Réquiem para um Sonho (Requiem for a Dream, EUA, 2000)
Gênero: Drama
Duração: 100 min.
Elenco: Ellen Burstyn, Jared Leto, Jennifer Connelly, Marlon Wayans, Christopher McDonald, Louise Lasser, Keith David, Sean Gullette
Compositor: Clint Mansell
Roteirista: Hubert Selby Jr.
Diretor: Darren Aronofsky

Anatomia de um pesadelo 

Darren Aronofsky (PI) faz de seu segundo trabalho um dos filmes mais agressivos e ousados do cinema recente

Primeiro ato

Pessoas comuns de um Brooklin ensolarado, Harry filho de Sara, filho de Seymour. Sara sonha com a vida ilusória da TV, vive a vida real de ilusão, abstrai o vício do filho, menininho, lançando seus pequenos aviões de papel ao ar, cercado pelos brinquedos inanimados de um parque de diversões gigantesco; vendendo o que pode e o que não pode, inclusive a sagrada TV, para sustentar o vício em cocaína. Pobre Sara precisa da TV. Idéia brilhante que surge, vender drogas. Dinheiro. Lucram Harry e Tyrone, o melhor amigo. Tyrone viaja. Tyrone menino, busca a mãe, sonho de menino, sonho materno. Cadê a mãe? Fotos, fotos e mais fotos da felicidade reinante. Harry sente-se culpado, Harry ganha dinheiro, Harry trafica, êxtase, ternura do amor, ternura do amor pacificado pelo pó e pelas cheiradas. O amor de Marion. Harry eu te amo, Marion fala. Marion veste o vestido vermelho no sonho de Harry, Sara veste o vestido vermelho em seu próprio sonho. É selecionada para participar do programa manipulador e deslumbrante pelo qual é fissurada. O vestido ainda não serve, emagrecer, emagrecer, dietas, Sara agora é alguém no lugar onde mora. Toma sol no lugar mais privilegiado entre as vizinhas. Quem aparece na TV é alguém. Doce sonho, grande sonho, fundo verde na casa, vestido vermelho, emagrecer. Cabelo vermelho. Anfetaminas, o azul, o verde, o laranja, o verde, o azul, dois azuis, dois verdes, três azuis, três laranjas. Pílulas. Ranger os dentes. Mais... mais.... mais.... m a i s..... m a i s, de todas as cores. Harry adverte Sara, sem problemas, filho. Me dê um netinho, filho. E Harry dá uma nova TV de presente à mãe. Remorso. E a TV fala. A droga de Harry, de seu amigo Tyrone e de seu amor acaba. O amor prestes a arrefecer. A paz branca do amor acaba. O pó. A salvação. A heroína.
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Este é o primeiro ato do filme de Darren Aronofsky, o verão. O verão simboliza no filme o esplendor daquelas 4 pessoas. É bom lembrar que cada personagem não é mostrado por Aronofsky como um ser puro que, por ocorrência do mau destino, vai se deparar com uma realidade terrível. Não, cada um deles já possui algum desajuste, alguma grande tristeza, algum ponto mal resolvido, algo acidentado em sua vida. E esse esplendor é contraditório; é a flor de cheiro exuberante, de gosto indecifrável, que levará mais tarde (ou brevemente) à ruína. E todos provam da flor. Para Sara, vivendo a solidão dentro do significado mais contundente que essa palavra pode ter, a perspectiva de ser notada e aceita. O sonho reside no simbolismo do vermelho forte, de seu vestido e também de seu cabelo. A presença no show de TV, trajando o vestido. Para Harry e seu parceiro, a fortuna, o êxito na venda de drogas. Marion, no mesmo barco. Menina vinda de uma casa rica e problemática, tem em Harry sua coluna protetora e também as portas para tudo aquilo que deseja fortemente em seu íntimo... uma vida aventureira, uma existência que valha a pena... e, claro, o contato com as drogas. 

Aronofsky faz do ritmo de seu filme uma verdadeira arritmia. Arritmia cinematográfica, com seqüências de planos cortados que traduzem movimentos mecânicos do ser humano e do seu contato com pequenos objetos. Incrível. Além disso, uma doentio jogo de aceleração e desaceleração, a fuga pelas ruas, a simples tarefa doméstica. Dualidade: a "energia", a sede de cada um dos 4 personagens em ultra-velocidade; a dormência, sobretudo a de Sara. Vemos também um articulado jogo de enquadramentos que tornam o cine ora uma experiência orgânica, vivida no sentimento estampado no rosto, ora uma experiência conceitual, com verdadeiras geometrizações e desenhos lógicos de planos, todos, diga-se de passagem, incomuns. As cores formam outro fator preponderante. O contraste recorrente entre filtros azuis, verdes e a presença determinante do vermelho contribuem para o caráter conceitual de cada ambiente e para a plástica da obra. Polifonia de cores. Em alguns momentos, a tela é dobrada, vertical ou horizontalmente. O significado, a perspectiva de dois olhares diferentes para uma única ação, um único acontecimento. A complementaridade entre dois eixos (dois sentidos, dois objetos, um coração e um objeto) em um único acontecimento. Seja a ação separada por uma porta (Sara e Harry), ou não, em um foco exatamente inverso, deitados um do lado do outro, Sara e Harry, gestualizando amor.

Segundo ato

O mundo cai, correria, Harry não sabe o que fazer, Marion não sabe o que fazer, Marion se contorce. Abstinência, dor, picadas, mais picadas, não há mais como viver, sem. Marion, menina, vende a alma, Marion apodrece. O coração apodrece. Harry se droga, o braço, machucado, começa a apodrecer. Seu coração começa a apodrecer. Terrível dor. Sara emagrece, Sara entra no vestido vermelho, Sara dança; quer ir à TV e lá saudar Seymour e Harry. O mundo da TV. Sonha com ele. O formulário já chegou e já voltou, o convite para o programa nem ao menos chegou. Sara dobra a dose, triplica a dose, não come nada e a geladeira passa a ser um monstro. A geladeira ganha vida e atormenta Sara, a TV vive e atormenta Sara. Sara, reunida na mesma sala, de luzes escuras esverdeadas, com seus sonhos e perseguidores. Terrível dor. Os perseguidores de Sara e os sonhos de Sara são a mesma coisa, as mesmas entidades. Sufocar. Mais pílulas. M a i s. Laranja, azul e verde. Harry e seu parceiro, sem terem o que fazer, decidem ir buscar mais drogas. 
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Estamos no outono. O sol já não possui a mesma força. Transição. O princípio e também a concretização do horror real da vida de cada personagem. A filmagem de Darren Aronofsky começa a captar novas nuances. O mecanicismo dos movimentos permanece; o que acontece aqui é uma busca pelos sentimentos mais internos dos personagens. Revelar fotograficamente o que significa a abstinência. O que são os demônios que moram dentro daqueles 4 seres. O diretor passa, em torno de Sara, a esfaquear o singelo significado de sonho. Aqui, em dois momentos especialmente, Sara e Marion andam estranho, como se fossem levadas por rodinhas. Já não são mais si próprias. São um reflexo longínquo do que eram no esplendor do verão; e aqui, vivem na mecânica da busca por aquilo que ao mesmo tempo as entorpece e amortece. Não andam mais, não vivem mais. Rodinhas.

Terceiro ato

Neve. O frio arrebata, o braço e o corpo apodrecem, busca desesperada, drogas para vender, para tomar, rumo ao estado da Flórida. Neve, o frio arrebata. Sara sai, contraste, vermelho - branco - asfalto, vestido - neve - preto. Câmera lenta, loucura em volta. Marion vende-se plena e convictamente, precisa de mais. Dor de Marion, Marion apodrece mais. Dor de Tyrone. E o braço apodrece mais, e o senso racional apodrece. E os dois, Harry e Tyrone, são presos. E Sara vive a loucura, vive a dor, onde estariam as pílulas coloridas? E a carta com o convite definitivo do programa ainda não chegou. Onde estaria? O neto já existe, mas onde ele estaria? Choque, uma solitária lágrima caí, alguma Sara ainda mora naquele corpo, apodrecido. Ritmo atormentado, a máquina vai explodir. Frenesi. E o fim dos 4 é o mesmo, em 4 focos diferentes, um único tipo de tragédia, um único tipo de existência. O nada. A neve. Do sonho ao final dele. A queda no precipício, os aplausos da platéia. O vestido vermelho. O nada.
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E assim, o réquiem é concluído. Réquiém é uma missa solene em homenagem aos mortos. Darren Aronofsky realiza isso em película, utilizando-se, não por coincidência, de uma peça musical que pode ser considerada o cenário sonoro para um requiém moderno. Executada por quarteto de cordas que dilaceram, tenebrosa, solenemente moderna, acompanha cada passo, loucura e plano desesperado. Cadência. O autor da partitura: Clint Mansell. Na fita, o inverno é a consagração do que há de mais podre, estragado e deprimente. É a seqüência que transmite o que de mais profundo o diretor procurava. Nesta última parte, a narrativa é clara e definitivamente dividida. Primeiramente três e, depois, quatro partes, distintas. Quatro caminhos paralelos. Uma divisão narrativa lógica que ao fim revela-se insana, termina em algo que poderíamos chamar perfeitamente de estado caótico; Aronofsky mais uma vez imprime o movimento-máquina à vida humana, temperado pela sonorização, que sobrepõe-se à fotografia de forma calculada. Aqui, percebemos a manipulação de Aranofsky. O inverno, mesmo com suas cenas arrebatadoras, não significaria muito se não tivéssemos passado pelas outras estações. Portanto, é uma trajetória estudada, que nos leva progressivamente, ato por ato, e que culmina com esse espetáculo meio débil, meio divino que é a terceira parte. O queixo cai. O meu, caiu.

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Alguns certamente considerariam o filme de Aronofsky algo de impacto brutal e gratuito. Talvez seja, mas levando-se em conta que o diretor/roteirista desenvolve tal aspecto como premissa conceitual, certamente não pode ser condenado. O conceito de sua obra é o próprio impacto, essencial. E é um impacto da morte. A história dos 20 passos antes da morte e o estudo de cada um deles até a culminância com a própria (ainda que metafórica - será?). 

Darren Aronofsky, dentro do foco-Sara (aliás, figura improvável, uma vez tratando-se de uma senhora; repito, uma senhora, que, ingenuamente, torna-se viciada; choca, de verdade), usa o material mais humano e delicado que pode existir para arrebentar o ser humano e também o que se costuma chamar de sonho. A manipulável personagem, inocente e inofensiva, é o meio encontrado por Darren para fazer a poesia maldita: os sonhos, nem tão grandes - verdadeiramente singelos, do pequeno ser, são cruelmente aniquilados, cruelmente aniquilada também é a própria Sara. Brincadeira nojenta. A cena do metrô vale por todos os outros planos do filme. Aliás, Ellen Burstyn realiza algo muito além do que se vê normalmente, em qualquer filme, feito em qualquer lugar. Sua arte nesse réquiem é preciosa. Vale dizer que o trabalho no tocante à estética soa pretensioso algumas vezes. É possível que, na forma, seja sim eventualmente pretensioso; mas é bem provável também que de fato apenas soe assim, pois essa é a arma geralmente utilizada quando nos deparamos com algo envolvente e que não podemos enquadrar dentro do que chamamos de tradicional. Chamamos de pretensioso. Na realidade, entramos em contato com um senso estético de marca própria e bastante apurado. Além disso, harmoniosamente inserido dentro da criativa questão da narração em três atos.

É desnecessário aferir qualquer julgamento de status para o filme. O que sabemos, e isso é claro, é que o diretor atingiu o que queria, com a exploração cinematográfica e as metáforas corretas (a morte da ternura - a foto do casal apaixonado cujo lado oposto posteriormente serve para ser anotado o número de um homem que comprava sexo), quando iniciou tudo, na filmagem do primeiro plano. E o inverno... bem, o inverno é a própria síntese da obra, fala por si só, soberanamente. 

O realizador é produto genuíno do espaço habitado por sua história. É possível acreditar que Aranofsky tenha, claro, apoiado em sua linguagem particular e rebuscada, apenas transposto para a tela algumas histórias escutadas. Quiçá acontecidas próximas de sua própria vivência durante o rumo de menino comum do Brooklin enfurecido e conturbado. Logo, muito embora as situações e os personagens possam em tese existir em qualquer cidade, em qualquer bairro, podemos parar dizendo que o perturbador retrato aqui filmado é, ao menos, muito legítimo. E, ainda mais quando consideramos a intensidade e a ousadia características da fita, tal fato já representa um grande mérito.

Cotação:
Claudio Szynkier
FILME EM DESTAQUE