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Para quem, como eu, é
um veterano apreciador da música do cinema, este início do século 21 é um
período contraditório. Nunca houve tantos fãs de
film scores, nunca foram lançadas em
CD tantas partituras originais, antigas e de novos filmes. Mas curiosamente, o
que hoje se produz no gênero não passa de uma mera sombra de um período
histórico onde a criatividade artística musical, em diversos estilos, atingiu
níveis fantásticos. Naquela época, a música de cinema, em especial, beneficiou-se tanto das
novas idéias musicais como da própria transformação que sofreu o cinema
norte-americano, que deu origem a uma safra de filmes de grande apelo que
inspirou os compositores a criarem trilhas sonoras memoráveis.
Falo, é claro, dos
anos 70 do último século, período que considero ponto alto da
Silver Age da música de cinema.
Certamente que a década de 60, período em que, ainda criança, descobri a
importância que a música tinha para valorizar um filme, também é historicamente
importante por marcar a entrada em cena de muitos compositores essenciais, bem
como pelo afastamento que a música de cinema fez de sua forma mais tradicional,
consagrada na Golden Age, rumo a
novas e mais populares linguagens. Mas foi no fervilhante caldeirão criativo da
década seguinte que todas as tendências que ganharam força em anos anteriores -
o jazz, o
rock, a música eletrônica e outras
linguagens pop - floresceram
paralelamente a um inesperado e potente renascimento da música orquestral
patrocinado por grandes autores da época, transformando aquele momento num dos
mais ricos da música do cinema.
 No início da década,
raríssimos eram os grandes trabalhos do gênero que estavam no catálogo das
gravadoras. Considerável parte das trilhas sonoras dos novos filmes não recebiam
edições discográficas, exceto quando de compositores de grande apelo ou de quando
o filme tinha uma linha francamente comercial, muitas vezes apresentando como
trilha sonora coletâneas musicais. Mas em breve as coisas começariam a mudar,
graças à série de regravações de partituras históricas feitas por
Charles Gerhardt, lançadas em LP pela RCA. Alguns poucos lendários compositores destes
scores, ainda que afastados do
mainstream, estavam ativos e volta e
meia eram contratados para compor em filmes de jovens cineastas que os tinham
como ídolos. Um deles era Brian De Palma, discípulo de Alfred Hitchcock que,
reconhecendo a inestimável contribuição de
Bernard Herrmann para a obra do "Mestre do Suspense", utilizou o veterano
compositor em seus filmes Sisters
e Obsession. Outro então jovem e
talentoso cineasta, Martin Scorcese, ofereceu a Herrmann a oportunidade de
compor aquele que seria seu último - e memorável - trabalho: a jazzística e
obscura Taxi Driver. Outro grande
compositor remanescente da Golden Age,
Miklos Rozsa, apesar de aparentemente esquecido pela maioria dos cineastas
da época, recebia oportunidades para criar trabalhos memoráveis, como
The Golden Voyage of Sinbad e
Time After Time. Rozsa ainda
trabalhou até o início dos anos 80, fase onde compôs a lírica
Providence e
Dead Men Don't Wear Plaid, esta um
nostálgico retorno do compositor ao tipo de partituras que compôs para clássicos
do film noir. Já
Alex North recebeu indicações ao Oscar® por
Shanks e
Bite the Bullet. North também à época
compunha para a TV, em minisséries premiadas como
QB VII,
Rich Man, Poor Man e
The Word.
Os grandes
compositores da Silver Age eram
mais ativos, alguns estando prestes a atingir seus maiores níveis de
produtividade e qualidade.
John Williams, que no final da década anterior migrara da televisão para a
tela grande, apresentava uma produção eclética que abrangia a comédia,
adaptações musicais (sendo a mais notória
Fiddler on the Roof) e filmes catástrofe. Seu belíssimo
score para o
western
The Cowboys lhe abriu caminho
caminho para caras produções de grande visibilidade como
The
Poseidon Adventure,
The Towering Inferno,
Earthquake,
Jaws,
Star Wars,
Close Encounters of the Third kind
e Superman The Movie.
Seus premiados trabalhos do período, especialmente os três últimos citados,
foram essenciais para o renascimento, em pleno domínio da música
pop no cinema, da grandiosa trilha
sonora orquestral.
Jerry Goldsmith,
que já nos anos 60 fizera a transição da TV para o cinema, onde compôs
partituras antológicas como Freud
e Planet of The Apes, entrava em um
dos períodos mais prolíficos de sua carreira. Esta fase, apesar de incluir
dramas como Papillon e suspenses
como The Other, era dominada por
filmes de horror, sci-fi e de
ação, gêneros que deram origem a muitas das mais cultuadas obras do compositor. Goldsmith, que tivera indicações prévias ao Oscar®, finalmente conquistou sua
estatueta pelo antológico score
de The Omen. Mesmo trilhas
originais que ele compôs para filmes esquecíveis como
The Cassandra Crossing eram ótimas,
trazendo grandes faixas de ação como sua marca registrada.
Capricorn One recebeu um tema de
abertura que é, provavelmente, a mais excitante faixa de ação escrita para uma
cena... sem ação. Com uma produção que variava de três a seis
scores por ano, até o final da
década Goldsmith ainda entregou obras fantásticas como
The Great Train Robbery,
Alien e
Star Trek The Motion Picture.
Elmer Bernstein,
que na década
anterior vivera uma fase importantíssima em sua carreira, com trabalhos
marcantes como The Magnificent Seven,
To Kill a Mockingbird
e Hawaii,
nos anos 70 não teve
muito destaque. Foi indicado ao Oscar® de Melhor Canção pelo filme
Gold, e de resto nenhum filme de
maior importância, seja em termos artísticos ou de bilheteria, trouxe sua
música. Exceto pela surpresa do final da década
National Lampoon's Animal House, que
apesar de ter originado um álbum que não trazia uma faixa sequer da trilha de
Bernstein, fez do compositor um dos mais requisitados para compor em comédias dos
anos 80.
Henry Mancini,
que nos anos 60
participou de uma frutífera parceria com o diretor Blake Edwards, retomou esta
colaboração em 1975 com The Return of the
Pink Panther, que marcou também o reinício da famosa cinessérie e a
volta do tema instrumental mais famoso do compositor.
Lalo Schifrin, cujo nome à
época era mais associado às
trilhas de séries e filmes policiais ou de ação, como
Mission: Impossible,
Mannix e
Bullitt, demonstrou grande
criatividade em obras do gênero que o consagrou, como
Dirty Harry,
Magnum Force e
Enter The Dragon (esta, a trilha
definitiva dos filmes de artes marciais), bem como em projetos de linha clássica
como The Four Musketeers.
Os principais
compositores de cinema europeus da época, como
Maurice Jarre, passaram a compor mais regularmente também nos EUA. Dentre
eles
Georges Delerue foi um dos mais bem sucedidos, tendo conquistado o
Oscar®
de
1979 de Melhor Trilha Sonora Original por A
Little Romance. Também
Ennio Morricone, tendo sido indicado ao Oscar® em 1978 por
Days of Heaven, foi presença mais
ativa nas produções Made in Hollywood.
Nino Rota fincou sua bandeira no coração do grande cinema norte-americano
com sua bela e melancólica partitura para The
Godfather. Em meados da década,
John Barry alternava trabalhos para a TV e o cinema. Apesar de não ter sido
indicado nenhuma vez ao Oscar®, vários dos maiores sucessos de bilheteria do
período, como King Kong,
The Deep e
Moonraker, trouxeram
suas elegantes partituras.
Paralelamente ao
trabalho de grandes compositores dos anos 40, 50 e 60, novos talentos surgiram
com trabalhos de grande criatividade. David Shire, que também compunha canções
para a Broadway, criou para o
cinema partituras de
impressionante variedade, que iam do funk
de The Taking of Pelham One Two Three,
passando pelo blues noir de
Farewell My Lovely, o som
disco de
Saturday Night Fever (a
trilha-coletânea mais vendida da história, que trazia algumas faixas
instrumentais de Shire) até o suspense clássico de
The Hindenburg. John Morris, outro
compositor com passagem pela Broadway, era o compositor preferido do diretor de
comédias Mel Brooks e de seus colaboradores Gene Wilder e Marty Feldman.
Bill Conti, um dos profissionais mais
requisitados do período, entrou para o primeiro time dos compositores de
Hollywood graças ao grande sucesso
dos filmes Rocky,
permitindo que musicasse sucessos de crítica como
Harry & Tonto
e
An Unmarried Woman.
Do lado mais
pop, o grupo de
rock progressivo alemão
Tangerine Dream estabelecia, em
discos e apresentações ao vivo, as bases da música que transportaria para os
cinemas a partir de 1977 com o filme Sorcerer. Já o Goblin
forneceu scores para filmes dos
mestres do terror Dario Argento (Suspiria) e George A. Romero (Dawn of
The Dead). Já a onda dos filmes
Blaxploitation, que teve seu auge na
primeira metade da década, fez com que consagrados músicos e intérpretes da
música negra como Isaac Hayes, James Bown, Curtis Mayfield e Marvin Gaye
compusessem e interpretassem não apenas canções, mas também
scores recheados de
funk e
soul. Hayes conquistou o Oscar® de
Melhor Canção por seu antológico “Theme from Shaft”, que introduziu a
característica guitarra wah wah
nas trilhas sonoras. A onda disco
detonada a partir do estrondoso sucesso de
Saturday Night Fever em 1977, além de tornar o ritmo uma presença constante
nas trilhas sonoras, inesperadamente aliou-se às partituras orquestrais. O
produtor Meco Monardo lançou alguns álbuns com versões
disco de grandes trilhas orquestrais
como Star Wars,
Close Encounters of the Third Kind,
Superman
The Movie e
Star Trek The Motion Picture, levando
assim as criações de Williams e Goldsmith para o público mais jovem.
Com este breve (e não
exaustivo, muito mais compositores e obras poderiam ser citados) quadro dos anos
70, fica fácil concluir que atualmente, como já
dito, o que ouvimos são sombras, reflexos daquela época onde, graças a uma feliz
e rara combinação de diversos fatores, a música de cinema atingiu seu auge. Dos
compositores que dominaram a música de Hollywood nos anos 70, apenas John
Williams ainda está no topo, ao lado de colegas que se revelaram principalmente
nos anos 80 e início dos 90. Grandes compositores já faleceram ou se
aposentaram, e raros novos talentos surgem trazendo trabalhos de qualidade –
conseqüentemente, poucos dos scores
que hoje são compostos fogem da mediocridade e do formulismo. Talvez, algum dia,
um novo tsunami criativo como o
que atingiu a música de cinema chegue novamente. Até lá, o jeito é lembrar
(e ouvir), com um sorriso nos lábios, uma época que passou há mais de 30 anos.
Jorge Saldanha
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