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remasterização:
NOVA VIDA PARA VELHOS SONS
Ricardo Augusto de Souza da Silva
Nos últimos anos estão sendo relançados scores com qualidade de áudio
muito superior, mesmo daqueles que já haviam sido lançados em CD. Alguma
vez você já deve ter manifestado, mesmo que com pouco
interesse, a curiosidade por saber como é feita a restauração, para que
se obtenha uma incrível qualidade sonora nos CDs ditos "remasterizados".
Então, você sabe o que realmente
significa Remasterização?
A REMASTERIZAÇÃO
Em seu sentido literal, REMASTERIZAR significa fazer um novo master para
a mídia a ser usada, seja ela CD, SACD, DVD, DVD-Áudio. Suponhamos que se faça
uma cópia de um master antigo com problemas de áudio (ruídos, distorções)
para um master digital com seu áudio inalterado: isto já seria uma
remasterização, mas ficou convencionado que remasterização é a recuperação
de áudio ou vídeo a fim de se obter uma qualidade superior.
OS CAMINHOS DO ÁUDIO A SER RESTAURADO
O master em fita magnética (35mm) ou até mesmo em LPs de 78 RPM (utilizados
quando a master original não mais existe) passa por um filtro (analógico)
que retira somente os chiados mais perceptíveis e equaliza o som, mas em nada
diminui a qualidade do áudio do master. Este processo é essencial pelo
fato de que se o áudio do master for diretamente para o software,
a restauração não terá qualidade, o software terá problemas em
reconhecer tantos problemas ao mesmo tempo e acabará confundindo áudio com
chiado. Os
profissionais que fazem remasterizações consideram o
restauro de gravações de orquestras (seja de score ou
não) mais complexos, pois se trabalha com nuances muito
sutis que se não forem tratadas de forma correta
acabam sendo suprimidas, e a gravação perde a
qualidade sonora originalmente proposta. Um master
em fita magnética tem a vida média de 2 anos, a partir
deste tempo precisa ser restaurado. Depois de remasterizado, o áudio é gravado
em masters digitais, neste processo ocorre como se estivesse se fazendo
uma master de uma gravação digital de hoje. Quando se remasteriza tendo
como fonte as masters em fita magnética, a nova master digital
será do mesmo tipo das usadas nas gravações digitais de hoje; no caso de LPs,
acetatos 78 RPM ou outra fonte que não tenha muita fidelidade, a master
digital será um CD regravável (diferente dos usados comercialmente) de
alta qualidade ou DDP (fita de 8mm que grava em formato digital, serve para
fazer gravações de reserva).
OS SOFTWARES
Existem dois que são os mais usados, o
CEDAR (Computer Enhanced Digital Audio Restoration), indicado para masters com mais problemas (geralmente os mais velhos), e o Sonic Solutions para
masters mais recentes e LP's ou acetatos 78 RPM que sejam usados como
master. O CEDAR reconstrói um trecho danificado porque analisa a parte
anterior e posterior a ele. Por analogia, seria como se você
estivesse cantando uma música que conhece e ela fosse interrompida por 1, 2 ou
3 segundos. Neste caso
você saberia aquela parte que foi interrompida porque
ouviu o antes e o depois daquele trecho. Mas o CEDAR não
consegue restaurar trechos que estejam danificados por
mais de 3 segundos, porque com essa duração ele
perderá os parâmetros estabelecidos pelos 2 segundos anteriores ao trecho
danificado e
conseqüentemente o aúdio terá que ser processado mais
vezes pelo software (normalmente mais 3
processamentos do mesmo trecho danificado). Os
trechos que esse software restaura necessitam de algum
resquício do áudio que anteriormente estava gravado. O Sonic Solutions retira cada
click (aquele estalido ouvido quando a agulha passa em determinado ponto do
disco de vinil, que esteja riscado) em tempo real, ou
seja, ao mesmo tempo da reprodução do áudio do
master (LP, acetato 78 RPM) ele vai retirando esses ruídos. Depois
que o áudio do master passa pelo filtro ele fica armazenado no HD (Hard
Disk, ou disco rígido) do computador, e se necessitam HDs enormes (500 GB) para guardar esse áudio,
já que para não haver perdas não pode
haver de forma nenhuma qualquer tipo de compressão do
áudio. Até 1993 os computadores
desses estúdios tinham velocidade de 1 GHz, a partir de
1993 de 5 GHz, e atualmente possuem 15GHz (1).
A REMASTERIZAÇÃO EM 24-BIT
Começou a ser utilizada
a partir de 1995, desenvolvida pelos estúdios da Sony
Classical, para restaurar freqüências
originalmente perdidas no master, já que com o tempo o sinal
do áudio vai perdendo nuances, e até a equalização se
torna uniforme - ou seja, freqüências agudas não se
distinguem tanto de freqüências médias ou graves (não
que fiquem iguais). Neste processo se trabalha com freqüências muito altas, até
192KHz (os masters não
possuem áudio com essa freqüência). Para se ter uma
idéia de como funciona essa tecnologia, vou fazer uma comparação: suponhamos uma foto
em que você perceba um
pequeno detalhe ao fundo, mas esse objeto não está nítido; se você tem um programa que edita fotos
poderia utilizar o zoom e então este detalhe se
tornaria mais nítido. Processo semelhante acontece com
a remasterização em 24-BIT, os softwares para a
restauração passam a reconhecer freqüências com até
192KHz e com isto é possível manipular o áudio de forma mais meticulosa, pois
freqüências que não estão
muito nítidas são realçadas de tal modo que são reconstruídas da forma que eram ou deveriam
ser originalmente. Mas não se trata de equalização (2), aqui o
software realmente restaura a freqüência quase suprimida. Se ao invés de
restaurar as freqüências em
24-BIT fossem usados recursos da equalização, o
resultado seriam nuances distorcidas, em virtude da amplificação de freqüências
danificadas. Um exemplo de
score que passou por este processo é "Gone With The Wind" (1939),
lançado pela Rhino em 1996/1997. É importante que, antes
do áudio passar para o processo em 24-BIT, ele esteja livre de distorções e ruídos.
O CEDAR e o Sonic Solutions fazem este trabalho enquanto que
em ambiente 24-BIT somente se reconstrói as nuances
perdidas no master original. No caso de "Gone With The Wind"
os
masters já não revelavam a percussão (freqüências
graves) com clareza, e somente com essa tecnologia
foi possível dar uma qualidade sonora ao score que
realmente fosse fiel ao original, com todas as suas
nuances. Foi gasto um ano para a restauração e a
limpeza dos masters. Ao longo da fita magnética, mesmo guardada em
local com temperatura e umidade controladas, existiam vários focos de fungos
(somente a
limpeza durou 3 meses). Os masters estavam com o
sinal de áudio quase desaparecendo e foi necessário, nesse ponto, o
uso em conjunto do CEDAR e Sonic Solutions, para
retirar os ruídos e distorções e reconstruir a maior
parte do áudio. A fase seguinte foi o ambiente 24-BIT, onde o
software reconhece as freqüências "fracas" e coloca à
disposição do engenheiro de som vários níveis de realce (normalmente 80) de determinada
freqüência de
algum instrumento. O software tem a capacidade
de localizar onde estão os instrumentos na gravação (imagem sonora) - ele faz a
localização do
instrumento em relação à distância do microfone, com a possibilidade de erro de 0,50cm a mais ou a
menos,
os isola e os trata de forma independente como se
a gravação fosse somente de um determinado
instrumento. Já que estabelecidos parâmetros para o
software, ele reconstrói nuances antes não perceptíveis
e somente com esta tecnologia foi possível restaurar
de forma fiel o score de "Gone With the Wind" e de
muitos outros que já foram ou serão restaurados. Esse processo é muito mais caro porque se trabalha
num ambiente digital muito mais meticuloso do que os
descritos anteriormente, e conseqüentemente os
beneficiados são os maiores vendedores de discos, como
The Beatles, ABBA e Frank Sinatra (3).
Entre os scores
temos "Jaws 25th Anniversary", "Casablanca" (Rhino), "Gone
With The Wind" (Rhino), "Superman The Movie" (Rhino), "Doctor
Zhivago" (Rhino), "Wizard of Oz" (Rhino), "Close
Encounters of The Third Kind" (1998), "E.T." (1996) e "Star Wars
Episode 1: The
Phantom Menace", que já foi gravado em 24-BIT (4). Nem todos os
scores passam por esse processo, somente os muito danificados A maioria dos scores dos anos 50/60/70/80,
depois de restaurados não necessitam de restauração
de nuances, na maioria das vezes as nuances de freqüências altas ou baixas
não são perceptíveis por
erros na equalização, pois nos scores de há pelo menos uma
década e meia, as gravações não eram tão esmeradas como as de hoje. Existem somente alguns estúdios no
mundo que possuem todas estas tecnologias. São eles
Two Tone (Los Angeles), Sony Classical (Nova York),
Abbey Road (Londres) e Metropolis (Londres). Pelo custo
dessa tecnologia as remasterizações se reduzem, na maior parte das vezes, a títulos de
grandes gravadoras. A Varèse Sarabande, por exemplo,
certamente não se utiliza deste processo (mesmo quando
necessário), pois o retorno financeiro não compensaria o gasto e mesmo em relançamentos com
novas remasterizações, como "The Omen", não
foram utilizados outro processos além do CEDAR.
PORQUE OS CD'S LANÇADOS EM 1989/90 TEM QUALIDADE
SONORA INFERIOR AO MESMO CD LANÇADO ATUALMENTE?
Principalmente nos EUA, nos anos 1989/90, as
gravadoras queriam relançar antigos LPs no então novo formato CD. Na época
houve uma "explosão" de consumo de CD players, e para acompanhar estas vendas
elas estavam dispostas a colocar o maior número de títulos no
mercado. Com isso houve um excesso de trabalho nos
estúdios, que acabavam transferindo os masters, com pouco tratamento, para o formato digital.
Além da
limitação tecnológica da época , o processo mais
sofisticado era um software que não passava de um
filtro digital, que também filtrava muitas freqüências (principalmente as
graves, por
confundi-las com ruídos!). Por isso a predominância de freqüências agudas e a falta de nuances dos
CDs
dessa época. Para masterizar para CD um determinado álbum, o que determinava era a condição do
master, eram escolhidos somente os mais bem conservados para evitar "perda de tempo".
Já percebeu que praticamente nenhum álbum muito antigo foi
lançado em CD nessa época?
UM INVESTIMENTO DUPLAMENTE LUCRATIVO
Com o advento do
DVD as produtoras, para relançar
seus filmes antigos, mesmo que não fosse em uma cópia
restaurada, tiveram (e tem) que remasterizar a trilha
sonora para Dolby Digital de até 5.1 canais. Se você
achava que as grandes gravadoras estavam investindo na recuperação de scores visando somente
vender CDs, por se tratarem de grandes obras da música (como comentou o responsável
pelo marketing dos DVDs da Warner, se referindo ao score de Ben-Hur (Rhino),
etc,etc,etc, pensou errado. Como é necessária a
remasterização para o DVD, então porque não lançá-la em CD? E foi isso que
fizeram, fazem e irão fazer. Com
o DVD as produtoras presenciaram um efeito chamado de
"auto-marketing", as pessoas que compram um
relançamento em DVD escutam o score com uma qualidade
muito superior e então... se interessam em comprar o CD (mesmo pessoas que normalmente não tinham
interesse por scores, isto foi comprovado por pesquisa
nos EUA, no ano de 2000). Este efeito vem
acontecendo com cada vez mais intensidade desde o
lançamento em DVD de Gone With The Wind. A
propósito, a Rhino relançou este score em 1996/1997 porque foi utilizada a mesma remasterização
feita para o DVD. Como a Warner achou que os US$20 mil gastos com
a remasterização do áudio foi excessiva para sua utilização
somente no DVD (já para a recuperação dos negativos, foram gastos US$ 100
mil), providenciaram um CD duplo (1996) e um CD simples (1997) (5).
TODOS OS
SCORES RELANÇADOS A PARTIR DE 1995
PASSARAM
POR TODOS ESSES PROCESSOS?
Não necessariamente. Essas tecnologias são caras, principalmente a de 24-BIT.
Na
remasterização de áudio antigo, atualmente feita por
estúdios não tão bem equipados, são utilizados somente o
CEDAR e o Sonic Solutions, que não são muito caros
porque sua utilização se difundiu rapidamente. Na
realidade as gravadoras não mantém estúdios somente para remasterização, a não ser
as grandes como
Sony e Warner, que necessitam de estúdios para
seus cantores e conseqüentemente remasterizar seu acervo. Por exemplo, no caso de "Gone
With The Wind", na época (1996) a WB não possuía o estúdio para a
remasterização, então alugou os estúdios da Sony
Classical e seus profissionais para fazer este trabalho. A remasterização não depende somente da
tecnologia, é necessário o bom senso, e isso é
possível porque na equipe técnica existe um
engenheiro de som da época da gravação (ou próxima)
para dar informações de como era a orquestração, qual o nível de volume de cada
canal (microfones), etc., a fim de ser ter um resultado o mais próximo
do original. Quando você ouvir um score ou outro
gênero musical que passou por todos esses processos,
pode ter a certeza de que foi remasterizado com a
mesma arte que está presente nos melhores scores e
músicas, e com uma vantagem: a qualidade sonora
digital insuperável.
NOTAS
1 -
As informações sobre os softwares, velocidade dos processadores e capacidade
do HD são de 1998, e os softwares usados estão em
constante aperfeiçoamento. No caso da capacidade do
HD não significa que todo os 500GB sejam usados para
armazenar o áudio, e não que a capacidade fique
limitada a isso. Atualmente esta capacidade deve ser
maior, até porque a remasterização é feita por
etapas, seria mais difícil deixar 1:30hs de áudio
dos masters gravados no HD enquanto se trabalhasse em
outros 0:20min por exemplo - o computador perderia
muita velocidade.
2 -
A equalização é utilizada ANTES de o áudio
seguir para a remasterização. O áudio é novamente ouvido (várias vezes), e
então fazem-se correções de equalização - todas as músicas gravadas nos
anos 40, 50, 60, 70 e algumas vezes 80 apresentam erros de equalização, que
caso não corrigidos deixariam o áudio "sem vida". Obviamente a nova
equalização deve respeitar ao máximo a fidelidade da gravação, caso
contrário o áudio ficaria com aspecto sonoro muito "novo". Seria
como dar ao score de "Gone With The Wind" o mesmo aspecto sonoro de
"Star Wars Episode 1: The Phantom Menace"!
3 - Nem todos os álbuns foram
remasterizados em 24-BIT, geralmente os de maior
vendagem ou importância na carreira do cantor ou banda.
4 - Existem vários scores que passaram pela
remasterização em 24-BIT, os scores citados servem
como alguns exemplos. No caso do
score de "King Kong" (Max Steiner,
Rhino) foram utilizados como masters LPs 78rpm, e como se encontravam com a
qualidade de áudio extremamente deteriorada foi
necessário o uso da tecnologia 24-BIT para garantir a
máxima qualidade sonora. Mas este caso é excepcional pois somente em casos extremos é
utilizada esta tecnologia para tratar áudio que tenha
como fonte LPs ou acetatos 78rpm. A remasterização em 24-BIT é recomendada
para masters em fita magnética, pois se for
usado como master um LP 78rpm, por exemplo, poderá haver uma
significativa perda na qualidade do áudio.
5 - No caso de scores lançados pela RHINO,
temos na capa de trás a seguinte informação:
"Remastered in RHINOPHONIC authentic sound" - o que vale dizer que foi remasterizado em 24-BIT.
As variações de
nomes para designar a
remasterização em 24-BIT variam de acordo com a gravadora para tornar o nome mais
"atraente" do que somente dois números e três letras. Caso semelhante acontece
com o nome dado para o surround virtual nos DVD
players, os nomes variam de acordo com o fabricante mas trata-se do mesmo efeito
sonoro.
FONTES
As informações
aqui apresentadas tem como fonte principal revistas especializadas em equipamentos de áudio e
vídeo. Foram utilizados vários excertos de cada uma delas (5 revistas), e o restante
teve como fonte documentários ou reportagens. No caso do score "Gone With
The Wind" utilizei a maior parte das informações
de revistas que fizeram matérias em 1997 sobre as
tecnologias usadas para a restauração do filme, seu
score e seu conseqüente lançamento em DVD em 1996,
sendo um dos primeiros filmes lançados no formato. Não manifestei qualquer critica
sobre a qualidade do áudio do score., já que não
possuo o CD.
Alguma dúvida ou
esclarecimento adicional? Escreva-me em cddigitalaudio@yahoo.com.br
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