|
A primeira revista periódica de quadrinhos a trazer
histórias inéditas, num único gênero, foi a “Detective Comics”, que
surgiu em março de 1937 contendo histórias policiais de "Speed" Cyril Saunders,
Cosmo, Slam Bradley, Captain Burke e Taro, entre outros. Para explorar o sucesso
excepcional do Superman Whitney Ellsworth, supervisor das publicações da DC,
recorreu a Bob Kane e lhe pediu que criasse um novo personagem.
Kane foi pedir ajuda ao seu amigo Bill Finger, um autor de talento com quem ele
já criara Rusty e Clip Carson,
para a revista "Adventure Comics".
A idéia basica de Kane era muito vaga: um herói vestido de vermelho, com duas
abas rígidas nas costas e um pequeno capuz como mascara. Da idéia inicial,
Finger manteve apenas o nome Batman, inspirado no filme The Bat, de 1926.
Finger decidiu transformar Batman num justiceiro impiedoso, parecido com um
vampiro. Com sua determinação e aparência aterrorizante, ele inspiraria medo nos
criminosos.
Na revista "Detective Comics" número 27 ocorreu a estréia do Homem-Morcego,
sendo que no número 33 é retratada sua origem. Com dez anos de idade, Bruce
Wayne vê seus pais sendo brutalmente assassinados. Anos mais tarde ele decide
combater o crime, e um morcego que aparece na mansão Wayne lhe dá a idéia de
como inspirar terror no coração dos criminosos. Iria defender Gotham City (nítidamente
inspirada em Nova York) e o mundo dos criminosos. Nas primeiras histórias Batman
utiliza até uma pistola, mas como as tramas lembravam mais um filme de horror,
Finger decidiu humanizá-lo criando o cinturão com dispositivos, as luvas aladas
e a capacidade de escapar de qualquer armadilha, como o mágico Houdini.
Depois do número 35, outro autor de nome Gardner Fox é designado para as
histórias do morcego. Ele basicamente fez o personagem enfrentar vampiros,
lobisomens e outras assombrações pelos EUA e Europa. Isso dura pouco tempo.
Jerry Robinson, assistente de Kane, decide que Batman devia ter um parceiro, daí
Kane e Finger criam Robin, que surge em 1940. Dick Graison seria o assistente de
Bruce Wayne/Batman, que salvaria o herói de armadilhas, mas que seria salvo
também. Batman não utilizaria mais uma pistola, e se tornaria um excelente
detetive como Sherlock Holmes. Também foi criada uma galeria de vilões com algum
grau de loucura: Coringa, Duas Caras, Pingüim, Charada, Espantalho, O Cara de
Barro, Camaleão, Mosqueteiro, Mulher Gato (que se apaixona pelo Batman ) e uma
centena de outros. Também é nessa época que surge o Batmóvel, que se
transformaria num ícone do universo do morcego.
Do cinema foi aproveitado o artifício da dupla identidade e o traje negro com
capa, claramente inspirados no filme A Marca do Zorro, de 1920. O bat
–sinal veio do filme The Bat, onde o vilão, com um sinal, mostrava onde
seria seu próximo roubo. Dos programas de rádio, como The Shadow
(1930-1954) e The Green Hornet (1936- 1952), veio o ambiente sombrio.
Também vemos semelhanças com O Fantasma de Lee Falk: a morte do pai, o juramento
de vingança, a máscara e uma caverna como esconderijo. O sucesso de Batman foi
tanto que em 1940 ele já tinha uma revista própria, uma tira em jornais, e a
partir de 1943 surgiram os produtos para o público. Em 1943 Batman também chegou
ao cinema através do seriado The Batman, além de ter aparições ainda na "Detective
Comics" e na Sociedade da Justiça da América (a sociedade aparece nos quadrinhos
"All Star").
Robinson e Finger foram os responsáveis pela criação do maior inimigo do
morcego, o Coringa. Nos anos 1950, as histórias foram relativamente fracas e
esquecíveis. Em 1941 o desenhista Dick Sprang juntou-se à equipe de criadores,
onde ficou até 1963. No ano de 1955 Sprang assumiu a revista “Worlds Finest”,
onde Batman e Superman formavam uma dupla no combate ao crime. Gardner Fox, que
fazia parte da equipe desde 1939, criou o Doutor Morte, o Batplano e o
Batarangue. Ele se afastou da equipe pouco depois, só retornando em 1964 a
pedido de Julius Schwarts, para revitalizar personagens como Charada e
Espantalho (por causa da série de TV que seria produzida). Carmine infantino
assumiu os desenhos do Batman em 1964, devido a solicitação de Julius. Carmine
modificou o uniforme do morcego: aumentou as orelhas e a capa, colocou um nariz
na mascara e incluiu um circulo amarelo no peito do morcego. As modificações
agradaram o publico,causando o aumento das vendas.
Julius teve a péssima idéia de matar Alfred, isto gerou a criação da Tia Harriet,
e ambos acabaram parando na televisão. A popular série de TV, de 1966, também
revitalizou o herói, recuperando-o de seu fraco desempenho na década anterior.
Alfred depois é ressuscitado nos quadrinhos, devido ao sucesso da série. Carmine
também assumiu a tira de jornal do herói, mas por não dar conta de ambos,
abandonou-a depois, ficando apenas com a revista. Em 1967 ele introduziu num
roteiro de Gardner Fox,a Batgirl, que agradou os produtores da série e também
foi parar na TV. Na série, como em sua introdução na "Detective Comics" 359, ela
era Barbara Gordon, filha do Comissário Gordon. A Batgirl chegou a substituir o
Batman na Liga da Justiça algumas vezes, além de ter tido inúmeros encontros com
a Super-Moça. Mas antes da Batgirl existiu a Mulher-Morcego (Kathy Kane), e a
sobrinha de Kathy era a Menina-Morcego. Isso fora criado no período de Schiff, e
ignorado pelos que vieram depois dele.
A partir de 1966, com o sucesso da série de TV também passaram a ser publicados
os livros de bolso com histórias do Vigilante Mascarado. Nos anos 1970, os
roteiros de Dennis O'Neil receberam os desenhos de Neal Adams. Foram eles que
criaram o mortal Ra's Al Ghul, e resgataram o aspecto assustador do Coringa.
Neal tem um estilo naturalista na sua ilustração, que funcionou muito bem com os
roteiros sombrios de Dennis. O trabalho deles praticamente estabeleceu a
personalidade definitiva do morcego, que na década posterior é aprofundada por
Frank Miller. Eles são considerados por muitos como a melhor dupla de criadores
do Batman. Em 1986 Dennis se tornou o supervisor responsável pelo universo e
continuidade nas historias do morcego. Ele criou a "Bat-Bible" (Bat-Bíblia), com
as diretrizes sobre o morcego que deveriam ser utilizadas nas diversas mídias.
Ele aposentou-se dessa função somente em 2001, mas continua como consultor
editorial da DC Comics, e escreve historias para outros personagens.
Também existe a fase "antes e depois de Frank Miller". Existem certas regras
sobre o Batman que não podem ser quebradas, mas em 1985 Miller encontrou uma
forma de burlá-las. Miller tinha feito sucesso nos quadrinhos do Demolidor, da
Marvel, e a DC Comics decidiu contratá-lo e investir pesado nas idéias dele.
Miller criou a mini-série essencial Batman: O Cavaleiro das
Trevas. Nessa história vemos um Bruce Wayne aposentado vinte anos no futuro, com
Gotham City tomada pela criminalidade e violência, e o mundo mergulhado numa crise
bélica (uma clara crítica à Guerra Fria e ao governo Ronald Reagan). Em meio ao caos,
Batman sai da aposentadoria para combater
novamente o crime. A mini-série tornou-se um best seller e atraiu a
atenção do público, que passou a não enxergar mais os quadrinhos como “histórias bobas para
crianças”. Miller criou ótimas imagens de ação, e se inspirou em Bernie Krigstein,
Will Eisner e mangás japoneses. Vimos um novo Robin (uma garota), um Batmovél que parece mais um tanque
de guerra, e também tivemos fortemente a introdução da mídia nas
histórias, algo que foi copiado depois em Spawn (a televisão massificada como espelho da opinião pública).
Jim Lee (foi o marco nas histórias do Morcego no início do século 21) ficou fascinado com esses quadrinhos, e decidiu que essa seria sua
profissão também. Em 2001 Miller lançou Batman: O Cavaleiro das Trevas 2, mas
agora com inspiração na era de prata da DC (anos 50 e 60). Metade dos fãs não entendeu essa mudança, e a outra metade
não gostou delas. Porém, mesmo não sendo melhor que a original, ainda é uma
obra-prima. Em 2005, Miller e Lee criaram a graphic novel All-Star Batman e
Robin, que é focada em Robin, e segue o patriotismo pós- 11 de setembro
de 2001.
Nos anos 80, a DC criara a mini-série Crise nas Infinitas
Terras, para arrumar a bagunça cronológica e reapresentar seus heróis, com
modificações. Ícones dos quadrinhos foram selecionados para essas
reformulações: John Byrne (Superman), George Perez (Mulher Maravilha) e Miller (Batman).
Ele criou a mini-série Batman: Ano Um, que retrata o primeiro ano
de Batman combatendo o crime em Gothan City. Começa com Wayne retornando de suas viagens pela Europa e
Ásia, onde adquiriu suas habilidades, e no mesmo dia o tenente James Gordon chega
de Chicago, para assumir um posto na policia de Gotham. Vemos Gordon combatendo os policiais corruptos, o que lhe
causa problemas até na vida pessoal, e sua aliança com Batman é forjada. O fato de existir uma polícia corrupta insere um motivo
real para o Batman existir. Miller foi o primeiro a mostrar uma policia corrupta
na cidade do morcego, e esta sua obra foi uma inspiração direta para o filme
Batman Begins (2005). Gordon vai aos poucos conseguindo o apoio da imprensa e
da opinião publica, para enfrentar a corrupção. No inicio ele era antagonista do morcego, mas vai se
tornando seu aliado, além de nutrir a desconfiança que Wayne e Batman sejam a
mesma pessoa. Mais do que aliados, eles vão se tornando amigos também. Em outro foco, vemos a primeira tentativa frustrada de
Bruce em combater o crime, a percepção de que deve aterrorizar os criminosos levando-os ao
medo, a criação do traje, os primeiros confrontos com a polícia e a relação de
amizade com Harvey Dent. Perto do final da história, a policia da cidade já vê
Batman como
um forte aliado, e rapidamente vemos a origem da Mulher-Gato. Ela é uma prostituta que, inspirada no morcego, cria sua
fantasia para cometer roubos. Temos ainda a apresentação do criminoso Carmine
Romano, que reaparece na mini-série O Longo Dia das Bruxas, nos anos 90. A arte de
Ano Um ficou a cargo de David Mazzucchelli, e
as cores de Richmond Lewis dão um clima noir à historia. Foi o sucesso da obra de Miller para o morcego que levou ao
surgimento do filme Batman (1989).
Nos anos 80, Robin torna-se Asa Noturna, o líder dos Novos
Titãs (um grupo de jovens heróis da DC), e o Robin Jason Todd é recrutado. Jason era um ladrão de rua,
enquanto Dick viera de uma
família circense. Como esse novo Robin não agradou, foi produzida uma trama onde
o Coringa mata o rapaz no Oriente Médio, onde havia se aliado ao aiatolá Khomeini. O terceiro
Robin, Tim Drake, vem de uma família rica e é
vizinho de Wayne. Entre 1992 e 1994, foi produzida a saga A Queda do
Morcego, para aumentar as vendas que andavambaixas. Durante a primeira fase, Batman trabalha de forma
obsessiva e
sem descansar, o que vai deixando-o exausto. Foi criado o vilão Bane, natural da ilha de
Santa Prisca, para
derrotar o morcego. De forma astuta e inteligente, ele descobre a identidade de
Batman, percebe a sua exaustão e liberta todos os prisioneiros do Asilo Arkham. Após recapturar quase todos os criminosos do asilo,
Batman
enfrenta Bane, mas devido ao seu estado é derrotado, e tem sua espinha quebrada,
ficando paralítico. Um pouco antes Batman e Robin já estavam treinando Azrael (um
personagem criado na mini-série Azrael para ser o novo Batman), que com a
tragédia teve que assumir o manto do morcego. Devido a uma programação mental, criada por uma seita
religiosa radical à qual ele fazia parte, Azrael se descontrola, tomando ações
muito agressivas, assustando até o Robin. Ele cria uma nova armadura, e ao confrontar
Bane, consegue derrotá-lo. Na segunda fase o novo Batman expulsa Robin da Batcaverna, e
ao mesmo tempo Wayne tentava se recuperar fisicamente na Europa. Durante o resgate da doutora
Shondra, ele se recupera
fisicamente devido aos poderes ocultos dela, e o novo Batman comete um
assassinato. Na terceira fase Wayne retorna para Gotham, e descobre o
ocorrido. Ele treina para fortalecer novamente seu corpo. Numa batalha épica de
Batman x novo Batman, que atravessa
toda a cidade e termina na Batcaverna, ele retoma o manto do Morcego. Mas sua amizade com
Gordon fica abalada, já que ele percebeu
a troca e viu os resultados trágicos.
Durante os anos 90 foram produzidas outras sagas
interessantes, como Contágio (um vírus mortal espalha-se pela cidade) e
Terremoto (um terremoto devasta Gotham), entre outras. Mas nenhuma delas chegou
aos pés do trabalho de Miller, que mesmo 21 anos depois, ainda é a sombra sob a qual todo
Bat-criador vive.
Guilherme da Costa Radin
|