SOLARIS (Solaris, EUA, 2002)
Gênero: Ficção Científica
Duração: 99 min.
Estúdio: Fox
Elenco: George Clooney, Natascha McElhone, Jeremy Davies, Viola Davis, Ulrich Tukur, Morgan Rusler
Compositor: Cliff Martinez
Roteirista: Steven Soderbergh
Diretor: Steven Soderbergh

Enigma sedutor 

Novo filme do diretor de TRAFFIC é uma ficção científica lenta e cerebral, mas que poderá seduzir o espectador mais atento

Há pelo menos uma cena antológica em SOLARIS, do diretor Steven Soderbergh: ao falar sobre a descoberta do estranho planeta para seu amigo psiquiatra Chris Kelvin (George Clooney), o cientista Gibarian descreve: "Ao observarmos Solaris, ele reagia como se soubesse o que estávamos fazendo". Ao mesmo tempo em que essa fala é proferida observamos a bela Rheya (Natascha McElhone) desfilando sedutoramente na tela, reagindo ao olhar penetrante de Kelvin. Essa é a cena chave para a compreensão do filme como um todo, especialmente a sua conclusão. 

Mas, gostem ou não do resultado final, SOLARIS é mais uma prova da versatilidade e da coragem desse cineasta que não se cansa de surpreender ao buscar novas e diferentes fontes de inspiração para suas obras, ao invés de render-se a fórmulas de sucesso fácil. Basta lembrar que logo depois de realizar ERIN BROCKOVICH, um filme comercial feito para promover a celebridade Julia Roberts (em papel que lhe rendeu até um Oscar de melhor atriz!), Soderbergh dirigiu TRAFFIC, um pesado e inquietante drama sobre o tráfico de drogas - assunto que muitos considerariam como anti-comercial.

Baseado no livro do escritor polonês Stanislaw Lem, SOLARIS narra a história de um grupo de cientistas a bordo de estação espacial em órbita de um misterioso planeta, que parece ter vida própria e estranhos poderes a ponto de ser capaz de materializar sonhos e desejos dos tripulantes, levando todos à beira da loucura. Para tentar solucionar o enigma é enviado ao local o psiquiatra Kelvin, que passa também a sofrer com as aparições de sua falecida esposa. Essa trama já havia sido adaptada para os cinemas em 1972 pelo pretensioso cineasta russo Andrei Tarkovsky. Embora a nova versão também tenha um ritmo lento e bastante cerebral, as semelhanças entre as duas versões acabam aí. No primeiro filme predomina um clima árido e desprovido de emoção e sobram discussões filosóficas enigmáticas e enfadonhas, bem como intermináveis seqüências que nada acrescentam à trama (como um passeio de carro pelas ruas de Moscou que dura mais de cinco minutos!). Tudo isso prejudica a narrativa e aliena o espectador de tal forma que transforma a conclusão do filme em algo praticamente indecifrável (cuidado ao dizer isso perto de um pseudo-intelectual sensível, pois está arriscado a ouvir algo como "Você não entende de cinema: Tarkovsky é DEUS!"). 

Já Soderbergh, também autor do roteiro da nova versão, preferiu investir em um clima mais humano, dando maior ênfase ao relacionamento do casal central cujos encontros e desencontros são apresentados por meio de uma narrativa brilhante e totalmente convincente na qual presente, passado e futuro se misturam e se fundem sem nunca perder o fio da meada. Ao contrário da verborrágica fita de Tarkovsky, as questões levantadas pelo autor do livro - muitas delas relativas à própria natureza do ser humano - ficam perfeitamente claras e, portanto, relevantes tanto para a trama do filme quanto para o espectador mais atento. Nesses momentos, SOLARIS chega perto de tornar-se uma obra-prima da ficção científica. 

Pena que o filme caia um pouco quando surgem em cena os atores coadjuvantes Jeremy Davies (como Snow) e Viola Davis (na pele da comandante Gordon), pois ambos são muito fracos e destoam completamente do restante. O visual do planeta também deixa a desejar (ficou parecendo uma bexiga cor-de-rosa que brilha no escuro) e perde feio se comparado ao do filme de Tarkovsky, que era muito mais estranho e realmente perturbador. Muitos reclamam também da conclusão do novo filme, que difere da do livro e da primeira versão, mas a verdade é que ela em nada afeta o resultado final. Apenas demonstra que Soderbergh nutre maior carinho pelo seu protagonista e possui um sentimento de esperança mais acentuado em relação ao ser humano.

Quem procura algo mais no cinema do que simples diversão e entretenimento descerebrado pode e deve assistir SOLARIS. O restante certamente deve passar longe, já que não se trata de uma ficção científica que procura dar respostas ou mesmo soluções fáceis e didáticas. Assim como acrescenta um dos personagens acerca da natureza do enigmático planeta, o filme apresenta apenas escolhas. Coisa cada vez mais rara de se ver nos cinemas hoje dia...


Cotação:
****

André Lux
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