
tipo de música existente é aquele composto e gravado especificamente para o
projeto, chamado “incidental”. Isto poderia envolver uma orquestra completa,
ou ser tão simples quanto um repertório solo de um músico. O processo começa
com o fornecimento ao compositor de uma cópia do filme em videotape junto com
comentários do diretor ou editor.
Voltando à nossa história da música de cinema, no início do cinema falado, enquanto alguns músicos, de formação clássica, nos EUA, vinham da Broadway (Max Steiner, Alfred Newman, Victor Young), na Europa, compositores eruditos começavam a se interessar pela nova arte. As partituras de Prokofiev para Lieutenant Kije, Alexander Nevsky (1938) e Ivan the Terrible (1942 e 46) acabaram se tornando repertório clássico padrão. Nevsky inclui uma orquestração extraordinariamente original para representar a brutalidade dos Cavaleiros Teutônicos e a selvageria da Batalha no Gelo.
Walton teve mais sucesso com suas
partituras em outras obras sheakespereanas de Olivier: Henry V (AAN) e Richard
III. Sua música forte e estridente para a Batalha de Agincourt
brilhantemente evocando o ruído e o brado do ataque dos cavaleiros deve
permanecer como uma das mais memoráveis peças musicais já escritas para o
cinema. O trabalho de Sir William Walton para as telas é totalmente
comprometido. Todas as suas numerosas partituras para uma extensa variedade de
filmes – por exemplo, As You Like It, Escape Me Never, Major Barbara e First
of the Few – são artesanalmente produzidas e vibrantemente orquestradas.
Para os ouvintes que apreciam a música de cinema associada aos diálogos dos
filmes, os quatro volumes dedicados à música de Walton, produzidos pela
gravadora Chandos, são altamente recomendados. Sir Arthur Bliss produziu uma outra
partitura clássica para o filme de Alexander Korda baseado numa estória de
H.G. Wells, Things to Come. A maravilhosa marcha e o tema de
encerramento, homenageando o espírito de aventura e a sede insaciável de
conhecimento do homem, são profundamente comoventes no melhor estilo Elgariano.
Uma gravação adicional da Marco Polo inclui a música de Bliss para os filmes:
Christopher Columbus (1949), Seven Waves Away (1956) e Men of
two Worlds (1945) a qual incluiu Baraza, uma peça de concerto para
piano e orquestra com vozes. Um número de outros compositores britânicos também foram atraídos
para o meio cinematográfico com diferentes graus de entusiasmo, incluindo
Malcolm Arnold (The Bridge on the River Kwai), Bax (Oliver Twist),
Ireland (The Overlanders), Walter Leigh (Song of Ceylon), Eric
Coates (The Dam Busters), William Alwyn (The Fallen Idol), Britten
(Young Person's Guide to the Orchestra) e Vaughan Williams (Scott of
the Antarctic).
Esta
partitura de 1948, brilhantemente
orquestrada de Vaughan Williams, usando uma bateria completa de instrumentos de
percussão, um equipamento produtor de vento, um solo de soprano e coro para
sugerir a desolação do vasto território polar antártico, tornou-se a base para
a sua sétima sinfonia, Sinfonia
Antartica. Previamente, ele havia escrito música emocionalmente carregada
para um filme de Olivier feito no Canadá - 49th Parallel. Vaughan Williams
era um entusiasta da música
para cinema e seu sonho era compor para um western! Ao contrário de seus
colegas americanos, não gostava de escrever para filmes de ação,
preferindo, por sua vez, capturar o espírito mais do que a palavra usando o
roteiro como inspiração. Entretanto, foi a primeira geração
emergente de compositores cinematográficos americanos, trabalhando em Hollywood
a partir dos anos 1930, quando a indústria dos sonhos estava despejando
milhares de produções de qualidade variada, que deram o maior impacto no
desenvolvimento da música para cinema. Um dos primeiros compositores a
produzir uma partitura original foi George Gershwin, que escreveu música a qual
acabou sendo incorporada em sua obra Second Rhapsody, para o filme de
1931 intitulado Delicious. Mais estranho ainda foi o fato de a
nata de compositores norte-americanos não ter tido um impacto forte em
Hollywood. Exceções incluem Aaron Copland, que escreveu música para The
Red Pony (1949) e Our Town (AAN, 1940) e Virgil Thomson, o qual é
lembrado por sua evocativa e profunda música para Louisiana Story e The
Plow that broke the Plains. Porém, foi
Max Steiner, um
imigrante judeu austríaco, residente nos EUA desde 1914, que se tornou o
primeiro compositor profissional cinematográfico de Hollywood (o fato de a
maioria dos donos de estúdio serem judeus deve ter facilitado sua introdução
no meio). Steiner chegou em
Hollywood em 1929, vindo de uma experiência na Broadway. Naquela época havia
muito pouca música de fundo – basicamente para seqüências de abertura e
encerramento. Como Steiner mais tarde lembrou: “(…) a música gravada era
pensada como necessária somente em musicais como Rio Rita... Os
produtores e diretores não sabiam como lidar com a música; técnicos de som e
músicos eram inexperientes e o microfone estava em sua infância. Música para
filmes dramáticos era somente usada quando requisitada pelo roteiro. Um receio
constante era que eles podiam ser questionados – ‘De onde a música
vem?’”
Em 1933, veio a sua partitura revolucionária para King Kong e com ela o real início da composição cinematográfica em Hollywood. A trilha sonora de Steiner, a qual usava os “leitmotives” wagnerianos com temas para os personagens principais e conceitos, envolviam o ouvinte ao longo da ação, desenvolvendo material até o desfecho para acompanhar a estória bizarra de um gorila gigante e uma turma de monstros pré-históricos em uma remota e desconhecida ilha. Steiner constrói a tensão desde o início e você pode sentir ansiedade à medida que o navio se aproxima da ilha através da neblina e os efeitos percussivos persistentes e triunfantes enfatizando o tamanho real e força de Kong à medida que ele se aproxima. Por outro lado, Steiner espertamente amarra os temas do monstro com o de Fay Wray no final, quando Kong despenca do Empire State Building, no sentido de enfatizar o tema dramático da Bela “embelezando” a Fera.
A música de Steiner foi um amálgama
da composição européia do final do século XIX, sob influência do
Romantismo, como Wagner, Liszt e todos os Strauss, e a música da Broadway. Foi
este estilo de música que se tornou o padrão hollywoodiano até os anos 1950.
Steiner preferia esperar pelo término
do filme antes de iniciar a composição. Ele teria seqüências divididas na métrica
exata, em minutos e segundos. À medida que compunha, ele cronometrava o tempo.
Sentia que sua música deveria sincronizar-se exatamente com a ação na tela e,
de fato, ele era misteriosamente bem-sucedido em captar modos e acontecimentos. Trabalhava bem sob pressão – uma
característica apreciada por David O'Selznick que acabou contratando-o para Gone
With The Wind (AAN). Por volta desta época, Steiner ficou encarregado de três
outros filmes e trabalhava 20 horas por dia, ajudado por injeções diárias de
extração da tiróide e recebimento de doses de vitamina B12. Steiner conseguia trabalhar tanto
em filmes de aventura quanto em “dramalhões” água com açúcar.
Sua
enorme produção incluiu partituras para filmes memoráveis como Now Voyager
(AA), The Informer (AA), Since You Went Away (AA), The Big
Sleep, Casablanca (AAN), The Fountainhead, The Letter (AAN),
Dodge City, The Glass Menagerie, Johnny Belinda (AAN) e Spencer's
Mountain.
Bette Davis estava entre um número
seleto de estrelas que era profundamente consciente do efeito positivo que uma
boa partitura poderia ter sobre seus desempenhos e mantinha boas relações
pessoais com compositores como Steiner e Korngold.
Igualmente memoráveis são as partituras para o enérgico The Guns of Navarone (AAN), os épicos The Fall of the Roman Empire (AAN) e The Land of the Pharaohs e seu trabalho para Hitchcock, incluindo Shadow of a Doubt e Strangers on a Train.
A pressão intensa a qual estes
compositores estavam sujeitos necessitava de suporte de uma equipe nos
departamentos de música dos estúdios. Na Warner Bros, Hugo Friedhofer era
mantido ocupado com freqüência ao longo de noites orquestrando para Steiner,
Korngold e outros. Friedhofer mais tarde recebeu um Oscar por sua competente
partitura para The Best Years of Our Lives (AA). Há uma seqüência
memorável onde a música de fato assume a representação. O personagem de Dana
Andrews está se sentando na cabine de um bombardeiro preparado para ser
desativado. Quando ele se acomoda no assento, o pesadelo do combate obscurece sua
feição. As dissonâncias criadas por Friedhofer dizem-lhe como efetivamente as
ações ocorreram e os horrores presenciados por Andrews. Esta trilha teve uma
longa crítica positiva na mais importante revista especializada, o Music
Quarterly. A música para cinema havia se tornado respeitável. A limitação de espaço não permite discutir o trabalho de outras figuras eminentes de Hollywood como Victor Young (For Whom the Bell Tolls (AAN) etc), Roy Webb (Cat People etc.), Frederick Hollander, Daniele Amfitheatrof, Adolph Deutsch e David Raksin, que produziu a inesquecível música para Laura e The Bad and the Beautiful.
III - O legado que permanece na moderna música de cinema
A trilha sonora também começou a
mudar. Ao longo dos anos 1940, o paradigma era um híbrido dos formatos clássico
romântico, opereta e musicais da Broadway. O Oscar para Franz Waxman por A
Place in the Sun (1951) foi um dos primeiros golpes neste paradigma. A música
usa inflexões em jazz, sob uma forma sinfônica tradicional para caracterizar a
atração fatal que Elizabeth Taylor sente por Montgomery Clift.
Mas foi a música indicada para o Oscar de Alex
North por A Streetcar Named Desire (também em 1951), que realmente criou
algo novo. Esta era uma partitura totalmente apropriada para o ambiente de New
Orleans, enfatizando a esqualidez da área de New Orleans onde o filme é
rodado, e contrastando com a ignorância bruta e loucura patética dos
personagens de Marlon Brando e Vivien Leigh.
Apesar de alguém lamentar o fim
das opulentas partituras românticas do auge de Hollywood, ainda há um vigor e
originalidade aparente nas melhores trilhas de hoje, como se pode constatar, por
exemplo, em The Lord of the Rings, de Howard
Shore. Poderíamos ir mais
longe a ponto de afirmar que muito da melhor música composta desde 1930 foi
criada para as telas – e a tradição continua. Música de todos os estilos e de todas as eras: “clássico”,
instrumental e de câmara, etc. são usados – freqüentemente em justaposição
com jazz, idiomas populares ou sintetizadores – de acordo com as exigências
do roteiro. As mulheres também estão começando
a trabalhar em uma extensa variedade de funções atrás-da-câmera além das
tradicionais edição e atividades burocráticas. Elas estão dirigindo e escrevendo música.
A partitura de Rachel Portman para o filme Where Angels Fear to Tread retrata
muito bem os cenários de Londres e da Itália e a natureza irônica desta
tragicomédia. Atualmente, mesmo com a invenção do DVD e do Home Theater, o cinema sobrevive e a platéia tem aumentado consideravelmente. Esquecendo-se daqueles filmes com inevitável ênfase em sexo e violência, muitos dos roteiros atuais são mais variados e originais do que no passado, e os melhores originam estórias que jamais seriam pensadas há uma década atrás, ou mesmo antes. No campo da música, a elite de compositores para cinema tenta manter as tradições de qualidade estabelecidas pelos pioneiros no gênero, com maior ou menor sucesso. Emerson F. C. Paubel |