O (Des) Condicionamento Semiótico e os Processos Narrativos: um Ensaio

Bruno Moreto

Imagine-se um segmento de um filme em que uma mulher chora, vestida de preto. Corte para um túmulo com uma cruz. Tratam-se, aqui, de duas imagens consecutivas que buscam, de certa maneira, criar um sentido dentro de um determinado locus não-necessariamente pré-definido, necessitando, para tanto, de uma representação reconhecível na memória discursiva do espectador de tais imagens.

O objeto de estudo a ser apresentado neste texto viria, de certa forma, como um desconstrutor da lógica semiótica apresentada no parágrafo anterior. Ora, uma postura racional, própria do ser humano, faz com que sempre se busque dar ordem ao caos. Suponhamos que um curta-metragem de cinco segundos apresente a mesma situação semiótico-narrativa expressa no parágrafo anterior: temos assim a imagem de uma mulher que chora, com vestes pretas, e um túmulo com uma cruz, ícone que surge logo após a exibição da mulher. A ordenação das imagens, em busca de um significado (já que os significantes são logo apresentados através das duas imagens mencionadas) plausível, seria feita através da afirmação de que a mulher chora pois alguém morreu e está de preto em sinal de luto.

No entanto, pode-se contra-argumentar que os indícios que encaminham o espectador para tal conclusão são perigosamente dúbios. Afirma-se que sim, pois, de outro modo, haveria uma desconexidade entre as imagens, e o princípio narrativo faz com que a ordem se estabeleça no caos. Ordenação narrativa, no caso através de um processo inicialmente semiótico e logo depois que se expande para o campo discursivo, no entanto, acabou por se tornar um processo altamente condicionado através da criação de clichês e estereótipos cada vez mais corriqueiros. Pense-se, no entanto, na exibição desse pequeno curta metragem para uma aldeia não-cristã que desconheça os costumes funerários da civilização ocidental. Certamente, a imagem do túmulo com a cruz acabaria por se ligar com a mulher chorando num todo semântico radicalmente diferente do apresentado por um cidadão ocidental, devidamente inserido numa memória discursiva em que as práticas do luto, do choro perante à morte e de se enterrar pessoas em túmulos com cruzes sejam presentes.

A tomada do cinema como linguagem, em seus primeiros passos, criou a idéia de que as imagens apresentadas aos espectadores teriam uma função correspondente às palavras em uma língua (Metz, A Significação do Cinema). Nesse caso, dentro da ´linguagem-cinema´, o significante seria a imagem apresentada, e o significado seria construído mentalmente pelo espectador. A construção imagética de um significado global, a partir da adição racional (?) de uma série de significantes também imagéticos, se daria, portanto, no campo semiótico de maneira simples. Metz, contudo, prossegue na desmistificação do ideal de ´linguagem-cinema´:

"O filme deve dizer alguma coisa? Que o diga! Mas que o diga sem se sentir na obrigação de manusear as imagens ´como palavras´ e de organizá-las conforme as regras de uma pseudo-sintaxe cuja evidência constrangedora se impunha cada vez menos aos espíritos prontos para o que chamamos – além da Nouvelle Vague no sentido estrito – de cinema ´moderno´!" (op. cit.)

A idéia de ´dessintaxilização´ das imagens cinematográficas apresentou uma cisão crucial para as reformulações semióticas que certos cineastas adotaram como escola a partir dos anos 60. Ora, se a ordenação imagética tem função de ´dizer algo´, mas não dentro de uma formalidade como função primordial de compreensão, como no caso da linguagem, essa mesma idéia da necessidade do dizer acaba se tornando uma segunda convenção, talvez ainda mais difundida do que a primeira. Se se busca qualquer tipo de ordenação dentro da desordem de imagens previamente selecionadas como desconexas, cria-se um campo discurso em que elementos díspares são, a priori, passíveis de diálogo. Indo além: uma total posição de criação de imagens desconexas que não dialoguem entre si sob hipótese alguma constitui-se, certamente, como uma tomada de posição clara de ´não-diálogo´, o que acaba por construir um significado ainda maior, uma postura perante a arte que, gostando-se ou não, é expressiva, portanto significativa.

Dentro de tal perspectiva, descontruindo-se o signo cinematográfico, teríamos, num primeiro momento, o seguinte: significante – imagens exibidas / significado – criado mentalmente pelo espectador. Ao se assumir uma reformulação semiótica em que apresentamos imagens não-logicamente conexas, previamente estabelecidas como díspares, não-dialogáveis, teríamos o signo cinematográfico formado da seguinte maneira: significantes – imagens exibidas / significado – discursivamente presente na tomada de posição de uma prévia ausência de sentido. Portanto, conclui-se que, semioticamente, é impossível tratar-se de uma situação sem significado, não sendo importante em qual nível o mesmo se dê; pode-se, contudo, manipular os significantes a fim de criar-se um aparente deslocamento do significado (o que comumente se chama de criação hermética). Na maioria dos casos, quando tratamos do cinema, tais quebras na expectativa semiótica acabam por apresentar conseqüências narrativas.

Culler (A Literariedade) teceu o mesmo estilo de considerações a respeito da literariedade; contudo, tais abordagens são perfeitamente cabíveis ao estudo do cinema também. Para ele, "A evidenciação dos signos lingüísticos e dos meios de representação pode fazer da literatura uma crítica dos modelos semióticos através dos quais estamos habituados a tornar o mundo inteligível."

Em outras palavras, Culler atenta para o fato dos modelos da inteligibilidade do signo serem passíveis de uma crítica sólida e completamente embasada no próprio fazer artístico. Desse modo, a construção de uma metalinguagem cinematográfica que vise à reformulação de elementos semióticos seria um meio de abordagem inerente à própria arte, sem ser necessário distanciar-se do objeto para criticá-lo. Para Culler, a obra de arte recebeu a convenção de que deve constituir-se em um todo orgânico, com partes que sempre se dialogam entre si, criando uma unidade de sentido que sobrepõe-se à própria obra. Prossegue, assim:

"O essencial é que essa unidade seja pressuposta e engendre um esforço no sentido de se perceber como é que um momento ou elemento do texto se podem relacionar com os outros, tranformá-los, até mesmo opor-se-lhes, e criar uma estrutura de conjunto. Este aspecto da literatura torna-se surpreendentemente manifesto nos textos de aparência fragmentária, que exigem da parte do leitor um esforço especial."

A desfragmentação desse todo é posterior àquilo que aqui é proposto: antes de considerar a obra como um todo, pergunta-se, de outro modo, até que ponto sucessões de imagens representam, ou têm de representar, como assim foi convencionado, um todo significativo. Não existe aqui uma negação, mas um prévio questionamento para uma posterior desconstrução de expectativas condicionadas do encadeamento semiótico-narrativo.

Ainda a respeito da automatização da interpretação semiótica, transformando-a apenas num exercício racional, sem reflexão mais profunda a respeito de outras camadas de significação dos signos (ou de sua não significação, ou de uma significação externa), Chklovski (A Arte Como Processo) escreve:

"A automatização traga os objetos, os fatos, os móveis, a mulher e o medo da guerra. [...] A finalidade da arte é dar uma sensação do objeto como visão e não como reconhecimento; o processo da arte é o processo de singularização dos objetos e o processo que consiste em obscurecer a forma, em aumentar a dificuldade e a duração da percepção. O ato de percepção em arte é um fim em si e deve ser prolongado; a arte é um meio de sentir o devir do objeto, aquilo que já se ´tornou´ não interessa à arte."

Portanto, as imagens de um filme não são apenas instrumentos de reconhecimento do real no artístico; a arte tem como função estender o processo de percepção do objeto, fazendo, assim, com que o mesmo adquira novos significados, desprovidos de seu significado no mundo real, ou ao menos diferente do mesmo. Retoma-se, portanto, o primeiro exemplo citado aqui, o da mulher enlutada chorando e o túmulo. De que maneira é possível estender, como propôs Chklovski, a percepção dessas duas imagens de forma a reinterpretá-las dentro de um mundo à parte? Ora, se a imagem não tem, necessariamente, de ser compreendida com a significação que tem em si, mas sim tem o objetivo de possibilitar uma percepção do objeto de forma distinta (Chklovski chama isso de ´criar a sua visão e não o seu reconhecimento´), como reformular semioticamente aquilo que nos foi mostrado, de modo a pensar se a mulher realmente chora porque alguém morreu, ou se chora porque chutou um túmulo quando se preparava para gravar uma cena num cemitério, já que é uma atriz?

Retomemos Metz (op. cit.), que afirma que, no cinema, a construção de uma semiologia da denotação é possível graças ao fato de que o filme é feito de uma sucessão de fotografias, portanto de objetos, portanto de imagens. Metz espertamente introduz, aqui, a noção da montagem dos elementos fotográficos em busca da criação de um todo compreensível. O conceito apresentado foi batizado de ´articulação fílmica´. Metz afirma que "[...] a própria denotação é construída, organizada e, numa certa medida, codificada [...]; temos aqui, na ausência de leis absolutas, um certo número de hábitos dominantes em matéria de inteligibilidade fílmica: um filme montado de qualquer jeito não é entendido."

O ‘qualquer jeito’ de Metz, no caso, dá a entender certo desleixo de montagem. Entretanto, uma montagem consciente que vise a descontruir algo semioticamente seria válida (e basta lembrar o famoso manifesto de Tristan Tzara sobre como construir um poema dadaísta. Nesse caso, a aleatoriedade é que determina a produção da arte). Surge outra questão: cabe-nos pensar quais são os limites entre a montagem, ou seja, a sucessão de imagens de forma ordenada, e a construção de um eixo narrativo através de tais imagens.

As imagens que ilustram este ensão são reproduções de obras do pintor belga René Magritte (1898-1967)

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