NÊMESIS (Star Trek: Nemesis, EUA, 2002)
Gênero: Ficção Científica
Duração: 116 min.
Estúdio: Paramount
Elenco: Patrick Stewart, Jonathan Frakes, Brent Spiner, LeVar Burton, Michael Dorn, Gates McFadden, Marina Sirtis, Tom Hardy
Compositor: Jerry Goldsmith
Roteiristas: John Logan, Rick Berman, Brent Spiner
Diretor:
Stuart Baird

Jornada ao fundo do poço 

Roteiro pavoroso reserva para o capitão Picard e seus comandados uma despedida totalmente melancólica

O fracasso retumbante desse que é o décimo longa metragem baseado na famosa série JORNADA NAS ESTRELAS (custou mais de US$ 70 milhões e não rendeu nem US$ 45 milhões nos EUA) tem sido motivo de debate entre críticos e apreciadores. “Será que os fanáticos abandonaram seu objeto de culto? Terá sido por estrear junto com AS DUAS TORRES?”, perguntam. Mas a resposta é mais simples do que se poderia imaginar: o filme é simplesmente ruim. Nem adianta culpar a direção medíocre de Stuart Baird (U.S. MARSHALS), já que o problema desse NÊMESIS é seu roteiro pavoroso, repleto de furos e absurdos que, de tão ridículos e inacreditáveis, derrubam de cara qualquer tentativa em criar suspense ou aprofundamento. Perto dessa pérola, até o roteiro do JORNADA NAS ESTRELAS - A ÚLTIMA FRONTEIRA (tido até aqui como o pior filme da série) parece uma obra prima de coerência e desenvolvimento de personagens. 

A história não faz o menor sentido também. Começa com a Enterprise (que nunca esteve tão feia e mal aproveitada) resgatando pedaços de um robô igual ao Data (Brent Spiner) num planeta desconhecido. Em meio a isso, acontece um golpe de estado no planeta dos Romulanos (velho inimigos da Federação) e é colocado no poder um tal de Shinzon – na verdade, um clone do capitão Picard que cresceu no mundo vizinho, Remus. Mas sua chegada ao poder não fica clara, muito menos as suas intenções e motivações: numa hora pretende destruir os próprios romulanos por vingança, depois quer capturar o Picard (ao que parece para fazer uma transfusão de DNA), logo depois diz que quer mesmo é destruir a Terra para conquistar o universo. Ou seja, nada tem lógica e tenta-se, sem sucesso, criar algum tipo de clima sinistro na relação entre o comandante da Enterprise e seu clone. Só que o ator que faz Shinzon, um tal de Tom Hardy, é fraquíssimo, não tem a menor presença ou força, tornando-se apenas afetado e irritante. Sobram então longos e enfadonhos debates entre os dois, regados àquelas velhas lições de moral sobre a nobreza do ser humano, que não soariam tão bregas e forçadas caso houvesse alguma química entre os atores em cena. 

Confesso que, embora me considere um apreciador da série, essa Nova Geração de STAR TREK nunca me convenceu muito, pois sempre os achei desprovidos de carisma e politicamente corretos demais. Mas nunca estiveram tão apáticos e impassíveis como nesse filme, onde a maioria não tem o que fazer – sem dizer que estão quase todos obesos e envelhecidos precocemente. É lamentável também a incompetência que imputam ao capitão Picard (Patrick Stewart, um bom ator novamente desperdiçado). Ele não só é capturado com a maior facilidade, como também simplesmente não tem capacidade de agir para salvar a sua nave no final, provocando assim a morte de um dos tripulantes principais! 

Percebe-se claramente a tentativa dos produtores em recriar os momentos mais memoráveis dos filmes anteriores, especialmente o segundo e mais querido entre os fãs (A IRA DE KHAN), não só na maneira como a batalha entre as naves desenrola-se, mas também no fato do vilão ter uma “arma de destruição suprema” (que também nunca convence) e na tentativa totalmente frustrada de criar comoção matando um dos personagens principais. Mas nada disso funciona, já que o filme é dramaticamente nulo e incrivelmente arrastado, para não dizer chato – o que piora ainda mais se consideramos que o diretor é um ex-montador! Não é a toa que a trilha de Jerry Goldsmith é tão fraca (mal se ouve qualquer música), afinal não tinha mesmo como o compositor extrair inspiração de algo tão amorfo e frio. 

Sinceramente, não dá para gostar desse filme nem com boa vontade, nem mesmo por respeito à série que, depois de Kirk, Spock e McCoy, nunca mais foi a mesma. Mas nada foi tão canhestro e patético como NÊMESIS, que é sem dúvida o ponto mais baixo de tudo que já foi feito, pior até que o anterior, INSURREIÇÃO. Picard e seus comandados não poderiam ter uma despedida mais melancólica do que essa, cujo fracasso é totalmente merecido e justificado.

Cotação: *

André Lux

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