O CRIME DO PADRE AMARO (El Crimen del padre Amaro, Espanha, México, Argentina, França, 2002)
Gênero: Drama
Duração: 120 min.
Estúdio: Columbia (distribuição)
Elenco: Gael García Bernal, Ana Claudia Talancón, Sancho Gracia, Angélica Aragón, Luisa Huertas, Ernesto Gómez Cruz, Gastón Melo, Damián Alcázar
Compositor: Rosino Serrano
Roteirista: Vicente Leñero
Diretor: Carlos Carrera

Ensaio sobre a hipocrisia 

Primeira adaptação de Eça de Queiroz para o cinema questiona não a Igreja, mas sim a supremacia das aparências sobre as emoções 

Hipocrisia, segundo o dicionário, significa "falsa devoção". Porém, quando ela toma conta das mentes e atos dos humanos, é quase impossível livrar-se dessas duas palavras. O CRIME DO PADRE AMARO, baseado na obra do famoso escritor português Eça de Queiroz, vem para deixar bem claro aos "maiorais", que se exibem com elegância frente à sociedade: todos nós somos hipócritas, iguais e teremos o mesmo triste fim.

Pode parecer incrível, mas esta é a primeira adaptação de uma obra de Queiroz para o cinema (dizem que há muita complexidade nela). Nem mesmo Portugal, país de origem do escritor, fizera isto antes. As expectativas sobre o filme voaram alto, pela ascensão do cinema mexicano. Mas, como é retratado no parágrafo acima, a fita é muito mais interessante no quesito social que no visual. Pois em termos de narrativa, O CRIME DO PADRE AMARO começa muito desinteressante. Suas primeiras cenas aparentemente não levam a lugar nenhum e a mensagem chega a parecer irrelevante. O tom crítico do filme só aparece após a primeira hora de projeção. E, para alívio do espectador, a emoção vem junto com ele.

Conforme esta parte final se desenvolve, vamos percebendo o real sentido daquilo que vimos anteriormente. Cada personagem passa a ter um sentido realmente interessante - o padre superior de Amaro, no início atacado por ter ligações com o narcotráfico, acaba se revelando apenas uma visão do jovem no futuro. Amaro, como já está perceptível, é um jovem padre que chega a uma vila no interior do México, onde existem diversas denúncias. Quando ele começa a sentir a presença real da tão falada "hipocrisia" nos superiores do local, acaba sendo possuído por ela - e, muito mais, por uma paixão avassaladora por uma jovem catequista da vila, que insiste em manter a pureza e a "dignidade" frente a todos.

Quando a situação se torna irreversível, Amaro percebe - é tão podre ou hipócrita quanto todos aqueles que queria denunciar. O drama pessoal fica intenso - o que escolher, o futuro considerado certo ou o amor de sua vida? Novamente, a hipocrisia está presente em ambos os lados. O disfarce utilizado por O CRIME DO PADRE AMARO é o de criticar a igreja católica. Mas, de fato, o filme ataca toda a raiz humana. A raiz onde as aparências se tornam mais importantes do que as razões da emoção e do coração.

Pena que todo este questionamento leve tanto tempo para se desenvolver. A primeira hora é uma construção de trama que não leva a lugar nenhum - um resumo breve levaria a uma solução ainda mais potente e eficaz que o filme possui. Segurança também é exalada por uma dupla que segura o filme quando ele está morno: o talento de Gael García Bernal e a beleza de Ana Claudia Talancón - os dois se completam, causando dor, emoção e sensibilidade no espectador, liberando a crítica para o roteiro.

A polêmica causada pelo filme resulta da hipocrisia (vejam ela aí novamente) daqueles que se revoltaram. Certamente não ficariam tão bravos se conceitos contrários fossem atacados. A cena de sexo no manto da virgem Maria é um primor, e no final, após criticar tanto, a fita mostra uma missa com um canto religioso e extrema felicidade. Apenas impressão minha ou o filme também se tornou hipócrita?

Cotação:
Carlos Massari
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