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ENTERPRISE: UMA BOA IDÉIA MAL UTILIZADA?

Em 2001 estreou nos Estados Unidos, na rede de TV UPN, a série Star Trek: Enterprise, criada por Rick Berman e Brannon Braga e baseada em Jornada nas Estrelas, de Gene Roddenberry. A expectativa era de que mais esta série derivada da Série Original repetisse os êxitos (maiores ou menores) de suas antecessoras, as spin-offs A Nova Geração, Deep Space Nine e Voyager, cada uma com sete temporadas produzidas.

O detalhe é que Enterprise nasceu em pleno desgaste da franquia, que estava ininterruptamente na TV desde 1987, e nos cinemas com longas metragens lançados a partir de 1979. Além disso, os produtores e a UPN tentaram passar a idéia de que na série, ambientada no século anterior à da Série Original, seria mostrado o surgimento da Federação dos Planetas Unidos. Porém, o piloto foi todo focado em uma tal “Guerra Fria Temporal”, uma trama considerada pelos fãs mais radicais fraca e insustentável, e que acabou afastando boa parte de seu público potencial.

Enterprise começa no ano terrestre de 2151 (a época de Kirk como capitão da Enterprise NCC-1701 inicia em 2264), com o lançamento da Enterprise NX-01, sob protestos dos Vulcanos, que consideravam os humanos despreparados para missões de longo alcance no espaço. Tivemos diversas inovações, a principal o fato da série situar-se no século 22, num período pré-Federação. A nave, comandada pelo Capitão Jonathan Archer (Scott Bakula) só chegava à dobra 5, a tecnologia do teletransporte era recente, e usada apenas para transportar carga. Só em momentos extremos os tripulantes eram teletransportados. A nave não possuía raio trator, e pelo menos na primeira temporada, nem tampouco canhões phasers ou torpedos fotônicos. Também merece ser destacado o fato de que foi a primeira série de Jornada nas Estrelas a ser exibida no formato widescreen (foi inclusive dispensado o uso de filme, já que foram utilizadas câmeras de vídeo de alta definição).

O maior acerto da série, no entanto, foi a abordagem dos Andorianos, uma espécie alienígena da versão original que ficou esquecida por muitos anos, sem ser utilizada nos demais spin- offs. Os Andorianos, com pele azul  e um um par de antenas na cabeça, foram mostrados como inimigos dos Vulcanos, mas Archer adquire a simpatia de Shran (Jeffrey Combs), um importante líder andoriano, e assim vai se forjando a aliança entre esses três povos. O episódio “Cessar Fogo”, da segunda temporada, é um dos que melhor trabalha a relação entre Humanos, Andorianos e Vulcanos.

A Federação, anos depois, é formada justamente por Terra, Vulcano, Andor, Tellar e Alpha Centauri. Especula-se que essa aliança inicialmente surgiu para enfrentar a ameaça do Império Romulano, que lutou contra a Terra na guerra Terra/Romulus (2160). De qualquer maneira, os fãs de Jornada nas Estrelas encontrarão em Enterprise erros graves de continuidade:

1-  No filme Jornada nas Estrelas VI: A Terra Desconhecida (2293), Spock (Leonard Nimoy) comenta que a guerra entre a Federação e os Klingons já dura 70 anos, e no episódio “Primeiro Contato” (quarto ano da Nova Geração), o Capitão Picard (Patrick Stewart) comenta que um primeiro contato desastroso entre uma nave federada e uma klingon levou ao inicio da guerra entre eles, e a criação da Primeira Diretriz. Somadas as duas informações, descobrimos que esse encontro ocorreu em 2223, e deu inicio à guerra Federação/Império Klingon. Como se pode ver, os Klingons não poderiam aparecer no século 22, mas acabam sendo uma das espécies que mais aparecem na série;

2-  No ano de 2264 a Enterprise de Kirk foi a primeira a registrar uma viagem no tempo, e portanto colocar a trama da Guerra Fria Temporal, no século 22, desrespeita essa referência;

3-  Os Ferenguis só foram encontrados pela Federação no século 24, assim como os Borgs. Colocá-los no século 22 destoa de tudo que foi mostrado sobre eles anteriormente. O doutor Phlox (John Billingsley) consegue neutralizar as nanossondas Borgs, algo que nem no século 24 era possível; 

4-  Em Jornada nas Estrelas V: A Última Fronteira, a Federação descobre que existem Vulcanos que não seguem a lógica, o que até então era desconhecido. Mas Archer encontra um grupo desses Vulcanos, e manda para o espaço a continuidade;

5-  Archer escapa da prisão Klingon de Rura Penthe, algo que, de acordo com Jornada VI, só Kirk havia realizado;

6-  Num episódio, Archer, com a ajuda do viajante do tempo Daniels, instala na NX-01 tecnologia que permite ver as naves sulibans mesmo camufladas. Mas, no século 23, nem a nave Classe Constitution, de Kirk, conseguia detectar naves Romulanas ou Klingons camufladas;

7-  Ainda sobre naves camufladas, no episódio da Série Original “O Equilíbrio do Terror”, fica claro que para a Federação esta tecnologia era apenas “teoricamente possível”, e que na guerra Terra/Romulus, as naves romulanas não dispunham deste recurso. Contudo, no episódio “Campo Minado”, de Enterprise, vemos minas e naves romulanas invisíveis.

Esses são apenas alguns dentre os erros de continuidade vistos. Quando iniciou a ameaça Xindi, no final do segundo ano, muitos abandonaram a série, pois queriam ver a formação da Federação, e não a Guerra Fria Temporal. Finalmente, no quarto ano, Manny Coto assume a produção, e para tentar salvar a série ele foca os episódios justamente naquilo que os fãs queriam ver: os eventos que levaram à formação da Federação. Coto produziu excelentes tramas, que utilizavam elementos da Série Original e da Nova Geração, respeitando a continuidade. Mas, infelizmente, já era tarde para salvar a série, que foi cancelada em 2005 com apenas quatro temporadas, ao invés das sete que estavam previstas.

Por tudo isso é que considero Enterprise uma boa idéia mal utilizada. Se tivessem, desde inicio, usado o foco que todos esperavam, ela poderia ter tido mais temporadas; mas ao contrário, só conseguiram o rótulo de pior série da franquia, superando até mesmo a terrível Voyager. Mas você pode tirar suas próprias conclusões: Enterprise é exibida aqui pelo canal pago AXN e já foi lançada integralmente em DVD no Brasil.

Guilherme da Costa Radin

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