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Os Oscars® concedidos em 2002 e 2004 a
Howard Shore, por suas majestosas partituras de O Senhor dos Anéis: A
Sociedade do Anel e O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei,
respectivamente, foram o justo reconhecimento não somente à excelência
daqueles trabalhos, mas também à incomum versatilidade do compositor,
brilhante tanto em trabalhos eminentemente experimentais como nos
tradicionalmente orquestrais. Shore nasceu no Canadá em 1946 e formou-se
em piano, composição e regência logo cedo, aos 24 anos. Seus primeiros
trabalhos foram realizados para a TV americana em 1975, mais
especificamente para o famoso show Saturday Night Live,
que desde então revelou talentos humorísticos como Bill Murray, Dan
Aykroyd, John Belushi, Adam Sandler, etc. No início da década de 80
começou a participar em produções cinematográficas de seu país natal, e
tem seus trabalhos mais brilhantes feitos ao lado de seu amigo David
Cronenberg, de quem se tornou seu principal colaborador.
Na verdade, o que ocorre entre o compositor e o diretor é algo maior do
que uma colaboração. Os filmes de Cronenberg e a música de Shore possuem
unidade, uma complementaridade rara. A mente e as temáticas exploradas
pelo diretor possuem um caráter ousado, perturbador, por vezes insano.
Shore transforma esse caráter em música e faz cada partitura expressar a
loucura ou a decadência de cada personagem de Cronenberg. A partir do
sucesso dos filmes de Cronenberg, o compositor tornou-se popular nos
Estados Unidos. Trabalhou com Martin Scorsese em Depois de Horas;
após alguns anos, Jonathan Demme, fã dos filmes de Cronenberg, fez
amizade com o músico, que a partir daí, compôs belas trilhas para
Filadélfia e o premiado O Silêncio dos Inocentes - sempre
imprimindo um estilo frio, mas dotado de consistência melódica. A partir
daí trabalhou em vários outros filmes, de gêneros diferentes, como
Uma Babá Quase Perfeita, Máfia no Divã e Cop Land.
Estes trabalhos fizeram com que o compositor fosse percebido também como
um músico bastante versátil dentro do cinema norte-americano.
Em 1999, ajudou o iniciante e talentosíssimo diretor canadense Don
Mackellar com seu filme Last Night (que tem Cronenberg
participando como ator), emprestando para a produção fragmentos de seu
concerto para piano. Last Night foi um dos melhores filmes
canadenses de 1999, e a música de Shore possui papel fundamental em
determinadas passagens da obra. Um de seus recentes trabalhos foi O
Quarto do Pânico, de David Fincher. Entre as obras mais notáveis do
compositor canadense, destaco a maior parte daquelas que fazem parte de
sua colaboração com Cronenberg:
Scanners (Sua Mente pode Destruir, 1981) - a segunda
colaboração, depois de The Brood (1979). Shore dá nuances e cores
escuras ao estranho e arrebatador filme de David Cronenberg.
The
Naked Lunch (Mistérios e Paixões, 1991) - aqui, Shore faz dos
temas musicais ótimos contrapontos para a loucura e a repugnância dos
personagens e do enredo da fita. Desenvolve com o mestre do free-jazz
Ornette Coleman, em uma linguagem atonal, peças intrigantes e complexas,
utilizando-se do sax e de fundos sinfônicos para a linguagem de Coleman.
Uma das trilhas mais interessantes já inventadas.
M. Butterfly (1993) - na minha opinião, o melhor e mais belo
trabalho de Shore. As peças vão buscar o personagem de Jeremy Irons onde
ele estiver... em que estado de espírito ele estiver... o perseguem;
aliás, a música vai buscar a obra de Cronenberg onde ela estiver. As
partituras são pesadas, mas ao mesmo tempo carregadas no lirismo, mas um
lirismo diferente, particular. Lembra algo do Gabriel Yared da década de
90.
Crash (1996) - outro salto de criatividade no cinema. Shore
realiza uma trilha com uma única passagem orquestral, tensa e bela, que
aparece somente no final da obra. O resto do filme, inclusive o tema
principal, é feito com guitarras elétricas sobrepostas, realizando uma
melodia tensa, em tom menor, típica das colaborações mais insanas e
soturnas entre Shore e Cronenberg.
SHORE E A MÚSICA DE O SENHOR DOS ANÉIS
O sucesso da trilogia cinematográfica O SENHOR DOS ANÉIS é rigorosamente
inquestionável. Arrebatou milhões de dólares em bilheterias e as salas
de exibições continuam abarrotadas de gente que procura ver o último
filme da trilogia. Não vou falar do filme e nem dos maravilhosos efeitos
especiais dessa superprodução, meu assunto se restringirá à trilha
sonora. O autor da maravilhosa música de O SENHOR DOS ANÉIS é o
compositor canadense Howard Shore. Ele iniciou sua trajetória no cinema
em 1975, através de um trabalho para o filme OS FILHOS DO MEDO, dirigido
pelo seu compatriota David Cronnemberg. Até o momento, Shore já compôs
importantes trabalhos para o cinema como as trilhas de A MOSCA, O
SILÊNCIO DOS INOCENTES, PHILADELPHIA, SEVEN – OS SETE PECADOS CAPITAIS e
tantas outras trilhas de relevo. Em 2002 e 2004 o compositor Howard
Shore viu todo o seu esforço coroado de êxito e o reconhecimento da
crítica por ocasião de seu trabalho para O SENHOR DOS ANÉIS, arrebatando
os Globos de Ouro e o Oscars de melhor trilha sonora original,
indiscutivelmente os prêmios mais ambicionados do cinema.
Existem muitos diretores de cinema que não gostam de música em seus
filmes, enquanto que muitos produtores tentam economizar no orçamento de
uma produção, restringindo os gastos com a parte musical. Justamente por
isso é que o sintetizador tem sido a alternativa preferida por muitos,
para substituir uma orquestra na execução de uma trilha sonora.
Contrariando essa tendência, temos então a trilogia O SENHOR DOS ANÉIS,
com partituras que foram executadas por nada mais nada menos do que duas
grandes orquestras, respectivamente a Filarmônica de Londres e a
Sinfônica da Nova Zelândia. Além disso, tivemos a participação coral da
The London Voices e da The London Oratory School Schola. Em todos os
instantes do filme, a música participa de forma magistral, através de
acordes inspiradíssimos de Shore. A verdade é que a música em O SENHOR
DOS ANÉIS cumpre um papel preponderante quanto a promover a sustentação
das cenas, bem como para garantir a construção do sentido de
continuidade das imagens. A música de O SENHOR DOS ANÉIS cria uma
atmosfera convincente de tempo e lugar, numa demonstração de que sem a
música, seguramente as imagens perderiam o impacto junto ao público.
Impossível não perceber a música no filme, mas nem por isso ela rouba a
cena e tira os méritos da mesma. Apesar de estar sempre submetida aos
diálogos e imagens, a verdade é que a trilha de Howard Shore não só
estabelece o próprio clima do filme, como sabe grifar muito bem as
emoções que a narrativa acaba sugerindo.
Por
isso tudo, a música de O SENHOR DOS ANÉIS não é um discurso paralelo ao
filme, mas sim parte integrante do mesmo, já que sem ela a produção
seguramente não teria conseguido a robustez ostentada. A composição de
Howard Shore para O SENHOR DOS ANÉIS, na verdade uma sinfonia em três
atos, é a mais absoluta prova de que a linguagem musical alem de
conduzir as emoções, auxilia no processo de reforçar as cenas. Como bem
frisou o cineasta russo Tarkovski: “Bem usada, a música tem a capacidade
de alterar todo o tom emocional de uma seqüência filmica; ela deve ser
inseparável da imagem visual a tal ponto que, se fosse eliminada de um
determinados episódio, a imagem não apenas se tornaraia mais pobre em
termos de concepção e impacto, mas seria qualitativamente diferente”. O
feito histórico quanto ao aproveitamento de duas orquestras renomadas,
associado ao talento do compositor Howard Shore, coloca a música de O
SENHOR DOS ANÉIS no patamar de um dos trabalhos mais expressivos de toda
a história da música no cinema.
Filmografia de Howard Shore, cortesia de
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