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PROCURANDO NEMO
(Finding Nemo, EUA, 2003)
Duração: 101 min.
Estúdio: Disney/Pixar
Elenco: Albert Brooks, Ellen DeGeneres, Alexander Gould, Willem
Dafoe, Brad Garrett, Allison Janney, Austin Pendleton, Stephen Root
Compositor: Thomas Newman
Roteirista: Andrew Stanton
Diretor: Andrew Stanton
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Peixes inteligentes
Contando uma fábula aquática sobre
peixes e gente, a Pixar assina um belo filme
Ao analisar cada uma dessas recentes
super-animações digitais, talvez não encontremos nenhuma que situe seus
megabytes vivos e criaturinhas de forma tão próxima ao mundo dos humanos
como o faz este PROCURANDO NEMO.
Não são somente as referências gerais à
organização social, o que já é no
mínimo pitoresco (os peixinhos moram em territórios, "na
imensidão azul" do mar, facilmente comparáveis a bairros
ou vilas, estudam em "escolas"), mas também a
visualização e a divagação em torno de
assuntos como relação pai & filho
(superproteção), viciados vivendo fase de
recuperação (tubarões que freqüentam uma
espécie de AA por se verem culpados como comedores de peixes
menores), política ("principalmente os humanos americanos",
palavras de um tubarão, proferidas em tom de medo) e
amadurecimento. No entanto, PROCURANDO NEMO é realizado com
leveza incontestável. Essas abordagens são, embora longe
da babaquice, simples. Visam transmissão sucinta e
digestão suave dos temas. Diga-se de passagem, seria algo muito
estranho constatar o contrário.
Nemo é um peixe-palhaço "menininho", deficiente em uma de suas nadadeiras. O
pai, Marlin, após o trauma da perda da "esposa", cuida do peixinho com atenção
excessiva e sufocante. O filho, ao tentar provar que seria capaz de viver
independente do amparo exagerado de Marlin, acaba "capturado" por um mergulhador
e vai parar em um aquário. Marlin, então, lança-se em uma jornada pelo mar, à
procura de Nemo. O caminho do pai, acompanhado de uma peixinha maluquete,
torna-se uma epopéia, enquanto o menino aprende lições no aquário. Há um
minúsculo comentário sobre a liberdade na apresentação deste ambiente, quando
Nemo, que lutava por ser livre (condição cerceada pela proteção do pai) no mar
aberto, depara-se com as invisíveis paredes de vidro ao se movimentar.
Tecnicamente, o que mais impressiona é a construção física do mundo marinho. A
noção de infinito e a riqueza de detalhes (milhares de tipos de peixes, as
células gráficas por meio das quais as paisagens e o espaço são concebidos) são
pontos explorados ao máximo e conseguem fazer o filme acontecer com certo
realismo. O resultado, para uma peça que dialoga com relações humanas, além de
bem-sucedido, é irônico, exatamente ao chegar bem perto de conduzir o próprio
humano a mergulhar no mar e a desejar participar daquele cenário.
Talvez, na sala de cinema, este aspecto evolua com ainda mais fluência. O
contraste entre a tela, sempre imprimindo variação entre as tonalidades escuras
do verde e do azul, e a dimensão do espectador, escura, é de fato envolvente e
contribui para que os olhos repassem, a quem assiste, a sensação de se estar
vizinho daquilo tudo. A música do compositor Thomas Newman (cada vez melhor) se
locomove entre acordes pesados, cuja conotação parece aproximar os peixes do
drama "humano", e a utilização musical de "tintas" marinhas.
PROCURANDO NEMO é um filme que, a se perceber sua intimidade com alguns
mecanismos do mundo dos humanos, pode ser definido como uma fábula aquática. A
comunicação com o público ocorre através de uma sensibilidade notável. Se isto
não bastasse, o filme é inteligente, fato que, isoladamente, já significaria
muito. Em uma perspectiva minimamente otimista, é possível pressupor que o
objetivo do estúdio Pixar é verificar, daqui a alguns anos, uma geração de
pessoas inteligentes. Nada mal.
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