Sci Files


REBORN

O poster do novo filme

Uma Enterprise para o século XXI

Da esquerda para a direita: Kirk, Scotty, McCoy, Sulu e Uhura

J.J. Abrams

Jornada nas Estrelas estava em ruínas, seja por causa do excesso de exposição (de 1987 a 2005 na televisão com nada menos que quatro séries de TV, e no cinema em 10 filmes a partir de 1979), seja pela falta de visão do produtor Rick Berman (que detesta a Série Clássica), que por anos comandou da franquia. A Paramount, decidida a manter viva sua (outrora) rentável propriedade, teve a sorte de poder contar com o jovem produtor e diretor J.J. Abrams, responsável pelos sucessos televisivos Felicity, Alias e Lost, além dos filmes Missão: Impossível 3 e Cloverfield (neste, só como produtor).

Abrams tinha carta branca da Paramount para desenvolver um filme de sua escolha, e resolveu trabalhar em Star Trek. Segundo declarou o próprio J.J., ver um Batman renovado em Batman Begins foi um dos fatores que lhe ajudaram a decidir pelo reboot da Série Clássica. Foi criada uma trama interessante, roteirizada por seus colaboradores Roberto Orci e Alex Kurtzman - que participaram dos filmes do diretor Michael Bay A Ilha (2005), Transformers (2007) e Transformers 2 (2009), e se consideram experts em Jornada -, onde o romulano renegado Nero (Eric Bana) acidentalmente volta ao século 23, e vê nisso a chance para destruir Vulcano e impedir a destruição de Romulus no século 24. Isso porque Nero quer se vingar de Spock (Leonard Nimoy), que também volta no tempo e a quem culpa por não ter impedido a destruição de seu mundo. Porém, ao chegar no ano 2.233, Nero destrói a USS Kelvin, causando a morte de George Kirk (pai do futuro capitão da Enterprise, James Kirk), o que provoca uma alteração na linha de tempo que cria uma nova realidade.


Com esta premissa vemos o surgimento da tripulação da Enterprise, e como eles são reunidos na sua primeira missão para deter Nero. Inclusive o velho Spock (Nimoy) ajuda os jovens Kirk (Chris Pine, que até agora só fizera comédias) e Spock (Zachary Quinto, famoso pelo vilão Sylar de Heroes) a enfrentar esta perigosa missão. Abrams, Orci e Kurtzman criaram momentos memoráveis, como o retorno do Capitão Pike (o primeiro a comandar a Enterprise) e Kirk trapaceando no teste da Academia Kobayashi Maru (mencionado pela primeira vez em Jornada nas Estrelas II - A Ira de Khan). O início da relação de Kirk e Spock é muito bem desenvolvido, e com certeza agradará à maior parte dos fãs. A apresentação / caracterização dos demais personagens da Série Clássica é muito boa, mas se destaca a interpretação de Karl Urban como o Dr. McCoy - ele simplesmente parece DeForest Kelley encarnado.

Muitos fãs vão considerar uma heresia certas mudanças, como a destruição de Vulcano e Romulus numa tacada só, mas isso não ocorreu à toa: J.J. é fã de outra franquia sci fi famosa, Star Wars, e podemos observar certos elementos dela em algumas cenas do novo filme. Embora Nero tenha sido comparado pelos trekkers a Khan, ele se parece mesmo é com Darth Vader. Anakin Skywalker era um escravo que se tornou Cavaleiro Jedi, e quando sua mãe morreu ele foi ficando cada vez mais perverso, até o ponto da possibilidade da perda da esposa e do filho fazê-lo trair a Ordem Jedi, o que levou-o a uma luta contra Obi-Wan Kenobi em Mustafar, onde Anakin perde de fato sua família e humanidade, tornando-se  o tirano Darth Vader. Por sua vez, Nero era um minerador, que com a morte de sua esposa se torna um genocida vingativo. Vê-se que a tragédia de Nero é semelhante à de Darth Vader, pois foi a perda da família que corrompeu a ambos.

Já a luta de Sulu (John Cho) com uma espada de samurai high tech nos remete aos duelos de sabre de luz. Diria até que aquela luta numa plataforma tem certa semelhança com a luta de Obi-Wan contra Darth Maul (Episódio I - A Ameaça Fantasma). O confronto de Kirk com um monstro no gelado planeta Delta Vega nos lembra o encontro de Luke Skywalker com o wampa em Hoth. A destruição de Vulcano nos remete à destruição de Alderaan pela Estrela da Morte (Episódio IV - Uma Nova Esperança), mas também é uma analogia aos atentados de 11 de setembro de 2001. O que vai ao encontro de uma das maiores forças da obra de Gene Roddenberry, as analogias com fatos reais, o que foi muito bem utilizado na Série Clássica e na Nova Geração.

Existem rumores de que uma nova trilogia com a tripulação de Kirk vai ser produzida (a primeira continuação já foi confirmada pela Paramount), além de uma nova série situada no século 23, com uma tripulação inédita. Tudo indica, portanto, que os fãs - velhos e novos - podem ficar aliviados, pois Jornada nas Estrelas, renascida,  seguirá indo aonde ninguém jamais esteve...

Guilherme da Costa Radin

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