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CDs Piratas? Que
CDs Piratas?
Quando falamos de uma gravação pirata, pensamos geralmente em cópias não autorizadas, que violam os direitos de autor. Embora a filosofia base seja essa, é um pouco mais complexo. No caso dos programas informáticos, é normalmente permitida a cópia para fins de segurança. No caso de obras literárias podem ser usados trechos para fins de crítica ou estudo, contando que estes sejam curtos. Embora não seja autorizada, a cópia de um
CD para cassete, para podermos ouvir no carro, não será propriamente considerado um acto grave de violação de direitos de autor (embora, estou certo, a editora preferiria que comprássemos a edição em cassete para usar no
carro). Já no tempo do LP, a pirataria de áudio existia. O pequeno pirata, mais
freqüentemente, fazia cópias em cassetes (muitas vezes na própria aparelhagem de som caseira), mandava imprimir umas quantas capas, e aí está: igual ao original mas mais barato. O mais requintado mandava imprimir
LPs, de artistas famosos, que depois vendia como sendo o original. Em qualquer dos casos eram cópias de qualidade inferior, que roubavam a editora e artistas do seu lucro.
Mesmo nessa altura, já existiam edições pirata de música para cinema. Não eram como as mencionadas, pois muitas vezes voltavam-se para gravações nunca disponibilizadas comercialmente, logo não eram cópias baratas de uma edição oficial. O precursor do
CD pirata era o LP, que tal como o seu sucessor digital, variava entre produtos de alta qualidade, e outros de péssima. O surgimento de
LPs piratas de música para cinema deu-se nos anos 70. Havia as reedições não autorizadas de clássicos difíceis de encontrar, como
Vertigo, de Bernard Herrmann,
não considerada pela Mercury Records. Na maior parte dos casos as grandes editoras ainda não viam a música para cinema como um mercado economicamente viável (algo que foi alterado com o sucesso de
Star Wars). As editoras especializadas, como a Film Music Collection, de
Elmer Bernstein, começavam agora a surgir mas muito timidamente, e alguns coleccionadores resolveram tomar o seu lugar. Uma editora pirata que surgiu nesta época foi a Cinema Records, com fracos valores de produção (as capas eram sempre a preto e branco e o som muito fraco), mas a editar um número considerável de raridades como
The Night Digger, The Bride Wore Black, Twisted Nerve (todos de Herrmann),
Gypsy Moths, From The Terrace, A Walk in The Rain (de Elmer Bernstein) e
The Lost Command (de Franz
Waxman). A editora fugia parcialmente ao controle ao creditar as suas "re-gravações" a um Hans Rossbach, quando na verdade estas eram as gravações originais. Outras duas editoras eram a POO e a RFO Records, ambas dirigidas por Walter "Sky" Bowser, responsável pelo lançamento de
Bite the Bullet de Jerry Goldsmith, e
Walkabout e Raise The Titanic de John Barry. Depois de ter sido apanhado pelas autoridades, Bowser continuou a editar
LPs na sua nova editora Web Records, mas desta vez com o consentimento dos detentores dos direitos de autor. Muitas outras editoras surgiam, editavam um ou dois títulos e desapareciam, sendo substituídas por outras dirigidas pelas mesmas pessoas, prática ainda corrente hoje em dia.
Com o surgimento de um maior interesse em música para cinema e do
CD, a pirataria ganhou um novo fôlego, mas também se tornou mais difícil distinguir uma edição autorizada de uma que o não é. Editoras como a alemã Tsunami editaram numerosos títulos a partir de
LP ou mesmo das gravações originais, trazendo ao público partituras que nunca tinham tido uma distribuição comercial. A editora apresenta sempre os seus
CDs acompanhados por capas a cores e com notas explicativas sobre a música e filme. A qualidade do som é variável, entre o aceitável e o muito mau. Nos primeiros anos dedicou grande parte dos seus esforços a editar álbuns de compositores contemporâneos como Goldsmith (Classical Goldsmith,
Von Ryan Express, The Stripper), Bernstein (The Magnificent Seven,
The Hallelujah Trail, Hawaii) e Williams (How to Steal a Million,
Fitzwilly) bem como de Herrmann (Marnie, The Marvellous Film World of Bernard Herrmann vols. 1 e 2),
Dmitri Tiomkin (Giant, The Unforgiven, Wild is the Wind) e
Alex North (Cleopatra, Spartacus). A editora operava no entanto de forma legal, graças à lei na Alemanha, e a preços geralmente acessíveis. Mas com alterações feitas a toda a regulamentação dos direitos de autor, derivada às pressões das grandes editoras sobre o governo Alemão, a editora
foi obrugada a mudar-se para um país da Europa do leste e a dedicar-se agora a clássicos de
Korngold (The Adventures of Robin Hood),
Newman (The Diary of Anne
Frank) e Friedhofer (One Eyed Jacks) entre outros.
Mas a maioria dos
CDs piratas vem dos próprios Estados Unidos, muitos deles disfarçados como CDs promocionais. Um
CD promocional é lançado pelo compositor, ou por uma editora, para promoção do compositor, sendo sempre impressas pequenas quantidades (normalmente menos de três mil cópias). Embora não estejam sujeitos ao pagamento de direitos à produtora cinematográfica ou ao sindicato dos músicos, tal acontece por que o
CD é feito com a intenção de ser oferecido, logo sem intenções comerciais. Inevitavelmente algumas cópias chegam sempre ao mercado a preços extremamente altos. Compositores que optaram por esta via para ver os seus trabalhos editados incluem John Debney, Michael J. Lewis, Christopher Young e Robert Folk. Mas a realidade é que muitos
CDs chegam ao mercado com a indicação de serem cd's promocionais, quando na verdade são obra de coleccionadores que tiveram acesso à música e que mandam imprimir um
CD com ela. Muitas das vezes são edições de fraca qualidade, apenas com uma capa e por vezes sem nenhuma
track list, em que o som pode variar entre o realmente bom e o terrivelmente mau. Ninguém acredita que compositores estabelecidos como John Williams ou Jerry Goldsmith editem
CDs promocionais (na verdade Goldsmith teve um CD promocional recentemente, com Mulan, que foi oferecido aos membros da Academia de Hollywood, por altura da sua nomeação, mas esse não é um hábito com este
compositor). Estas edições, tal como com os CDs assumidamente piratas, são muito caras.
Outro caso são as edições limitadas. Editoras especializadas como a
Varèse Sarabande, a Collosseum, a Prometheus ou a
Film Score Monthly editam CDs em pequenas quantidades para poderem evitar alguns pagamentos. Estes
CDs são autorizados pelos detentores dos direitos de autor, mas como não atingem certas tiragens não precisam pagar, por exemplo, direitos ao sindicato dos músicos, que dispensam pagamentos até uma tiragem de 3000 cópias. (Não se deve aqui confundir o que a
Varèse Sarabande por vezes faz: editar CDs de curta duração, uma vez que custa menos, em termos de direitos de autor, editar 30 minutos do que uma hora de música). Estes
CDs são um pouco mais caros que uma edição regular, mas os valores de produção (notas, imagens do filme, qualidade de som) são habitualmente altos.
Chegamos então aos
CDs que são assumidamente piratas. Tal como referido
acima, raramente conseguimos seguir o percurso de uma editora. Freqüentemente conseguimos encontrar pontos de contacto entre editoras diferentes, que indiciam que são as mesmas pessoas que estão por trás delas. O rápido desaparecimento das editoras (muitas vezes só é editado apenas um
CD) é uma forma de fugir ao controle das autoridades. Tal como os falsos CDs promocionais, é mais que raro encontrar um destes
CDs com notas explicativas, limitando-se apenas a uma capa e uma track list na contra capa. A qualidade de som também varia entre o muito fraco e a qualidade profissional, mas os preços são sempre altíssimos. Com a banalização dos gravadores de
CDs, o negócio da pirataria aumenta ainda mais, continuando a serem cobrados preços inacreditavelmente altos por
CDs que não são impressos profissionalmente, mas sim gravados no computador, em que as próprias capas são feitas numa impressora caseira. Um exemplo é uma editora que surgiu recentemente chamada Soundtrack Library Records. Estes
CDs são vendidos a 25 dólares ou mais, apesar de o seu custo ser mínimo. Contudo existe um mercado para este tipo de produtos: Recentemente, na mesma altura que era editado um
CD oficial com a música de James Horner para
The Grinch, era lançado um CD pirata que reclama ter toda a música do filme, e aparentemente com um som excepcional. É o sonho do completista que os piratas dos
CDs prometem: ter toda a música. Não apenas a selecção que o compositor considera audível, que funciona bem longe das imagens, mas todas as notas, até ao último segundo gravado. Mesmos nestes tempos de gravações digitais e manias
audiófilas (e não melómanas) um coleccionador consegue estar disposto a pagar aquilo que ganha em vários dias de trabalho por mais uns minutos, que não eram incluídos na edição oficial e cuja qualidade de som é duvidosa.
Ainda digno de referência são os
CDs privados, preparados por fãs que tem acesso à música e a algum software de edição, bem como a um gravador de
CDs. Estes variam entre cópias em CD de LPs fora de catálogo, até compilações das músicas preferidas de determinado compositor, passando por alguns mais interessantes que conseguem criar
CDs com material inédito. Um dos exemplos mais recentes disto foi o CD-R duplo que circulava entre coleccionadores de
Episode I: The Phantom Menace. Existem várias versões, criadas por diferentes pessoas, que conseguiram ter acesso a música que não estava na edição original. Estes
CDs são normalmente para uso pessoal, mas com a facilidade proporcionada pela internet, começam a chegar a cada vez mais gente. A vantagem é que o preço a pagar é muito inferior. Mas também a qualidade do produto adquirido.
E qual é a fonte destes CDs? Aonde é que eles vão buscar a música? A primeira fonte são os
LPs. Os primeiros CDs da Tsunami eram cópias masterizadas de LPs, alguns deles edições oficiais, mas já fora de catálogo, outros já eram originalmente piratas. Estes casos nem sempre são felizes no que respeita ao som.
Nesse aspecto os melhores são aqueles em o pirata teve acesso às fitas da sessão de gravação. Com algum trabalho de estúdio poderá ter uma gravação de qualidade profissional. Se for uma partitura mais antiga haverá algumas deficiências no som, mas o problema é da idade das fitas. Em 1995 a Aldebaram Records editou um
CD triplo com a música de Ben-Hur de Miklos Rózsa. Os autores deste
CD tiveram acesso às fitas originais, daí a qualidade elevada do som, tendo em conta que estas tinham mais de 30 anos. No final, quando posteriormente esta partitura foi editada oficialmente, a qualidade sonora não era muito melhor.
Porém alguns destes criadores de
CDs nem sempre conseguem ter acesso ao melhor material ou cópias das fitas das gravações, e a qualidade desce assustadoramente. Os dois volumes do
Marvellous Film World of Bernard Herrmann, da Tsunami, tem uma qualidade fraca, embora a música tenha sido preparada a partir de cópias das fitas originais.
O caso mais desastroso dá-se nos CDs privados, quando se tenta obter a música a partir de fontes de fraca qualidade, como cassetes de vídeo, ficheiros de som de jogos de computador, etc. Por vezes são disponibilizados na internet ficheiros em que a qualidade também é fraca, mas que acabam por encontrar espaço nalgum
CD não autorizado. Mais recentemente, com as faixas de música isolada nos Laser Discs e DVDs, os piratas encontraram mais uma forma de ter acesso à música. Outra fonte é as edições recentes em VHS, que para quem tem acesso a um sistema de som teatral, pode captar o som que vem dos canais de trás, onde a música normalmente está mais presente, havendo pouca interferência de diálogo e efeitos sonoros (o mesmo acontecendo com o Laser Disc e DVD, quando não tem a música numa faixa
isolada). No final vamos continuando a gastar o nosso dinheiro nestas edições piratas, para termos mais cinco minutos de música do nosso compositor preferido, enquanto alguns vão enchendo o seu mealheiro às custas da nossa devoção. Alguns farão isso para partilhar a música, mas certamente não será sempre esse o caso.
Miguel Andrade
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