SOCINE - X ENCONTRO
"Música no Cinema" invade os Encontros de Cinema

Aconteceu de 18 a 21 de outubro de 2006 o X Encontro da SOCINE - Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual em Ouro Preto – Minas Gerais. Há 10 anos, pensadores da área cinematográfica reúnem-se durante alguns dias para conversarem e trocarem informações sobre os projetos de pós-graduação, lato e stricto sensu das universidades brasileiras. O encontro é organizado através de grupos de trabalho onde temas correlatos são discutidos entre os estudantes e demais pesquisadores.

Neste ano, contamos com uma inovação dentro dos encontros e congressos sobre cinema no Brasil. Foram organizados dois grupos de trabalho cujo tema era a música no cinema. A primeira chamada Trilha Sonora, e a segunda Música, Design e Representação. Raros são os momentos em que compositores de trilha sonora, ou mesmo pesquisadores dessa área, reúnem-se para discutir sobre as novas tendências e rever os exemplos deixados pela história do cinema. Como compositor de trilha sonora e pesquisador dessa, área vejo-me no dever de estimular a produção de novos encontros e elogiar a promoção da SOCINE, por torná-lo possível. A seguir segue um breve relato e comentário de cada explanação dos pesquisadores, traçando um perfil das pesquisas desenvolvidas em algumas faculdades brasileiras. 

Grupo de Trabalho: Trilha Sonora 

Dois pesquisadores, Fábio Camarneiro (USP) e Fernando da Costa (UFF/Unesa) trataram de um mesmo tema, a “Canção Popular Brasileira em ‘Matou a Família e foi ao Cinema’ de Júlio Bressane” e “O Silêncio Primordial em Bressane e Candeias” respectivamente. Ambos deixam claro que a utilização da música e do som em geral (ruídos e silêncios) são usados primordialmente como uma ruptura a um modo clássico de edição do som. A construção de uma oposição sonora com a imagem caracteriza o que é chamado “edição por contraste”, onde há um “contraponto” entre longos momentos de música e longos momentos de silêncio. Talvez Bressane e Candeias, autores de um cinema pós-chanchada, importassem com o impacto que essa oposição causa ao público, onde se chama a atenção deste pelo contraste. De acordo com o teórico de cinema Ismail Xavier, “a imagem persiste e o som nos abandona”, o que traduz exatamente a questão sensorial do espectador. Fica claro certa autonomia que a trilha sonora passa a ter. Fernando da Costa, ao analisar a importância do silêncio nesses dois autores, caracteriza primordialmente como uma ruptura com o cinema clássico e não como mais tarde, teóricos do som, como Michel Chion, vão caracterizar o silêncio como sendo uma construção semântica frente ao audiovisual, ou seja, o silêncio faria parte da narrativa fílmica.

 Esse grupo de trabalho é encerrado por uma apresentação da pesquisadora Suzana Miranda(UAM/Cásper Líbero), talvez uma das melhores pesquisas atuais sobre a importância da trilha sonora no audiovisual. Além de trazer uma consciência crítica aguçada da bibliografia, ela pontua diversas questões pertinentes para o entendimento da música e do som dentro dos filmes. Suzana. em sua pesquisa de doutorado “O Contraponto Radiofônico de Glenn Gould pelo diretor Frederic Girard” analisa o filme “32 Curtas Metragens sobre Glenn Gould”, onde a mistura narrativa utiliza de uma edição sonora com fundamento estético. O conceito de contraponto ao ser entendido sob o ponto de vista musical, ou seja, o diálogo entre os discursos, ou também, como um paralelismo de vozes independentes, que se inter-relacionam, garante o papel semântico que a trilha sonora pode desempenhar dentro do audiovisual. Ao narrar o universo do pianista Glenn Gould, o diretor Girard mescla esse entendimento de contraponto e promove um diálogo entre a arte cinematográfica e musical como uma experiência sensorial ímpar.

Grupo de Trabalho: Música, Design e Representação 

Nesse grupo de trabalho pudemos ver um panorama diversificado das pesquisas da Bahia e São Paulo. Fábio Costa (UFBA) traça uma cinematografia na sua pesquisa “A ‘Invasão’ da Música Pop no Cinema” ao situar, por décadas, filmes que utilizaram a música ora como experiência diegética, ora como consonância com a narrativa do filme. Márcia da Silva em sua pesquisa “As Canções de Exílio da Trilha Musical de Durval Discos” utiliza a poética contida nas letras das canções da década de 70 como fio narrativo escolhido pelo diretor do filme. Usa-se, no filme, a diegese como forma de interpretação da história juntamente à escolha das músicas. No encerramento do grupo de trabalho Fernando Ferreira em sua pesquisa “A Arte Gráfica enquanto Cinema e Cinema enquanto Arte Gráfica – os Letreiros Cinematográficos de Saul Bass” suscita alguns questionamentos construtivos ao seu trabalho, e principalmente desperta a curiosidade, para nós compositores de trilha sonoras e estudiosos da área. Os letreiros de Saul Bass, como os dos filmes “Psicose”, “Vertigo”, “Cowboy”, “Grand Prix” e “Cassino” são pesquisados somente pela sua construção gráfica, mas o questionamento feito é: como analisar seu aspecto gráfico sem analisar também a música utilizada. É uma construção híbrida onde há o contraponto entre os dois discursos. Dessa forma concluímos os trabalhos sobre música.

Fica clara a diversidade de temas que cercam uma mesma área. Também nota-se a avidez dos pesquisadores por mais encontros, por um dia a mais, por outras conversas, por novos momentos de discussão. Além de se descobrir novos caminhos para o seu próprio desenvolvimento como compositor ou pesquisador, deparamo-nos com uma necessidade do mundo cinematográfico que é o aprendizado através do conhecimento do outro. O caráter híbrido das discussões torna o discurso ainda mais proveitoso, ou seja, novas relações entre os grupos de trabalho será o passo para uma leitura completa do audiovisual. E o CINEMA BRASILEIRO certamente é o grande vencedor. 

Márcio Brant
Mestrando em Cinema na Escola de Belas Artes da UFMG

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