Aspectos da Música de Cinema

 Emerson F. C. Paubel

 

1 – FORMA E MÚSICA DE CINEMA

1.1 – Relação da Música e Drama no Filme
Tensão sempre existe entre as formas musical e dramática. A lógica musical normalmente envolve repetição de idéias e partes, ao passo que o drama geralmente prefere mover-se adiante a todo instante. Como esta tensão é resolvida ou trabalhada no filme? Para responder isto, pode ser útil dar uma olhada primeiramente no caso da ópera, particularmente aquela de Richard Wagner (1813-1883), e tentar encontrar alguns paralelos com o filme. De acordo com Wagner, a principal função da música era servir aos propósitos da expressão dramática, principalmente articulando o elemento psicológico do drama. A ação do drama tem dois aspectos distintos. O aspecto externo consiste de palavras cantadas, clarificando os eventos particulares ou situações que são as manifestações externas da ação. O aspecto interno consiste da música instrumental (executada por uma orquestra). A ópera, às vezes, tende a enfatizar a separação da música e do drama. O palco é o principal elemento visível e rapidamente atraí a atenção da platéia, enquanto a orquestra está escondida da visão daquela numa fossa diante do palco. Quando a ação no palco é o elemento mais importante, a orquestra freqüentemente dissocia-se da ação e interpreta sobre ela. As duas forças, música e drama, juntam-se e o palco torna-se “musical” (por exemplo, quando os artistas no palco de fato cantam). No filme, a principal função da música é ainda servir aos propósitos da expressão dramática. Como na ópera, o drama cinematográfico tem ambos os aspectos, interno e externo; o primeiro é manifestado pelo diálogo; o último, pela partitura musical na trilha sonora. Igualmente, como na ópera, a separação de música e drama é enfatizada às vezes num filme. A orquestra existe somente na trilha sonora, enquanto que o elemento visual captura a atenção da platéia. Quando a ação na tela é o elemento mais importante, a música tende a interpretar sobre ela, tal como na ópera. A música e o drama juntam-se quando a trilha sonora é admitida a falar de uma forma vigorosa e contributiva.

1.2 – Escrevendo Música para Filmes
Uma importante característica de um bom compositor para filmes é a habilidade de se tornar um camaleão, tanto em termos de seu estilo composicional quanto da forma que sua música assume em relação ao desenvolvimento do drama. Quase sempre, o visual da tela determina a forma da música que o acompanha. O compositor geralmente contribui para o filme após este ter sido filmado. O diretor já possui algumas idéias a respeito da estrutura dramática, ritmo, tempo, espírito, escolhas de tomadas, etc., de modo que ao compositor raramente é dada uma chance de discutir as implicações musicais das cenas com o diretor à medida que o filme é criado. O compositor não pode apenas impor sua própria forma musical sobre aquilo que o diretor filmou. O compositor deve levar em consideração a forma e o ritmo de uma cena estabelecida pelo visual. Qualquer compositor que ignorar esta regra está sujeito a criar um desastre.

1.3 – Como lidar com o problema da continuidade formal entre música e filme?
Abaixo estão algumas dicas básicas nas quais os compositores lidam com aspectos formais. Cada uma deve ser usada separadamente ou em combinação com outras ferramentas (notar que esta não é uma lista abrangente).

a) Ao nível da cena individual:

  1. Faça a música imitar a ação (“mickey-mousing”). Isto pode se adaptar bem em alguns casos, especialmente em filmes animados (cartoons), contudo ela pode facilmente tornar-se inapropriada;

  2. Permita à forma musical derivar da forma geral da cena na qual a música está para ser incluída. Por exemplo, se uma cena é estruturada como A-B-A, então a música deveria seguir também aquele exemplo;

  3. Relacionado ao item número 2, mas em um nível mais detalhado, designe momentos importantes em uma cena como pontos estruturais importantes na música e componha de modo que os detalhes musicais são cronometrados para sustentar aqueles momentos dramáticos na tela;

  4. Componha a música para se encaixar na duração da cena, permitindo a forma musical desenrolar-se de acordo com suas próprias necessidades. Esta aproximação enfatiza a unidade cênica maior e pode ignorar os detalhes dramáticos dentro da cena.

b) Ao nível do filme como um todo:

Pode algum tipo de forma coesiva existir no filme como um todo? Deve a música refletir esta subjacente estrutura formal do filme inteiro? A resposta para ambas as questões é sim, porém com alguma ressalva. O elemento visual do filme é sempre presente e, conseqüentemente, tem oportunidades para suavizar crescimento orgânico e desenvolvimento. A música, por outro lado, é raramente um dos elementos contínuos de um filme (uma partitura para cinema não é uma sinfonia). Boa música de cinema é geralmente utilizada somente naqueles momentos onde ela será mais apropriada. Isto cria um problema para a forma musical, que é baseada na repetição e contraste, usualmente sobre um relativo curto espaço de tempo e sem interrupção. Um filme freqüentemente possui longos períodos sem música, nos quais a platéia tem um bom tempo para esquecer as idéias musicais apresentadas. O compositor pode compensar este problema através do uso de alguns artifícios:

  1. Uso da ferramenta de trabalho Wagneriana: o leitmotif.

-   Especificando temas musicais para corresponder com personagens/temas dramáticos, o compositor pode trazer de volta um tema em vários pontos sob vários aspectos para ilustrar a mudança de contexto de um tema dramático ou o estado mental de um personagem. Onde o filme é emocionalmente neutro em termos de elemento visual, o uso do leitmotif pode agregar uma dimensão não presente na tela. Ainda assim, um leitmotif pode ser desenvolvido e modificado ao longo do filme, sendo que grande parte do formato original será preservado no sentido de manter uma linha de continuidade;

-   O modelo leitmotif pode ser facilmente sobre-usado.

  1. Compor uma partitura monotemática.

-   Usando apenas um tema, as repetições/variações da idéia musical são facilmente percebidas, enriquecendo a coerência musical. Freqüentemente, o tema-título é obtido a partir do domínio da canção popular;

-   O modelo monotemático também é muito sobre-usado.

  1. Criar uma partitura desenvolvente.

-    Este é de algum modo similar ao modelo do leitmotif, mas os temas não são necessariamente agregados a personagens ou idéias específicos. Freqüentemente, o tema principal em uma partitura desenvolvente serve como uma exposição do material musical básico, assim como a função da exposição na forma clássica sonata-allegro. A semelhança estrutural com a forma sonata-allegro, entretanto, termina neste ponto; enquanto que na forma sonata-allegro o material temático principal é geralmente trazido de volta numa simples recapitulação (a seção final da forma), uma partitura desenvolvente pode ter muitas recapitulações modificadas ou não do material temático principal, alteração decidida mais em função das necessidades dramáticas do filme do que por quaisquer considerações musicais. 


2 – INTRODUÇÃO À SEMIOLOGIA[1] DA MÚSICA DE CINEMA

A música, diferentemente da linguagem, não possui automaticamente associações ou significados lingüísticos/dramáticos específicos. Nenhuma correspondência biunívoca entre um gesto musical e uma construção verbal é inerente nos próprios sons musicais. Um gesto musical é um sinal polivalente que pode gerar uma rede complexa de significados possíveis. A música adquire significados específicos primeiramente através de sua apresentação em combinação com elementos visuais e o texto do roteiro. Por meio de ocorrências repetidas de uma idéia musical num filme em vários contextos dramáticos, “camadas” de significado são gradualmente adicionadas. Estas camadas podem aumentar a especificidade e complexidade do significado de ponta a ponta, ou elas tendem para generalizações mais extensas. Um compositor pode utilizar respostas culturais esperadas a elementos musicais e dramáticos usando clichês e estereótipos, alguns dos quais podem ser parte de uma bem conhecida tradição cinematográfica e assim podem pertencer à vasta comunhão de conhecimento cultural compartilhado. Utilizando elementos bem conhecidos dentro do contexto dramático de um filme específico, o compositor pode facilmente criar uma resposta imediata da platéia. Tal ferramenta útil pode ser rapidamente tornada ineficaz se excessivamente utilizada. Contudo, ela pode também tornar-se um meio de criar uma resposta mais específica que é diretamente condicionada pelas cenas nas quais a música acontece. Em tais casos, uma relação mais complexa entre o sinal e seu significado é criada: a platéia pode ser confrontada pela dissonância entre os significados compreensíveis de um clichê e o específico contexto no qual ele ocorre. Repetição, contraste e variação podem ser vistos como os blocos básicos de construção do significado musical num filme. A tabela abaixo mostra as quatro possibilidades básicas, junto com um resumo rápido de cada efeito. A repetição ou continuação de uma relação-exemplo particular fortalecerá a percepção daquela relação, enquanto que uma falta de repetição (descontinuidade da relação-exemplo) pode enfraquecer sua percepção.

Nota: Nesta tabela, elementos musicais são indicados pelas letras a e b; elementos dramáticos (textual e visual) são representados pelas letras x e y

Exemplos de Repetição Musical/Dramática


Exemplo

Descrição

Significado

a

a

--- 

==>

--- 

x

x

Uma dada idéia musical é escutada novamente no mesmo (ou similar) contexto dramático.

A repetição de ambos os elementos musical e dramático fortalece a conexão entre os dois.

a

b

--- 

==>

---

x

x

A idéia musical muda, mas o contexto dramático permanece essencialmente o mesmo.

A mudança no elemento musical pode sugerir que o evento retratado ou o texto que é entregue deve ser percebido diferentemente mais no segundo exemplo do que no primeiro.

a

a

---

==>

---

x

y

A idéia musical permanece essencialmente a mesma, porém o contexto dramático muda.

A repetição do elemento musical em novos elementos dramáticos pode sugerir uma conexão ou similaridade entre as duas situações dramáticas. 

a

b

---

==>

---

x

y

Ambos os elementos musical e dramático mudam.

A falta de repetição de ambos os elementos musical e dramático enfraquece sua relação mútua. Isto reforça diferenças entre as duas situações dramáticas ou uma mudança dentro de uma dada situação na tela.


Nenhum dos exemplos descritos acima tem de ser usado para a exclusão dos demais. Por exemplo, um compositor poderia usar uma grande porção de repetição de uma idéia musical para estabelecer uma conexão forte com um particular tema dramático, então alterar aquela relação colocando a música em um novo contexto dramático (com novas implicações), por meio disso adicionando uma nova dimensão ao sinal musical/dramático que já tenha sido estabelecido.

 

[1] Ciência da linguagem que opera com a articulação dos signos verbais e não-verbais, com os diversos sistemas de sinais, de linguagem e suas relações; compreende três ramos: sintaxe, semântica e pragmática.

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