por Tony Berchmans

O colaborador do ScoreTrack e curador do MÚSICA EM CENA, Tony Berchmans, novamente foi à Espanha para participar de mais uma edição deste prestigiado evento.

Mais um intenso verão espanhol. Muito calor, dias ensolarados, cidade repleta de turistas. Cenário do SONCINEMAD 2007 - 2º Festival Internacional de Música de Cinema de Madrid. O evento, realizado nos dias 29, 30 de junho e 1º de julho, teve como ponto alto o concerto sinfônico do compositor americano Alan Silvestri. Regendo a Orquestra Filarmonía e o Coro Sinfônico da RTVE (Rádio e Televisão Espanhola), Silvestri apresentou suítes de seus grandes sucessos do cinema, como De Volta para o Futuro, Náufrago, Expresso Polar e Forest Gump. A ótima acústica do Teatro Monumental de Madrid ajudou o belíssimo espetáculo, somente atrapalhado por um trompista que não estava num bom dia. Salvo algumas notas fora da primeira trompa, o concerto foi muito bom e arrancou fortes aplausos da platéia. Silvestri abriu com chave de ouro com uma suíte da trilogia De Volta para o Futuro, que misturou os temas e trechos dos três episódios.  A última peça do programa foi  uma emocionante suíte de Forrest Gump. No bis, tocou a música do filme Beowulf, ainda não lançado. Os maiores sucessos de Silvestri, citados acima, foram trabalhos para os filmes de seu grande parceiro, o diretor Robert Zemeckis.

As demais atividades do festival aconteceram no Kinépolis, o maior complexo de salas de cinema do mundo, segundo o Guiness Book. Localizado na “Ciudad de la Imagen”, um moderno subúrbio planejado da capital espanhola, o Kinépolis conta com 25 salas de cinema. Uma delas sediou uma série de palestras, inaugurada pelo homenageado especial do festival, Christopher Young, compositor americano autor de trilhas como
Armadilha, A Senha, Homem-Aranha 3 e Hurricane, entre outros. Em sua apresentação, Young descreveu com muita simpatia e paixão todo o processo de composição e produção da música de Homem-Aranha 3. Mostrou vários trechos de sua música, inclusive alguns rejeitados pelo diretor e que tiveram alterações posteriores.

Na minha opinião a melhor palestra foi ministrada por Gabriel Yared, que com muita objetividade e clareza apresentou seu ponto de vista sobre a concepção da música de um filme, seu processo de trabalho, e sua relação com a indústria e com os diretores. Destacou a dificuldade que enfrentou após ganhar o Oscar com
O Paciente Inglês. Seu nome ficou rotulado como compositor “romântico”, e esse estigma o assombrou por um bom tempo. Os outros compositores palestrantes foram os espanhóis Ángel Illarramendi e Carles Cases, o inglês atualmente radicado na Austrália Christopher Gordon, o japonês Shigeru Umebayashi e o sul-africano Trevor Jones, que fez um grande concerto sinfônico na primeira edição deste festival, ano passado. Infelizmente foram canceladas de última hora as esperadas palestras de Alan Silvestri e David Shire.

O simpático Illarramendi (conhecido fora de seu país pelas trilhas de
O Filho da Noiva e Clube da Lua) falou sobre seu método de composição e ilustrou sua apresentação com trechos dos seus recentes trabalhos para os filmes Teresa, O Corpo de Cristo e Los Borgia. Pouco conhecido por aqui, o catalão Carles Cases é considerado um dos mais inventivos compositores espanhóis da atualidade, e durante a palestra apresentou sua obra bastante eclética com forte influências de jazz e música contemporânea. Seu estilo versátil o permitiu compor para filmes tão diversos como Anita não perde o Trem e A Sétima Vítima.

Christopher Gordon atua principalmente como regente e orquestrador, e sua carreira está mais dedicada a trabalhos de televisão. No cinema, um de seus trabalhos recentes de destaque é a musica de
Mestre dos Mares. O japonês Shigeru Umebayashi é parceiro do badalado diretor Wong Kar Wai, com o qual trabalhou em Amor à Flor da Pele e 2046. Sua palestra foi quase arruinada por uma apresentação desastrosa de um jornalista espanhol e por uma fraca tradutora. Ainda assim Shigeru conseguiu expressar sua paixão pela música de cinema, bem como sua versatilidade que vai dos temas de filmes românticos até trilhas de ação como Clã das Adagas Voadoras e A Maldição da Flor Dourada.

Trevor Jones, compositor de temas grandiosos como
O Último dos Moicanos e Risco Total, voltou ao festival depois do grande sucesso de seu concerto na edição do ano passado. Apesar de seu estilo melódico sinfônico bastante característico, Jones provou que conseguiu fugir de rótulos durante sua carreira, e detalhou com bastante calma e simpatia seus sentimentos pela profissão. Além das palestras foi ainda realizado no Kinépolis um concerto interpretado por uma orquestra de câmara. O repertório foi uma coletânea de peças de cinco dos compositores participantes do festival: Ángel Illarramendi, Carles Cases, Christopher Gordon, Christopher Young e Gabriel Yared. Na minha opinião o destaque deste concerto foi a belíssima suíte de O Paciente Inglês, em que Yared se dividiu entre o piano e a batuta.

O festival reúne um público fanático pela música de cinema, e por isso, além das palestras e concertos, promove sessões de autógrafos de discos, colocando às vezes os compositores numa desconfortável posição de "pop stars". Por outro lado, como falou Silvestri nos agradecimentos do concerto, os compositores vivem em seus estúdios, isolados dos apreciadores de sua tão específica arte. Assim, essas oportunidades de contato do compositores com o público são muito emocionantes. Vida longa a mais um grande evento que celebra a magia da música de cinema!

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