VAMOS FAZER COM QUE A MÚSICA DO SÉC. XXI SEJA! Como diria o poeta Décio Pignatari, “a música erudita do século XX deveria ter sido e não foi”. Depois de Beethoven, Schubert, Chopin, Wagner o que foi feito em música? Fez-se muito! Claude Debussy, Igor Stravinsky, Arnold Schoenberg, Anton Webern, Alban Berg, Charles Ives, Erik Satie, Karlheinz Stockhausen, Pierre Boulez, Luciano Berio, Gilberto Mendes, todos deram um passo adiante no que se refere à técnica, concepção e estilo de composição. Mas a música contemporânea fica, quando muito, nas salas de concerto, pois a mídia não divulga praticamente nada e as orquestras ainda teimam em tocar a música do século XIX. No cinema encontramos muitos compositores que não são merecidamente respeitados por suas obras, já que compõem trilhas sonoras e não música considerada de concerto. Não creio que seja neste ponto que se decida se uma obra é erudita ou não. Mas sim em sua qualidade técnica. A música de cinema tem todas as dinâmicas, expressões, ritmos, harmonias e melodias próprias da música erudita, mas está a serviço de outra obra, de outro autor. Ainda vale lembrar que grandes compositores do cinema fazem ou fizeram, também, música de concerto. Nino Rota compôs trios, quartetos, quintetos, óperas. Ennio Morricone escreveu concertos para orquestra, cantatas, música de câmara; assim como o fizeram Nicola Piovani, Elliot Goldenthal, John Williams, Hélène Blazy. A crítica especializada os intitulam “românticos tardios” ou “neo-românticos” e até mesmo “pop”. Mas suas músicas, ainda que estivessem nos moldes estilísticos do século XIX – o que na maioria das vezes não é verdade - trazem, ao menos, um frescor que duzentos anos tiraram da música genial e revolucionária de Beethoven. Na música de cinema de hoje ouve-se música atonal como em Richard III de Ennio Morricone; ouve-se ritmos alucinantes como na trilha de Danny Elfman para Homem-Aranha; e ouve-se também o romantismo de John Barry em Dança Com Lobos e James Horner em Lendas da Paixão. A verdade é que o estilo musical do nosso tempo é marcado por uma pluralidade jamais vista antes. Não temos um guia a ser seguido. Compositores “eruditos” como Anton Webern ou Igor Stravinsky influenciaram, e muito, os compositores do século XX e não poderia ser diferente com os “trilheiros”. Basta prestarmos atenção nas cenas de tensão, ação ou de suspense para ouvirmos a dissonância típica de Alban Berg, e até sons de música concreta como a de John Cage. Essas músicas não se impuseram ao grande público ou por estarem avançadas demais para a época ou por causar-nos sensações de inquietude devido ao uso abusivo de dissonâncias. Mas o fato é que elas mudaram definitivamente o rumo da música e suas características estão nas grandes telas, nas grandes trilhas, assim como estão as músicas românticas. É preciso conhecer melhor as obras de Bernard Herrmann, Philippe Sarde, Alan Silvestri, Howard Shore, Goran Bregovic, além dos compositores já citados anteriormente, pois eles são os compositores do nosso tempo. Suas obras não precisam – mesmo que sejam muito eficazes nesta função - ficar apenas ligadas a cenas, a imagens, elas podem muito bem ser ouvidas como obras de arte independentes. E muitos deles fazem música independente de imagens, mas falta aos críticos e ouvintes pesquisar para conhecê-las. E eu espero que este texto motive essa busca. Existem no cinema músicas muito mais complexas, melhor estruturadas do que muitas músicas de compositores considerados “eruditos”, mas que não têm o devido valor. Por quê? Até quando vamos ouvir a música do século XIX? Esta música é importante por fatores históricos, por preservar a memória e para entendermos porque a música de hoje é como é. Mas fazem parte do passado. As técnicas composicionais já evoluíram! Entraram em cena novos recursos, novos instrumentos, além da tecnologia que nos permite fazer música com novas concepções, e os compositores de trilhas sonoras se utilizam de todos estes recursos mais do que quaisquer outros. Até mesmo por necessidade, para darem o clima certo, contemporâneo a cada cena. O mundo mudou muito! E o cinema reflete essa mudança nos roteiros, ambientações e também nas trilhas sonoras. Ennio Morricone, John Williams, Nicola Piovani, Alan Silvestri, Howard Shore, Gabriel Yared, todos têm se apresentado por todo o mundo em concertos com suas músicas feitas para o cinema. Esta iniciativa é importantíssima para o cenário da música erudita contemporânea, pois é preciso tirar as trilhas sonoras das telas de cinema e trazê-las para as salas de concerto. Vamos fazer com que a música do século XXI seja! Tarso Ramos |
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