NOMENCLATURAS Bruno Moreto
Nomenclaturas não existem por acaso, e me parece, pelo menos dentro de certos círculos, que certos termos não são usados corretamente para definir o objeto do qual se fala; na minha opinião, a inadequação lingüística é apenas uma máscara para esconder preconceitos e desinformações que venham a surgir talvez por certa (alta) dose de conceitos pouco produtivos, especialmente de ordem qualitativa, que caminham ao sol pelos cantos da crítica ou do público.
O primeiro termo que não me parece ser usado com muita propriedade é o melodrama. O termo foi emprestado do teatro e, originalmente, designava o gênero que se firmou a partir do século XVIII, no qual partes faladas (drama) eram acompanhadas de música (melo). Por isso, melodrama. A função da música, no melodrama, era marcar com mais ênfase o que visualmente se podia perceber; existe, portanto, um papel ditatorial da música, que determina para onde os sentimentos devem ir. Não creio, portanto, ser bastante adequada a utilização do adjetivo melodramático como termo pejorativo. Em primeiro lugar, estamos lidando com um gênero tão importante quanto qualquer outro, independente de seu apelo popular. Ser melodramático é, basicamente, um tipo de situação geralmente contundente em que a música ditará para onde devemos ir. Geralmente, os melodramas trazem situações-limites, momentos de abnegação pessoal e provações imensas para seus personagens. O conflito, geralmente de ordem moral, chega ao clímax através do auxílio da música. Há os bons melodramas e os maus melodramas, dentro dos conceitos pessoais de cada um. Há Douglas Sirk (e vi há poucos dias Written on the Wind, filme muito belo), há Clint Eastwood com o, na minha opinião, perfeito Million Dollar Baby. Creio que utilizar o termo melodrama como desmerecedor dos filmes citados seria um pouco descabido.
Há, também, a insistência em tentar denegrir a construção de personagens em uma obra através das palavras estereótipo e caricatura. Pois bem, os termos em si têm suas diferenças, mas de maneira alguma apresentam qualquer traço de negatividade. A grande questão é a influência da linha russa de interpretação, criada por Stanislavski, que assolou os EUA na segunda metade do século XX, fazendo com que outras maneiras de lidar com a arte dos atores, por assim dizer, ficassem em segundo plano. Essa maior tendência da linha realista, ao longo dos anos, fez com que diferentes maneiras de construção de personagens, que de alguma forma ‘fugissem da realidade’, fossem ostracizadas e condenadas. Mas não podemos esquecer dos exageros interpretativos propostos por Artaud, da mecanicidade das emoções de Grotowsky, da frieza e distância, a fim de criar distanciamento racional, por assim dizer, de Brecht, apenas para mencionar os mais influentes. O estereótipo é uma técnica de construção de personagem cuja principal característica é a reprodução de arquétipos com o intuito de imediato reconhecimento. Por exemplo, ao querer construir um personagem velho, o ator fica corcunda, usa uma bengala e deixa a voz esganiçada. A partir disso, ele constrói, por assim dizer, um estereótipo, pois dificilmente alguém confundirá seu personagem com o de um adulto ou até mesmo uma dançarina de bar de beira de estrada. Obviamente, existem estereótipos bem e mal construídos, dependendo da técnica e/ou talento do ator. Mas dizer que um personagem é estereotipado no sentido de dizer que foi mal construído é uma verdadeira falta de adequação... O mesmo ocorre com a caricatura. A caricatura geralmente tem intenções cômicas, justamente por exacerbar determinada característica da personagem. Se temos um fanho, por exemplo, tal defeito, numa caricatura, será o principal traço da personagem. Ele não será apenas fanho, e sim uma aberração fanha. Novamente, há boas caricaturas e más caricaturas. E as mesmas considerações em relação ao estereótipo cabem aqui.
O terceiro ponto que talvez me incomode às vezes é a seguinte tomada de posição: o questionamento de determinada ocorrência numa obra de arte porque o mesmo supostamente não viria a ocorrer no ‘mundo real’. Os estudos sobre a realidade, a ficção e o imaginário, principalmente nos estudos literários, são numerosos. Temos Genette, Eco, Iser, Sartre, Riffaterre, Auster, Auerbach, Bakhtin, Chklovski, Todorov, Jakobson, mencionando apenas os mais famosos. Porém, em quase todos, há o seguinte consenso: sim, o ‘mundo real’ é necessário para a compreensão do mundo ficcional, funcionando, por assim dizer, como uma espécie de ‘pano de fundo’ da ficção (isso é termo de Eco). O problema, a meu ver, é a profunda tendência mimética de nossa sociedade, que talvez não consiga abstrair, muitas vezes, certas coisas que, curiosamente, abstrai em certas circunstâncias. Ao ver um filme de 007, muitos dizem que as situações são ‘forçadas’. Ora, mas tais detratores geralmente não apresentam problemas ao aceitar que, por exemplo, havia orcs num certo momento indefinível no tempo, ou até mesmo que há um portal que leva à cabeça de John Malkovich. A questão, portanto, não é ficcionalizar a realidade, e sim acionar o imaginário na construção de um mundo ontológico à parte, altamente ligado à realidade, mas não espelhado na mesma, independente de seus parâmetros. Infelizmente, a frase ‘não aconteceria no mundo de verdade’ é completamente irrelevante e desconsiderável, justamente porque tratamos de ficção, e a ficção, por assim dizer, é a capacidade de criação de mundos distintos, fechados e auto-suficientes. |
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