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O
premiado John Ottman é o único editor/compositor de trilhas sonoras
trabalhando em grandes filmes de Hollywood . Apesar de Ottman já ter
composto as trilhas originais de numerosas produções, ele exerce essas
duas funções apenas para o diretor Bryan Singer. O primeiro projeto de
Ottman e Singer na faculdade ganhou o prêmio do Festival de Sundance, o
que lhes abriu as portas para "Usual Suspects", "Apt Pupil" e "Superman
Returns", entre outros. Ottman também foi um dos produtores executivos
de OPERAÇÃO VALQUIRIA ("Valkyrie"), o filme estrelado por Tom Cruise
baseado na história verídica dos oficiais alemães que tentaram
assassinar Hitler durante a Segunda Guerra Mundial. Ottman passou meses
na Alemanha editando o filme, além de exercer as funções de editor de
efeitos visuais. Após a edição, Ottman começou a criar os mais de 70
minutos de score do filme, com a interpretação de uma orquestra
de 80 instrumentos. Ottman conversou com nossos editor Jorge Saldanha
sobre edição, trilhas sonoras e Tom Cruise, que não apenas estrelou
"Valkyrie" mas também foi produtor executivo do filme.
Jorge
Saldanha - Caro
Mr. Ottman, estamos felizes por podermos realizar esta entrevista com um
profissional tão singular e talentoso da indústria do cinema. O que veio
primeiro: montar filmes ou compor suas trilhas sonoras?
John Ottman - Faço filmes desde a escola elementar, e para fazer
um filme você deve juntar suas partes e fazer dele uma coisa só. Então,
desde o início, a edição (montagem) de filmes tornou-se uma segunda
natureza para mim. Mas a verdade é que a inspiração por trás de todas as
histórias que já contei vieram da música que ouço, basicamente trilhas
sonoras e música clássica. Era comum eu fazer um filme para acomodar
nele meus scores favoritos. Após me formar, descobri a tecnologia
midi, comprei um monte de equipamentos usados, como um velho
órgão Hammond, peguei os manuais e ensinei a mim mesmo a criar música
com aquela tecnologia. Começando no colégio, toquei clarinete por muitos
anos, mas nunca muito bem. No entanto, ouvindo tanta música clássica e
vendo-a ser interpretada ao vivo, pude aprender muita coisa. Com o
midi, pude aplicar o que estava na minha cabeça e logo comecei a
praticar compondo novas trilhas para os filmes dos meus amigos
estudantes e depois, eventualmente, a musicar pequenos projetos como um
hobby.
JS - Presumo que ser, ao mesmo tempo, o
editor e o compositor da trilha sonora em um filme de Bryan Singer, lhe
dá uma posição muito privilegiada no processo de pós-produção. Conte-nos
como ambos os aspectos interagem e se relacionam entre si.
JO - Bem, o trabalho do editor de um filme é
abrangente, como se fosse o editor de uma revista ou jornal. Ele/ela
está encarregado de contar uma história, verificando se as cenas foram
filmadas adequadamente, e se não foram, dando-lhes um sentido para que
funcionem da melhor maneira possível. Atuações do elenco são moldadas,
decisões musicais são tomadas, etc. Quase nenhuma decisão relativa à
criação do filme é tomada sem a opinião ou design do editor.
Ele/ela é essencialmente o outro diretor do filme, seja atrás de uma
cortina ou da porta de uma sala de edição. Então, quando o editor é
também o compositor, não há muito choque de idéias. Ambas as funções
contam uma história (ou deveriam). Também, é comum o editor colocar no
filme música temporária para as primeiras exibições, assim como é comum
que o compositor não concorde com isso. No meu caso, sempre concordo com
a decisão do editor, ou seja, tenho mais controle que o normal. E como
o diretor é, no caso, Bryan Singer, só tenho mais uma outra pessoa para
contentar.
JS - Como compositor de trilhas sonoras, de
onde vêm suas maiores influências?
JO - Basicamente de dois lugares: da série original de “Star Trek”,
e das fantásticas trilhas sonoras dos anos 1970. A série usava música
orquestral tradicional em seus episódios, mas nem todos eles tinham uma
trilha sonora original específica. Então muitos temas eram reutilizados
para dar ao programa um senso de continuidade. Esta é a marca registrada
de uma boa trilha sonora – revisitar temas incidentais e de personagens
para definir uma série ou filme. A música era maravilhosamente escrita,
e teve um grande impacto em mim. Então, e esta história vale para
muitos, veio "Star Wars" e eu fui despertado para toda a excitação e a
força de um score cinematográfico. Mais uma vez, as tradições de
temas fortes e sensibilidades intelectuais na composição foram a marca
de obras como "Star Wars". Isto foi em 1977. Pouco depois veio, para
mim, um dos maiores momentos da minha vida – "Star Trek: The Motion
Picture". Apesar de o filme ser demasiadamente cerebral para a maior
parte do público, fui totalmente conquistado por um score que
uniu as tradições das trilhas do passado com algo inovador e
contemporâneo. Foi assim que descobri meu ídolo,
Jerry Goldsmith. A
partir daí voltei no tempo para descobrir todo o seu trabalho das
décadas de 60 e 70 (como "Chinatown", "Planet of the Apes", "Patton", "Alien",
"Poltergeist", entre muitos outros – até mesmo uma minissérie de TV
chamada "Masada", que tornou-se uma das minhas favoritas de todos os
tempos). Tornei-me viciado em suas trilhas até os anos 1990. Sua
abordagem me impactava, e moldou o modo que eu penso sobre como narrar
um filme musicalmente. Então descobri muitos outros compositores que
floresceram nas décadas de 60 e 70. A maior parte do meu trabalho mantém
essas tradições vivas, mas não conscientemente. Eu tenho meu próprio som
– mas meus "professores" são bem conhecidos.
JS - Como você iniciou sua longa parceria
profissional com o diretor e produtor Bryan Singer?
JO - Nos conhecemos na faculdade de cinema (USC). Ele era um "P.A."
no filme de tese de um amigo. Eu estava ajudando no set e o
conheci. Eventualmente o editor do filme teve de partir, e acabei
recebendo a missão de remontar o filme e recontar a história. Conhecendo
o filme desde o início, Bryan acompanhou meu trabalho e nos tornamos
conhecidos. Então ele escreveu um roteiro curto e me pediu para
editá-lo. Ele também queria atuar no seu próprio filme, e não esperava
sofrer um bloqueio. Tivemos que embebedá-lo para que interpretasse o seu
papel, o que significou que tivemos de fazer vários malabarismos na hora
das filmagens. Por causa disso ele graciosamente concedeu-me o crédito
de co-diretor. Depois disso ele fez um filme de baixo orçamento, "Public
Access", o qual acabei editando. O compositor do filme abandonou o
projeto na última hora, e eu o convenci de que poderia compor a trilha
sonora, apesar de até então apenas ter composto para curtas-metragens,
como hobby. O filme ganhou o prêmio do Sundance Film Festival, e
posteriormente ele me disse que a única chance que eu teria de compor a
trilha de "The Usual Suspects" seria também editar o filme. A chantagem
continua até hoje.
JS - Neste caso, descreva-nos um típico dia de
trabalho com o "chantagista", quero dizer, Mr. Singer.
JO - Bem, isto varia dependendo da fase do filme em que
estivermos. Durante as filmagens eu o vejo a cada dois dias, enquanto
estou febrilmente montando as cenas conforme elas vão sendo filmadas.
Ele então pode fazer alguns comentários, mas a maior preocupação ali é
se já temos as tomadas suficientes para que possamos desmontar o set
ou irmos filmar em locação. Às vezes irei procurá-lo no set
se tiver alguma preocupação quanto a determinadas tomadas/atuações. Após
as filmagens ele irá me deixar em paz por alguns dias, para assistir as
montagens das cenas, fazer comentários, e coisas assim. Além desses
fortes exemplos, acontece coisa parecida quando estou compondo o
score, quando ele virá após eu musicar algumas cenas, e assim vai.
JS - Qual foi a sua abordagem para compor a
trilha sonora de "Superman Returns"? Houve limitações ou reservas para o
uso dos temas originais de
John Williams?
JO - Nunca houve qualquer reserva sobre reverenciar o tema de
Williams. Apesar das ameaças de morte que estava recebendo pela
internet, foi bom ter feito essa homenagem. Fui um grande fã do filme
dos anos 70, e como qualquer outra pessoa envolvida na produção, não
queria macular o grande mundo que Richard Donner (o diretor) criara. Mas
muito cedo eu estava recebendo tantas reclamações, antes mesmo de
começar a compor, e era tanta a pressão para fazer a coisa direito, que
meu cérebro começou a entrar em pane. Até que um dia decidi simplesmente
tratar a trilha desse filme como qualquer outra que já compus - usando
minhas próprias sensibilidades (a maioria aprendidas de mestres como
Williams, afinal de contas), e apenas compor o score do filme.
Isto liberou minha mente para ser criativa, e a maior parte fluiu
naturalmente. Fiquei desapontado pelos 120 minutos de música que escrevi
terem sido desqualificados para uma indicação da Academia simplesmente
porque utilizei o tema de Williams aqui e ali. Espremida entre as
seqüências de títulos inicial e final, havia uma tremenda quantidade de
música original que eu compus. Então, isso magoou.
JS
- Passando para seu projeto mais recente, "Valkyrie", ele parece ser
épico, muito ambicioso. Fale-nos sobre suas atividades como editor e
compositor neste filme.
JO - Bem, além das funções como editor que já descrevi acima, o
grande desafio editorial deste filme foi manter as coisas ajustadas,
mesmo quando pensava que sabia a direção para onde elas iam. Foi um
desafio manter a platéia imersa no filme quando tantas cenas são
segmentos de diálogos realmente densos, em locais confinados. A esse
respeito, foi a coisa mais ambiciosa que já tentei fazer. Tive que
acentuar o suspense o máximo que pude, sem desvirtuar os fatos
históricos. É mais um filme de detetives que um épico da Segunda Guerra
Mundial. Então a trilha sonora intencionalmente evitou os clichês (como
baterias militares e trompetes) associados a filmes de guerra. O
score teve de tornar-se o verdadeiro batimento cardíaco do filme, o
que foi difícil de fazer sem que soasse forçado.
JS - Como foi ser o co-produtor executivo
juntamente com Tom Cruise, que também estrelou o filme? Ele é o sujeito
divertido que aparenta ser?
JO - Bem, cada diretor e editor tem diferentes relacionamentos. O
meu e de Bryan talvez seja mais uma parceria do que outra coisa. Então,
minhas obrigações em "Valkyrie" não foram muito diferentes das que tive
em outros filmes. A única diferença é desta vez recebi um crédito
adicional por isso. Tom é uma das pessoas mais gentis, "pé-no-chão" que
possam existir. Ele não tem um ego que possa atrapalhar. Ele é apenas um
cara que quer fazer um filme bom, e ama o seu trabalho - interpretar. É
como se ele nunca tivesse esquecido o porquê de ter entrado no ramo, e
ele ainda possui a mesma motivação e excitação para fazer um filme. Suas
atenções nunca se relacionavam a quais tomadas dele estávamos usando, ou
coisa parecida. Sua preocupação era se estávamos contando uma boa
história, e contando-a da forma mais efetiva possível. Ele tem
sensibilidades de realização eloqüentes, e quando intervinha no processo
via de regra estava sempre com razão. O legal é que ele tem tamanho
respeito por todos os envolvidos que esses debates realmente aconteciam,
no lugar de apenas nos comunicar uma decisão. Ele realmente confiou no
diretor, editor e roteirista deste filme.
JS - Quais são os pontos altos de sua carreira?
JO - Apesar da dificuldade e agonia que tive fazendo "Valkyrie",
trabalhar com Tom Cruise teria de estar no topo da lista. Obviamente
ouvir meu primeiro score ganhar vida – "The Usual Suspects" – foi
outro momento que nunca esquecerei. Eu realmente nunca menosprezo
nenhuma experiência. Compor a trilha sonora para filmes de super-heróis
foi emocionante porque tive que suar para compor grandes obras
orquestrais. E também há aqueles pequenos prazeres como "Kiss Kiss Bang
Bang", que foi um projeto verdadeiramente divertido de trabalhar. E
raramente eles são tão divertidos. Por fim, quando dirigi "Urban Legends
2", minha maior satisfação foi trabalhar com atores. É literalmente um
ponto alto da minha vida olhar para trás, ver como lidei com os atores e
soube como tornar diálogos e situações totalmente implausíveis o menos
risíveis possível! Simplesmente adoro as colaborações no set que
ocorrem nas filmagens, e eu fui um diretor que abraçou aqueles momentos.
JS - E entre seus futuros projetos, se inclui
uma nova experiência como diretor?
JO - Após "Valkyrie", estou apenas juntando os pedaços. Ele
tornou minha vida pessoal um caos, como qualquer grande projeto faz.
Também perdi vários trabalhos como compositor de trilhas. Então, estou
procurando outros trabalhos, mas ao mesmo tempo tentando aproveitar meu
tempo livre. Dirigir é algo que adoraria voltar a fazer, mas também é
algo potencialmente destruidor para a minha vida. Portanto, seria algo
que faria apenas se encontrasse um roteiro que tivesse um impacto tão
grande em mim, que não me deixaria outra escolha a não ser contar aquela
história. Em outras palavras, não quero dirigir simplesmente para que eu
me chame de diretor. Se eu o fizer, será o projeto da minha vida até que
esteja concluído. Poderei eventualmente encontrá-lo, ou talvez chegue a
uma posição onde o tempo permita que eu deixe meu trabalho diário e
assuma o projeto.
JS - Obrigado pelo seu tempo Mr. Ottman. Nossos
leitores lhe mandam um grande abraço, desejando muito sucesso.
JO - Não tem do que, e para vocês também!
Agradecimentos especiais a John Ottman e Melissa McNeil por tornarem
esta entrevista possível.
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