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A graphic novel de Alan Moore
e David Lloyd

Hugo Weaving, o misterioso V no
filme escrito e produzido pelos
irmãos
Wachowski

Natalie Portman, deslumbrante
como Evey

V tem um relacionamento complicado
com Evey

V confronta o Chanceler
(John Hurt)

 

a VINGANÇA É UM PRATO QUE SE SERVE FRIO

Lançado em 2006, ainda sob o impacto de um grave atentado terrorista na Inglaterra, o filme V de Vingança é inspirado nos quadrinhos de Alan Moore (com desenhos de David Lloyd), que também fez as graphic novels Watchmen (atualmente sendo adaptada para os cinemas) e Batman - A Piada Mortal, entre outras. À época a crítica não perdoou o caráter "subversivo" da obra, e como já fizera com outras adaptações suas para o cinema, Moore acabou rejeitando o filme.
 

No longa, que se passa duas décadas no futuro, o terrorista conhecido apenas como "V" (interpretado por Hugo Weaving, o Agente Smith da trilogia Matrix) desafia o governo totalitário que oprime a Inglaterra. A história é contada sob o ponto de vista da jovem Evey (Natalie Portman), mas também acompanhamos as investigações do policial vivido por Stephen Rea. Logo no começo V salva Evey, que estava prestes a ser estuprada por agentes do governo, em uma alameda. Depois ele invade a rede de TV BNT, e clama para que a população se rebele junto com ele dali a um ano, no dia 5 de novembro, quando promete explodir o parlamento inglês.

 

Conforme o filme se desenrola, descobrimos que a origem do regime totalitário e a do terrorista estão interligadas, o que nos coloca um questionamento: foi o totalitarismo de estado que criou o terrorismo, ou o foi terrorismo que criou o regime totalitário? Vemos que o Alto Chanceler (John Hurt) usou a temática do “inimigo externo” (extremistas islamitas?) para subir ao poder. De forma didática, o filma mostra que todo o político que almeja o poder absoluto cria um inimigo interno ou externo, e através da mídia manipula a população, que cai no engodo. O longa torna-se, deste modo, uma grande aula de política, para quem prestar atenção aos detalhes da sua trama. A nova trilogia de Star Wars também abordou essa temática da transformação de uma República numa ditadura. Palpatine primeiro fabricou o movimento separatista, como inimigo a ser combatido, e depois fabricou a traição dos Jedi.
 

Ressalte-se que V é um terrorista incomum, pois também é um nacionalista como Guy Fawkes, um inglês cujas feições estão reproduzidas na máscara que sempre cobre seu rosto e que, séculos antes, tentara explodir o Parlamento no dia 5 de novembro. No mundo real, a maioria dos terroristas não são nacionalistas. Ele também demonstra ter cultura e domínio da arte da política, quando os terroristas, em geral, se tornam o que são justamente por falta de cultura. V se parece mais com os maquis que combatiam a opressão nazista, do que com os extremistas atuais que lutam em qualquer lugar do mundo - basta ver o fluxo de terroristas que vieram de todo o Oriente Médio, para combater os EUA no Afeganistão e Iraque.
 

V de Vingança foi dirigido por James McTeigue, com base na HQ de Moore e no roteiro dos produtores Andy e Larry Wachowski. Os irmãos Wachowski criaram a trilogia Matrix, e recentemente fizeram o filme Speed Racer, que afundou nas bilheterias. Natalie Portman teve uma ótima atuação, além de sua beleza ter muito contribuído para a eficácia do longa. Mas a figura dominante, ainda que sempre de máscara, é Hugo Weaving, que além de Matrix também participou de outra trilogia famosa - O Senhor dos Anéis. Ao contrário dos habituais blockbusters, entre os quais se incluem mesmo os outros longas dos irmãos Wachowski, o filme não se sustenta principalmente em cenas de ação e efeitos CGI - tais momentos existem, mas são poucos e bem utilizados em favor da trama. A força maior de qualquer filme está no seu roteiro, que aqui é muito bom e remete aos atentados nos EUA e Europa. Isso, aliado ao fato do herói ser um  terrorista atacando o estado, acabou dando má fama à produção.
 

No entanto, visto friamente hoje, mais de dois anos após seu lançamento, as razões do pré-julgamento do filme tornam-se cada vez mais inconsistentes. V combate um estado totalitário numa causa justa, embora seus métodos sigam a mesma linha do inimigo. E muitas das revoluções que levaram ao atual estado de direito em que vivemos tiveram que ser realizadas assim, e esta é, tão somente, a mensagem do filme: às vezes é preciso lutar para sermos livres, e nessa luta os líderes e os símbolos da opressão devem ser derrubados. Ao longo do tempo V de Vingança está recebendo o justo reconhecimento por parte do público e crítica. Muitos já o consideram uma obra-prima, e mesmo quem assim não pense deve concordar que, pelo menos, o filme leva o publico a refletir sobre um tema atual, o que já o diferencia do cinemão pipoca comum. E enfim, como diz aquele velho provébio klingon, "a vingança é um prato que se serve frio"... nada mais verdadeiro quando se trata de V de Vingança.

Guilherme da Costa Radin

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