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H. G. WELLS e sua
GUERRA DOS MUNDOS

O filme GUERRA DOS MUNDOS, de 1953

Marte ataca: os trípodes, na versão de George Pal

Primos do ET: os marcianos da versão de 1953

Tom Cruise estrelou a nova versão de GUERRA DOS MUNDOS (2005), dirigida por Spielberg

O escritor inglês Herbert George Wells, cuja genialidade mudou a literatura, nasceu no dia 21 de setembro de 1866, em Bromley, Kent, e morreu na cidade de Londres em 1946. Foi filho de um pequeno comerciante, e trabalhou desde cedo. Em 1883 Wells conquistou um posto de aluno e professor assistente na Midhurst Grammar School, e depois obteve uma bolsa de estudos com o cientista e humanista Thomas Huxley. Por um tempo deu aulas de biologia, antes de se tornar um jornalista e escritor profissional. Ele escreveu centenas de livros entre:romances, ensaios e textos educacionais, mas é lembrado principalmente por ser um dos pioneiros da ficção cientifica com as obras A Máquina do Tempo (1895), A Ilha do Doutor Moreau (1896), O Homem Invisível (1897) e Guerra dos Mundos (1898).

Nos seus livros Wells debateu questões como evolução, superpopulação, educação e o aperfeiçoamento da humanidade, entre tantos outras. Foi um dos principais colaboradores da Declaração dos Direitos do Homem de Sankey, que anos mais tarde integrou o estatuto das Nações Unidas. Ao longo dos anos 1930, ele escreveu tratados como O Caminho para a Paz Mundial (1930), O Trabalho, a Riqueza e a Felicidade da Humanidade (1932), Cérebro Mundial (1938) e O Destino do Homo Sapiens (1939).

Nas suas obras, especialmente em Guerra dos Mundos, publicada pela primeira vez numa revista, em 1897, dividida em capítulos (a publicação em capa dura só ocorreu em 1898), Wells fez analogias e alertas à humanidade. Nela, por exemplo, criticou a arrogância humana, mostrando que se as formigas são insignificantes diante dos homens, o mesmo pode se dizer destes diante dos marcianos. Também alertou que os marcianos não precisavam vir nos destruir, pois já estávamos fazendo isso sem a necessidade de uma influência externa. A aparência repulsiva dos marcianos e sua agressividade nos remetem à teoria da evolução de Charles Darwin, retratada em A Origem das Espécies.

Desde 1871 haviam sido publicados muitos romances de guerra, mas sempre sobre conflitos entre povos humanos, como A Batalha de Dorkin; assim, em Guerra dos Mundos, Wells inovou ao trazer o inimigo de outro planeta, mais especificamente de nosso vizinho, Marte - planeta que impõe temor ao homem desde os tempos antigos, pois Marte é o deus da guerra romano (o Ares dos gregos). Com os marcianos sendo invasores, não haveria uma trégua possível. Wells previu o surgimento das armas químicas (usadas pelos marcianos) e a devastação da Europa (a forma como a Inglaterra é destruída nos remete tanto à Primeira Guerra Mundial como à Segunda). Outra inovação foi à narrativa ser contada do futuro, por um sobrevivente do ataque marciano. Os outros autores sempre colocavam a narrativa no passado ou no presente.

A demora dos militares em agir, como em A Batalha de Dorking, aumentou o realismo da obra. Certos personagens aparecem para expressar pontos de vista específicos e distintos. A questão do colonialismo também é abordada, mas de forma sutil. Em 1938, uma encenação radiofônica baseada em Guerra dos Mundos, narrada pelo futuro cineasta Orson Welles, foi transmitida nos Estados Unidos e retransmitida na Inglaterra, algum tempo depois, pela BBC. Os ouvintes que pegaram a transmissão pela metade acreditaram que os EUA estavam mesmo sendo invadidos pelos marcianos, o que gerou pânico em massa. Muitas pessoas fugiram para as montanhas, e outras tantas saíram armadas às ruas, para repelir à invasão. O romance de Wells foi publicado pela primeira vez nos EUA em um jornal. O jornalista Garret P. Serviss escreveu uma continuação intitulada Edison Conquista Marte, onde Thomas Edison inventa a antigravidade, e os humanos vão até Marte aniquilar os marcianos. Infelizmente, a lição de Wells foi jogada no lixo com esta pseudo continuação.

Guerra dos Mundos chegou aos cinemas pela primeira vez em um filme produzido por George Pal para a Paramount, com direção de Byron Haskin e que foi lançado em 1953. Nele a invasão foi transposta do sul da Inglaterra para o sul da Califórnia, com o clímax da trama ocorrendo em Los Angeles. O ator Gene Barry interpretou o personagem principal, Dr. Clayton Forrester, enquanto Ann Robinson era seu par romântico, Sylvia Van Buren. Ambos fizeram uma ponta no final da nova versão dirigida em 2005 por Steven Spielberg.

Na época George Pal já realizara filmes memoráveis de ficção científica como Da Terra à Lua (1950) e Colisão entre Planetas (1951), e em 1960 lançaria outra adaptação de uma obra de Wells, A Máquina do Tempo. Gordon Jennings foi o produtor dos engenhosos efeitos especiais. Ele tentou criar as máquinas de guerra marcianas com três pernas (trípodes), como no livro, mas isso sairia muito caro. No filme elas acabaram se locomovendo sobre três feixes de energia, que foram adicionados na pós-produção em modelos sustentados por fios. Apesar das alterações em relação ao livro, os marcianos com cabeça em forma de bumerangue, seu raio da morte e as cenas de batalha e destruição atraíram o publico. Ressalte-se que o filme, que teve um custo de U$ 2 milhões de dólares, mostra a devastação mundial que é apenas insinuada no livro. A cena do esconderijo na casa ficou bem parecida com a do livro, e o encontro com o marciano foi anos depois homenageado por Steven Spielberg em E.T. - O Extraterrestre (1982). Uma série de televisão que dava seqüência ai filme foi exibida a partir de 1988, e teve 42 episódios.

Guerra dos Mundos é a obra central que fundamenta tudo que apareceu depois sobre invasões alienígenas. O filme Independence Day (1996), de Roland Emmerich, é quase que uma nova versão do livro. Temos o ataque surpresa, o êxodo e um vírus que detona as defesas das naves alienígenas. No Universo Expandido de Star Wars a invasão Yuuzanhang Vong, mostrada em A Nova Ordem Jedi tem muitas semelhanças com o livro de Wells. O ataque dos borgs à Federação mostrado no episódio em duas partes “O Melhor de dois Mundos” de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, também tem esse ethos.

Após os atentados ao World Trade Center em 2001, a Paramount passou a considerar a hipótese de trazer de volta à tela Guerra dos Mundos. Se o primeiro filme era uma analogia à ameaça comunista, o novo agora seria uma alegoria dos atentados terroristas contra a América. Para aumentar a repercussão foram adicionados ao projeto o astro Tom Cruise e o diretor Steven Spielberg, que filmou a nova versão em apenas 65 dias, passando imediatamente às filmagens de sua obra posterior, Munique. Spielberg e Cruise já haviam trabalhado juntos em Minority Report - A Nova Lei (2002). A produção ficou com a Dreamworks, e os efeitos especiais a cargo da ILM, de George Lucas. Aconselhado por Lucas, Spielberg usou pela primeira vez animatics em CGI para compor as cenas. Enfim Spielberg compôs sua trilogia alienígena, integrada pelos filmes Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977), E. T. - O Extraterrestre (1982) e este Guerra dos Mundos (2005). John Williams mais uma vez criou uma trilha sonora sensacional - e assustadora. O compositor fez a trilha sonora da maioria dos filmes de Spielberg a partir de Louca Escapada (1974), além de todos os Star Wars de George Lucas.

O roteiro de Josh Friedman e  David Koepp introduziu um drama familiar ainda melhor que o do livro. A ex-esposa de Ray Ferrier (Tom Cruise) deixa com ele os filhos, Rachel (Dakota Fanning) e Robbie (Justin Chatwin) para passarem o fim de semana. Miranda Otto (a Eowyn de O Senhor dos Anéis – As Duas Torres e O Retorno do Rei), interpreta a ex-esposa de Ray, Mary Ann. A história é contada do ponto de vista de uma pessoa comum, da classe média, e desta forma foram evitados os clichês usuais, como a destruição de monumentos. Temos um pai de família, ausente e fracassado, que deve amadurecer e assumir seu papel paternal para salvar seus filhos durante a tragédia global.

Wells era obecado por comida, e as pessoas no livro são apresentadas como parte da cadeia alimentar. Spielberg mostra no seu filme os alienígenas mudando o ambiente com sua grama vermelha, e se alimentando dos humanos - como no livro. A origem dos aliens foi modificada, já que dessta vez eles não vêm de marte, como na versão clássica e no livro. Os trípodes do livro, até então ignorados no cinema, finalmente aparecem nesta versão. O final do filme foi muito criticado, mas ele é fiel ao livro e ao tom que já havia sido dado na introdução narrada por Morgan Freeman. O filme de Spielberg, por seus méritos, é espetacular e assustador, conseguindo superar a versão clássica.

Guilherme da Costa Radin

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