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Tom Baker, um dos
Doutores mais lembrados |
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Billie Piper (Rose) e Christopher Eccleston (o Doutor) na 1ª temporada
da nova versão |
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William Hartnell, o primeiro Doutor, encontra seus maiores inimigos - os
Daleks |
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David Tennant
(o Doutor) e Billie Piper (Rose) na 2ª temporada da nova versão |
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Robocop? Não,
um Cyberman em
versão 2006 |
Se a Inglaterra do início dos anos 60 não tivesse sido
tomada pela beatlemania, é muito provável que hoje estivéssemos discutindo sobre
a “whomania”. E, não, não me refiro ao grupo de rock inglês The Who,
contemporâneo dos Beatles, mas sim, à série de TV de ficção científica
Doctor Who, nascida praticamente no momento em que os “Fab Four” de
Liverpool iniciavam sua revolução armada de guitarras que, na verdade, foi a
única revolução daqueles conturbados anos 60 que realmente deu certo.
Isso tudo dito acima pode até soar como um disparate, mas Doctor Who
havia conseguido um fato inédito até então. Foi certamente a primeira série
sci fi inglesa a cair no gosto do público, mesmo se levarmos em conta que a
FC televisiva daquele tempo ainda engatinhava e, portanto, a concorrência ainda
era quase nula com as séries sci fi americanas.
Doctor Who nasceu de uma “brainstorm” promovida pela divisão de arte
dramática da BBC TV, na época comandada por Sydney Newman que, ao lado do chefe
do departamento de roteiros, Donald Wilson, junto com mais dois escritores, C.E.
“Bunny” Weber e David Whitaker, criaram a série. A idéia de que a série tratasse
de viagens temporais partiu de Alice Frick, também do Departamento de Roteiros,
sendo que Newman batizou a série com o nome “Doctor Who” que, pelo menos até
onde esse escriba sabe, nunca provocou nenhuma briga entre a BBC e o The Who.
Originalmente, a BBC queria fazer de Doctor Who um programa de conteúdo
meramente educativo com algumas pitadas de ficção científica. A emissora queria
um programa “família” para a sua programação vespertina aos sábados, para
capturar justamente a audiência juvenil. A idéia era passar noções de História
para a molecada e, ao mesmo tempo, fazer um programa que fosse atraente para o
restante do público. Por essa razão as primeiras aventuras do Doutor Who giravam
em torno de episódios verídicos da História, como o Império Romano ou a
Revolução Francesa.
No dia 23 de novembro de 1963 Doctor Who fazia sua estréia na TV inglesa.
Foi provavelmente a série de FC mais longa já feita, pois foi produzida sem
interrupções até 6 de Dezembro de 1989, quando foi ao ar pela última vez.
Durante esse longo período de 26 anos, Doctor Who se tornou extremamente
popular no Reino Unido, mas seu desempenho mundo afora foi um tanto irregular,
tendo feito sucesso no Japão, onde é exibido até hoje, ou nunca tendo ido ao ar
em outros lugares, como o Brasil, por exemplo.
Essa trajetória um tanto errática da série fora da Inglaterra tem, é claro, algo
a ver com a hegemonia da FC televisiva americana. Mas Doctor Who tinha
algumas características que a tornavam diferente mesmo de outras produções
inglesas, como Espaço 1999 ou UFO, ambas séries criadas por Gerry
Anderson, que fizeram muito sucesso fora da Inglaterra. Doctor Who também
não era exatamente uma série que poderíamos chamar de “underground” ou “cabeça”
, como Blake 7 ou O Prisioneiro, por exemplo. O que tornou
Doctor Who singular foi seu senso de humor. Um senso de humor bastante
inglês, diga-se, que tornou a série um bom exemplo de FC humorística, o que não
é uma coisa exatamente fácil de fazer em um gênero como a ficção científica, que
costuma “idealizar” os temas que trata, muitas vezes fazendo-os soar como
“máximas” sobre o destino da humanidade.
Logicamente, para uma série que durou tanto tempo no ar em sua primeira versão,
era preciso criar um artifício para o rejuvenescimento do Doutor. A equipe de
roteiristas da série, ao invés de complicar, apenas optou por dar ao doutor a
capacidade de se regenerar, o que, claro, tornou mais fácil o personagem ser
vivido por diferentes atores ao longo desses quarenta e poucos anos. Curioso é
que, na primeira temporada, o Doutor Who, então interpretado por William
Hartnell, tinha uma cara de “professor Ludovico em forma de gente”, um
estereótipo do cientista que costumamos ver em filmes B, já idoso e com aquele
ar “acadêmico” típico em filmes assim.
Com o sucesso da série, foram feitos dois filmes longas metragens com o Doutor:
Doctor Who e os Daleks (1965) e Daleks – Invasão da Terra 2150 AD
(1966). Nos dois filmes, porém, o papel de Doutor Who ficou a cargo de Peter
Cushing. Apesar de ambos contarem com um orçamento um pouco maior que o da
série, não chegaram a ser um trampolim para o cinema, sendo exibidos
exclusivamente na TV, como “episódios especiais” da série. Outra diferença é
que, nos filmes, o doutor era acompanhado por duas netas em suas viagens pelo
tempo. Esses dois filmes são raros hoje em dia mas, ao contrário da série,
chegaram a ser exibidos na TV brasileira, em algum ponto obscuro entre os anos
1960 e a primeira metade dos anos 1970.
Com o passar dos anos, a série foi ganhando novos contornos e, aos poucos,
perdeu seu caráter exclusivamente educacional para se tornar uma série de FC com
sua própria mitologia, mas sempre mantendo o humor em seus roteiros e também a
idéia de o Doutor sempre estar acompanhado por parceiros em suas viagens
temporais, geralmente uma assistente. O próprio Doutor foi mudando em
conseqüência da troca de atores que o personagem sofreu. Sua idade foi variando
ao longo da série mas “estacionou” em torno dos 40 e 45 anos. Estranho que o
fato de o Doutor Who ter sido interpretado exatamente por dez atores diferentes,
desde o surgimento do personagem, não tenha prejudicado a popularidade da série.
Talvez isso seja explicado pela capacidade da série se sustentar basicamente na
qualidade de seus roteiros e não ficar tão dependente de seu personagem central.
Dois anos depois de estrear na TV inglesa, Doctor Who chega ao continente
americano primeiramente no Canadá, pela CBC (Canadian Boradcasting Corporation),
que exibiu a primeira temporada da série estrelada por William Hartnell. Mas a
CBC não se interessou em adquirir as temporadas seguintes da série. Talvez por
causa dessa má experiência canadense, a BBC decidiu vender a série nos EUA a
partir de sua terceira temporada, quando o doutor era vivido por John Pertwee,
entre 1970-74.
Doctor Who estreou nos EUA em 1972, mas sem obter grande desempenho. As
razões da pouca audiência eram as constantes mudanças de horário e também o
hábito das emissoras comerciais exibirem a série sem respeitar a ordem dos
episódios, fazendo com que o público não se interessasse pela série. Em 1978,
porém, a PBS (uma espécie de TV Cultura americana) decidiu incluir Doctor Who
em sua programação, com relativo êxito. A série, porém, nunca foi um grande
sucesso nos EUA. Em parte porque o público americano já estava mais habituado
com as produções de Gerry Anderson, que foi o produtor inglês de FC para a TV
mais bem sucedido fora de seu país. Além dissoDoctor Who provavelmente
era “inglês demais” para fazer sucesso fora da Inglaterra, embora tenha tido
êxito em alguns países como o Japão, por exemplo.
Mas essa trajetória um tanto confusa de Doctor Who na telinha americana
ainda conheceria outros lances. Em 1996, praticamente 7 anos depois da BBC
cancelar a série, a Universal Pctures, em parceira com a própria BBC, resolveu
produzir um novo filme de Doctor Who, que foi exibido pela Fox ainda
naquele ano. O filme seria um piloto para uma nova série. Mas o filme não deu
certo por várias razões, sendo a principal o fato da Universal, na época, também
produzir a série Sliders. A Universal não quis arriscar apostar suas
fichas numa nova produção sendo que Sliders, então, andava tendo bons
resultados. Mesmo assim o estúdio tentou emplacar o projeto da nova série de
Doctor Who em outra rede de TV a cabo, mas seu contrato com a BBC havia
expirado em dezembro de 1997.
Em 2005, porém, depois de anos desaparecida, a série Doctor Who retorna
com uma roupagem mais moderna mas sem perder suas características mais básicas:
o humor e o bom nível das histórias. Essa nova versão vem sendo planejada, na
verdade, desde o ano 2000. A nova série é uma das atrações bem sucedidas do SCI FI Channel, com uma boa produção e efeitos visuais atraentes que ajudam a
realçar a imaginação dos roteiristas da série, “viajandões” o suficiente para
colocarem o Doutor (Christopher Eccleston na primeira temporada e David Tennant
nas seguintes) e suas parceiras Rose Tyler (Billie Piper), Martha Jones (Freema
Agyeman) e Donna Noble (Catherine Tate) nas situações
mais estapafúrdias, sempre com ótimas tramas de FC.
É justamente essa nova versão de Doctor Who que está sendo atualmente
exibida no Brasil. Porém o grande problema é que a série está passando por aqui
em horário ruim e num canal
pago de pouca visibilidade como o People + Arts, que não tem tradição de exibir
séries de TV e cuja programação habitual está tomada por programas de gosto
duvidoso como O Aprendiz, e outras coisas do gênero. Minha torcida é para que o People
+ Arts (que exibe a spin off Torchwood em horário nobre) faça de
Doctor Who uma atração importante em sua grade de programação,
recolocando-a no horário noturno. Se assim não for seria então melhor que a
série fosse para um canal mais habituado a exibir séries. Mas, mesmo que a série
tenha bons resultados por aqui, acho difícil que sua versão mais antiga seja
exibida no Brasil. Se considerarmos como é complicado para as séries inglesas terem espaço neste
país mesmo nos canais pagos, talvez Doctor Who tenha mais sorte. Bom mesmo seria
termos Espaço 1999 e UFO, ou raridades como Blake 7 e O Prisioneiro
sendo reprisadas, pois aí teríamos a chance de ver as várias facetas que a FC
inglesa para a TV foi adotando.
Uma coisa que venho notando, desde a estréia de Doctor Who por aqui, é a
insistência com que alguns fãs de FC brasileiros fazem comparações entre a série
inglesa e Jornada nas Estrelas. Afinal, Doctor Who é para a FC televisiva inglesa
o que Jornada é para a americana. Considero essa comparação perfeitamente justa
e cabível, principalmente pelo que as duas séries acabaram fazendo pela FC de
modo geral. Mas acho que, antes mesmo de Jornada, talvez o elo que eu considero
mais pertinente é com Além da Imaginação, série criada por Rod Serling, ainda
nos anos 1950. Sei que muitos ao lerem isso vão fazer cara de incrédulos. Mas o
elo de ligação de Além da Imaginação e Doctor Who é justamente o fato de serem
duas séries de FC que surgiram no período mais quente da Guerra Fria... e
abordaram esse momento histórico de maneiras completamente diferentes. Enquanto
Além da Imaginação explorava o lado paranóico daquele tempo, com histórias
bizarras que nos deixavam muitas vezes em um estado de perplexidade, Doctor Who
partia para o humor, usando certos elementos “escapistas” para fazer uma FC que
muitas vezes beira a histrionice. Uma histrionice bem inglesa, é verdade.
Espero que o novo Doctor Who tenha vida longa e consiga gerar uma nova
legião de fãs mundo afora. A série tem charme suficiente para isso, mas hoje a
concorrência é bem mais dura que no passado. Se antes a constante troca de
atores não prejudicava a série, talvez agora isso seja fatal, pois o público
parece ter ficado bem menos tolerante com trocas de atores em séries de TV. Isso
até seria uma ironia cruel com um personagem que fez sucesso sem sequer ter
nome. Mas, para este colunista, a importância de Doctor Who para a FC da telinha
já está mais que explicada, além de provar que uma simples cabine telefônica
pode ser bem mais útil do que simplesmente ser usada como vestiário para super-heróis apressados.
Alfonso Moscato
(artigo
publicado originalmente no
site
Trek Brasilis)
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