Texto e fotos por Tony Berchmans

À espera de mais uma atração

Dario Marianelli e Tony Berchmans

Marianelli interpreta ao piano suas obras

Hanz Zimmer apresenta Harry Gregson-Williams

A simpática solista Lisbeth Scott fascinou a platéia

O consagrado compositor Trevor Jones

Muito calor, sol, cidade repleta de turistas. Neste cenário de alto verão espanhol foi realizado, no período de 30/06 a 02/07/2006, o 1º Festival Internacional de Música de Cinema de Madrid, o SONCINEMAD 2006, que contou com a presença de alguns conhecidos compositores da atualidade, como Dario Marianelli, Hans Zimmer, Trevor Jones e Harry Gregson-Williams. Foi uma intensa programação com palestras, workshops, apresentação de filmes e concertos, que reuniu aficionados por música de cinema do mundo inteiro. Segundo a organização do evento, fui o único brasileiro a participar e confesso que foi uma experiência muito enriquecedora. Um festival como esse é uma mostra do grande fascínio que a música de cinema provoca, já que como diz o próprio livreto de apresentação “pelas veias do aficionado da música de cinema não corre sangue, e sim as notas das composições que estimulam sua paixão e fazer bater seu coração”. De toda a programação do festival destaco alguns pontos altos:

Workshops e Painéis

Lucio Godoy e Roque Baños - O evento foi aberto por um interessante bate-papo com dois dos mais representativos compositores espanhóis, Lucio Godoy e Roque Baños. Godoy assina a produção e orquestração de trilhas dos filmes
Mar Adentro e Os Outros (ambas compostas pelo diretor/compositor Alejandro Almenábar), Tudo sobre minha mãe, Carne Trêmula (filmes do famoso diretor espanhol Pedro Almodóvar), e composição de Não Se Mova e El Aura (último filme do diretor argentino Fabián Bielinsky, morto em São Paulo mês passado), entre outros. Godoy falou sobre sua carreira, sua relação com os diretores, sua paixão pela música de cinema e mostrou trechos do seu mais recente trabalho para o filme La Educación de las Hadas. Foi uma exposição muito interessante seguida pela breve apresentação do simpático Roque Baños, que apresentou trechos de sua última composição para o filme ainda inédito Alatriste, e interpretou ao piano temas deste filme.

Christopher Young - Na sequência, veio a apresentação do divertido compositor Christopher Young, que conquistou a platéia presente com seu estilo extrovertido. Apresentou trechos de filmes, exaltou sua paixão pela arte da composição musical pra cinema e revelou alguns detalhes de como os compositores são freqüentemente desrespeitados no grande cinema comercial de Hollywood. Sua apresentação teve um final emocionante quando Young mostrou um belíssimo trecho de uma de suas trilhas que fora rejeitado pelo diretor.

Harry Gregson-Williams e Hans Zimmer - O bate-papo entre estes dois importantes compositores contemporâneos despertou enorme interesse do público presente. Gregson-Williams estava tenso com os preparativos de seu concerto que realizaria à noite. Zimmer foi extremamente simpático, chegou no evento acompanhado de seu agente, sua filha Zoe e até de um segurança. Fizeram uma breve explanação de como se conheceram, como trabalham em conjunto (à la Media Ventures) e como encaram suas profissões. Assim que a organização do evento abriu o painel para perguntas da platéia, logo quiseram provocar polêmica. Um indivíduo da platéia disse que durante uma entrevista, Ennio Morricone teria declarado que não faria comentários sobre Hans Zimmer pois não o considerava um compositor de verdade. Passado o breve mal estar da provocação, pediu a palavra um outro membro da presente platéia. Era justamente o jornalista que entrevistou Morricone, que retificou a polêmica. Segundo o jornalista, quando questionado sobre o que ele achava de compositores novos como Hans Zimmer, Morricone disse apenas que preferia não comentar sobre outros compositores. Esclarecida a provocação, Zimmer pediu a palavra e fez um discurso sobre a diversidade de processos criativos, defendendo a importância da inspiração artística e do entendimento das necessidades do filme. Para ele, o método de composição utilizado por cada compositor é menos importante do que o resultado final do score. Cada compositor tem seu know-how e seu jeito de trabalhar, mas o importante é que a música venha do coração.

Dario Marianelli - A
masterclass de Dario Marianelli encantou os presentes por sua simpatia e talento. Além de contar como entrou para o mundo do cinema e de como se relaciona com os diretores e produtores, o compositor italiano tocou ao piano vários trechos de seus bem sucedidos scores de Irmãos Grimm, o indicado ao Oscar Orgulho e Preconceito e o mais recente V de Vingança. Relatou com detalhes o processo criativo e a inspiração de diversos temas e surpreendeu por seu talento como intérprete ao piano.

Apresentações e Concertos

Além dos workshops e painéis, foram apresentados muitos curtas-metragens participantes de oficinas de composição realizadas na capital espanhola. Diversos compositores e diretores apresentaram seus trabalhos e debateram sobre os processos e métodos de composição. O primeiro show do festival foi da cantora Lisbeth Scott, solista que participa freqüentemente de
scores em Hollywood, como Munich (John Williams), Paixão de Cristo (John Debney), Cruzada (Harry Gregson Williams) entre outros. Sua belíssima voz, técnica precisa e suas histórias sobre os compositores fascinaram o público presente.

Mas sem dúvida o grande atrativo do festival ficou a cargo de dois grandes concertos: O primeiro foi da Orquestra Sinfônica de Chamartín com o Coro Talía, interpretando obras de Harry Gregson-Williams (
Shrek, Cruzada, Crônicas de Nárnia, Fuga das Galinhas, etc) que assumiu a batuta durante um trecho do concerto, visivelmente nervoso. Williams não é um regente de formação e a orquestra não é das mais habilitadas para interpretar peças tão complexas quanto scores de cinema, com mudanças freqüentes de andamento e compasso, e movimentos orquestrais bizarros. Ainda assim, o concerto foi um grande sucesso. O público foi ao delírio em um momento da trilha de Shrek com os 150 integrantes do coro tocando Kazoo. Hans Zimmer fez uma breve apresentação do amigo no início do espetáculo. Ainda participaram como solistas os celebrados músicos Martin Tillman (violoncelo elétrico), Hugh Marsh (violino elétrico), Chris Bleth (duduk) e a própria Lisbeth Scott (cantora), todos participantes assíduos de gravações de film scores.

O segundo grande concerto foi tecnicamente impecável e contou com a Orquestra e Coro da Rádio e Televisão Espanhola (RTVE), uma das melhores da Espanha, interpretando obras do compositor sul-africano Trevor Jones (O Último dos Moicanos, Risco Máximo, etc.) que regeu o concerto na íntegra. A excelente interpretação da orquestra aliada à perfeita acústica do Teatro Monumental de Madrid e à grandiosa música de Jones transformaram o concerto em um espetáculo realmente maravilhoso, ainda que o estilo de composição de Jones não seja o meu preferido pessoalmente. Após o bis, o público de 1600 pessoas que lotava o teatro não conseguia parar de aplaudir. Antes do concerto eu estava lamentando que ia perder o jogo do Brasil x França, já que os dois aconteceriam exatamente no mesmo horário. Mas como bem me consolou um dos organizadores do festival, “você vai ver o Brasil jogar muitas vezes, mas um concerto como esse é único...”. E pelo que foi o jogo, realmente não perdi nada.

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