|
OS PRIMEIROS LONGAS-METRAGENS
Em 1986 foi publicada a clássica graphic novel “O
Cavaleiro das Trevas”, de Frank Miller, que revolucionou o mundo dos quadrinhos
e tirou o Batman do ostracismo. Devido ao sucesso a Warner decidiu produzir o
longa metragem Batman (1989), e convidou o então quase iniciante Tim
Burton, que realizara o bem sucedido Beetlejuice - Os Fantasmas se Divertem,
para ser o diretor. Michael Keaton, protagonista de Beetlejuice, ficou
com o papel principal de Bruce Wayne/Batman, enquanto o consagradíssimo Jack
Nicholson interpretou o vilão Coringa. A bela ex-modelo Kim Basinger, que à época
já estrelara o grande sucesso 9 1/2 Semanas de Amor, foi o par romântico do morcego, a repórter Vicky Vale.
O veterano Jack Palance (então mais lembrado por
ser o apresentador da série Acredite se Quiser) interpretou um mafioso, e
a modelo Jerry Hall (então esposa do Stone Mick Jagger) faz uma ponta como sua esposa,
que também é amante do futuro Coringa. Na produção houve o claro esforço de
afastar o filme da imagem que muitos tinham da série de TV dos anos 1960,
aproximando-o da fase dark dos quadrinhos. A cidade de Gotham foi
construída para ter uma atmosfera suja e sombria, com um visual futurista/retrô,
parecida com a dos gibis. A trama começa quando Batman já esta agindo em Gotham
City há alguns meses, e a polícia ainda o considera um criminoso. Vicky Vale
chega na cidade para investigar o mistério do Homem Morcego.
O
filme foi um gigantesco sucesso de bilheteria, tendo recebido uma pesada
campanha de marketing. Mas tembém provocou controvérsia entre os
fãs. O Batmóvel, a Bat-Asa e algumas boas seqüências de ação, como a perseguição
na cidade e a destruição da Axis Química, levaram muitos ao delírio. Já outros
não gostaram da trama, que distorceu a origem dos personagens. O Coringa, por
exemplo, foi transformado no assassino dos pais de Bruce Wayne apenas para
justificar uma frase no final do filme. A aventura possui um ritmo lento,
com muita conversa dispensável, e Bruce Wayne e o Coringa ficam boa parte do
filme disputando a repórter, que acaba no final descobrindo o segredo do
Morcego. Keaton, que havia feito carreira em papéis cômicos, foi
criticado por não ter o porte físico adequado para o papel. Bily Dee Williams (o
Lando Calrissian de Star Wars) fez uma ponta como o promotor público Harvey
Dent, que futuramente seria o vilão Duas Caras. Pesando os prós e os contras,
o filme pode ser considerado apenas mediano, tendo como maiores méritos a introdução no
cinema de um Batman mais sério, a gótica trilha sonora orquestral de
Danny Elfman e a interpretação perfeita de Nickolson como o
Coringa, que rouba a cena do herói.
Batman - O Retorno (1992) também foi dirigido por
Tim Burton, e Keaton retornou para vestir o capuz do morcego. Danny de Vito
interpretou o vilão Pingüim, que agora chama-se Oswald Cobblepott, e Michele Pfeiffer fez uma perfeita Mulher
Gato, que foi o novo par romântico do herói. Na trama o Pingüim é o líder de uma
gangue circense que aterroriza a cidade, e se alia com o empresário
corrupto Max Shreck (Christopher Walken) para assumir o controle da cidade.
Selina Kyle (Pfeiffer) é a secretaria de Max que, depois de ser assassinada por
descobrir seus esquemas, ressuscita e torna-se a vilã Mulher Gato, que também não
demora para se aliar ao Pingüim. Este tenta incriminar Batman, e num certo
momento tenta eliminar sua aliada felina. Bruce e Selina se apaixonam e tem
encontros românticos, desconhecendo que são, respectivamente, Batman e Mulher
Gato. O confronto final acontece quando o vilão usa um exército de pingüins
equipados com lança-mísseis para tentar destruir Gotham.
Apesar de não repetir a bilheteria do anterior, o filme
também fez sucesso e igualmente dividiu a opinião dos fãs. O aspecto sombrio da cidade se
manteve e o Batmóvel apareceu pouco, sendo destruído quando a gangue do Pingüim
assumiu seu controle. A Batlancha aparece na seqüência final, nos esgotos de
Gotham. Mais uma vez a origem dos vilões foi deturpada, principalmente a do
Pingüim, que virou o bebê de um casal de milionários que, por não suportar sua
deformidade, abandonou-o em seu berço nos esgotos. O berço acabou chegando no
zoológico, e os pingüins adotaram o bebê, criando-o como um deles (!). Já quanto à
Mulher Gato, a cena onde ela é ressuscitada por um bando de felinos de rua não
oferece maiores explicações ao espectador. Ao final, tivemos outro filme apenas
mediano, cujo maior mérito foi levar ao lançamento, também em 1992, de
Batman:
A Série Animada, que apesar de usar elementos dos filmes de Burton era muito
melhor que eles, e ficou no ar até 1998.
Batman Eternamente (1995) foi dirigido por Joel
Schumacher, que mostrou ser o pior diretor dos filmes do Homem Morcego. Val
Kilmer (revelado em Top Gun) assumiu com vantagens o papel do Batman,
agora tendo como interesse romântico Nicole Kidman como a Dra. Chase Meridian.
A seqüência de abertura é de tirar o fôlego, e nela já vemos Harvey Dent (agora
interpretado por Tommy Lee Jones),
transformado em Duas Caras, com toda a sua
maldade. O parceiro de Batman, Robin (Chris O'Donnel) foi introduzido com a
mesma história dos quadrinhos, assim como Duas Caras. Mas depois surge o Charada (Jim Carrey) com sua origem alterada
- ele passou a ser um ex-empregado das Indústrias
Wayne que cria invenções malucas, como uma caixa de televisão que suga os
pensamentos das pessoas. Sem surpresa, os dois vilões resolvem formar uma aliança contra Batman e Robin.
Bruce
Wayne entra em atrito com Dick Grayson, principalmente por o rapaz querer vingar
os seus pais matando o Duas Caras. O Charada descobre a identidade de Batman, e
ataca a mansão Wayne no momento em que Bruce estava tendo um encontro romântico
como a Dra. Chase. Na seqüência final, Batman e Robin vão até a fortaleza dos
vilões, que fica numa ilha artificial. Batmóvel, Bat-Asa e Batlancha surgem em
novas versões. Apesar de não chegar a ser ruim, o filme tem uma trama fraca e é
inferior aos de Burton. Nenhum dos vilões foram interpretados de forma
convincente, em contraste com a boa e deslumbrante atuação de Nicole Kidman.
Kilmer e O'Donnel se saíram bem como a Dupla Dinâmica, apesar dos fãs não terem
gostado muito dos seus novos uniformes (mamilos!). Mas o pior ainda estava por vir...
Batman e Robin (1997) também foi dirigido por Joel
Schumacher, e de longe é o pior filme do Morcego. Curiosamente teve uma boa
bilheteria, mas foi massacrado pelos críticos e fãs, e com toda razão. George
Clooney, revelado na série de TV Plantão Médico e em seu segundo papel no
cinema, assumiu o papel de Batman. A Batgirl (Alicia Silverstone) é introduzida
com sua origem muito alterada, pois a tornaram sobrinha do mordomo Alfred
(interpretado por Michael Cough nos quatro filmes) - quando qualquer leitor dos
gibis sabe que ela é sobrinha do Comissário Gordon! Os vilões são Sr. Frio
(Arnold Schwarzenegger) e Hera Venenosa (Uma Thurman, em péssima e caricata
atuação). Enquanto a origem do primeiro foi respeitada, não se pode dizer o
mesmo da segunda. Também temos o vilão Bane (saga "A Queda do Morcego", de 1992 a
1994), mas foi mal adaptado, com sua origem distorcida e transformado num mero e
descerebrado lacaio da Hera. O Sr. Frio e Hera Venenosa formam uma
aliança mas cada um com seus interesses, pois Frio pretendia salvar sua esposa, enquanto Hera apenas queria bancar a eco-terrorista maluca.
Em todo o filme nota-se a intenção de Joel Schumacher em
homenagear a série dos anos 1960, ou seja, adotando o caminho inverso do longa
metragem de 1989. E isso só contribuiu mesmo para detonar a
produção. Gotham City está ainda mais colorida, e os uniformes do trio de
heróis, com detalhes prateados (e ainda com mamilos!), são tão espalhafatosos que parecem fantasias de
carnaval. Até os veículos dos heróis parecem carros alegóricos, cheios de luzes
de néon. Temos como sempre boas cenas de ação, mas o que deveria ser um filme de
aventuras parece uma mistura mal feita de ação com comédia. Numa cena ridícula,
digna dos tempos de Adam West, Clooney apresenta um "Batcartão de Crédito". Para
piorar, o público considerou que Alicia estava muito gorda para o papel, e ela
acabou sendo apelidada pelos fãs e pela mídia em geral de “Fatgirl”. O filme
teve uma boa bilheteria, mas enterrou os filmes sobre o morcego por um bom
tempo. Após este até a carreira do elenco desandou, recuperando-se apenas
as de Clooney e Thurman. Antes que a situação melhorasse a franquia do Morcego
sofreu outro baque, com o filme Mulher Gato (2004) estrelado por Halle
Berry que, para dizer o mínimo, foi terrível. Menos mal que a aparição do
Morcego retirada do roteiro.
O
Renascer do Morcego
Depois de muito tempo e destes vexames, a Warner acordou e
passou o manto do Morcego para um diretor competente, Christopher Nolan (dos
filmes Amnésia, Insônia e O Grande Truque), que
realizou o ótimo Batman Begins em 2005. O roteiro sério de Nolan e David
S. Goyer, centrado no uso do medo tanto para explorar a fraqueza dos inimigos
como para reunir forças para sobre eles triunfar, é um prato cheio para o
talento do diretor. Aguardem para breve uma Sci Files dedicada apenas a
Batman Begins.
Guilherme da Costa Radin e Jorge Saldanha
|