Ó PAÍ, Ó (Brasil, 2007)
Gênero: Comédia
Duração: 98 min.
Elenco: Lázaro Ramos, Stênio Garcia, Wagner Moura, Luciano Souza, Dira Paes, Érico Brás, Tânia Tôko, Emanuelle Araújo, Rejane Maia, Lyu Arisson, Valdinéia Soriano, Jorge Washington
Compositores: Caetano Veloso, Davi Moraes
Roteiristas: Monique Gardenberg, Márcio Meirelles
Diretor: Monique Gardenberg

Você já foi à Bahia?

Novo filme da diretora Monique Gardenberg é uma encantadora e merecida homenagem à Bahia

Dizer que a Bahia é uma gravadora disfarçada de estado é algo tão recorrente que já se tornou mais que uma frase feita, mas quase um dito popular; como também não é raro encontrar pessoas que definem a terra que ofereceu ao mundo Daniela Mercury e o Olodum como o mais encantador e belo estado brasileiro. São definições que podem até mesmo soar repetitivas, porque, claro, são empregadas por muitos; mas que são tão verdadeiras que, a cada vez que são ditas, surgem mais fortes, e arrastam atrás de si uma legião de pessoas que partilham dessas opiniões.

O novo filme de Monique Gardenberg, Ó PAÍ, Ó, nos faz lembrar tais definições por ser, assim como estas, uma encantadora e merecida homenagem à Bahia. Ambientado no Pelourinho, o coração de Salvador, o filme situa sua trama às vésperas do Carnaval, quando os habitantes de um cortiço estão envolvidos com as alegrias da folia momesca e, mais que nunca, o espírito baiano está expresso nos poros, no calor e na sensualidade de seu povo. O dia-a-dia do Pelourinho pré-feriadão é tão bem construído pela película que parece até, em certos momentos, que iremos ver, no meio dos personagens, Sonia Braga correndo desesperada atrás do marido Vadinho, desencarnado de ataque cardíaco com sua fantasia de Carnaval. Mas, na verdade, há uma diferença de mais de 30 anos entre DONA FLOR e  Ó PAÍ, Ó, ambos filmes ambientados em Salvador e que tão habilmente enfocam o cotidiano do admirável e adorável povo daquela cidade e de todo o mágico estado (de espírito?) baiano. Gente cuja maior expressão hoje em dia talvez seja Lázaro Ramos, personagem e ator que, em Ó PAI, Ó, representa menos um papel cinematográfico e mais a síntese do que significa ser alguém nascido na Bahia. Ou do que significa ser... a Bahia.

Mas pode parecer um exagero dizer, como fizemos acima, que Ó PAÍ, Ó teria uma "trama"; o filme é um musical, e, assim sendo, tudo é um pretexto para que os personagens, repentinamente, saiam cantando, dançando, exalando a alegria de viver - e de viver na Bahia. Nesse sentido, a ambientação em Salvador se torna ainda mais pertinente, e faz de Ó PAÍ, Ó um filme onde a locação se torna um personagem ainda mais intenso do que os vividos por atores de carne e osso. Há um preço a pagar, claro: como o filme é menos trama e mais música e dança, sempre se pode fazer restrições ao fato do roteiro do filme transformar em boa moça uma das moradoras do cortiço, que tem por prática assassinar fetos clandestinamente. É um erro que não se pode negar ser grave, mas que, felizmente, não tem força, do ponto de vista cinematográfico, para eliminar o vigor e alegria que Ó PAÍ, Ó apresenta.

O astral do filme, a força da construção narrativa – que suavemente repousa através da estória leve e bem contada - e o carisma do elenco, que mescla nomes consagrados como Lázaro Ramos, Wagner Moura (especialmente perfeito, num dos grandes desempenhos do ano), Stênio Garcia e Dira Paes a talentos ainda não muito conhecidos (e onde se  destaque Emmanuelle Araújo, encantadora como Rosa) fazem do filme um momento de pura alegria e prazer cinematográfico para ser visto e revisto várias vezes. Um filme absolutamente delicioso, uma homenagem linda à Bahia.

Cotação:
Carlos Dunham
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