O Spaghetti Western

Clint Eastwood
O Bang-Bang à italiana ou Spaghetti Western, como é popularmente conhecido o faroeste feito na Itália, teve início na década de 60, quando a combalida indústria cinematográfica daquele país resolveu faturar com um gênero já consagrado mundialmente e que há décadas vinha sendo produzido unicamente nos Estados Unidos. Surpreendentemente, essa visão européia do Velho Oeste revelou-se bem mais crua e verdadeira que a dos filmes americanos, nos quais os heróis, limpos e barbeados, eram exemplos de virtude. Graças ao padrão estabelecido pelos primeiros diretores italianos que se aventuraram no gênero, especialmente pelo falecido Sérgio Leone em sua trilogia com Clint Eastwood, as tramas se desenvolviam de maneira mais direta, com um clima sombrio e tendo a vingança como temática principal. O "mocinho" era quase sempre sujo, mal vestido, com motivações misteriosas e poucos escrúpulos, enfrentando vilões protegidos por um exército de bandoleiros, em cidades imundas e hostis.

Este novo enfoque estimulou os compositores italianos a fugir da pompa e das grandes orquestras, estilo consagrado em Hollywood por mestres como Alfred Newman e Elmer Bernstein. O grande precursor da música Western italiana foi Ennio Morricone, conhecido com "Il Maestro". Morricone traçou um estilo próprio para compor a música de um Spaghetti, com a utilização de assovios melódicos, corais estranhos, flauta e guitarra. Seu primeiro clássico foi a música para o inesquecível Por Um Punhado de Dólares, que seria seguido por Por Uns Dólares a Mais e Três Homens em Conflito, todos de Sérgio Leone. Aliás, esta trilogia, além de consagrar o faroeste italiano e seu diretor, também consolidou as carreiras de Eastwood e Morricone.

Seguindo os passos do Maestro, surge uma nova geração de compositores, que juntamente à fórmula já estabelecida, mostrariam nas telas um estilo próprio de compor. Despontam nesse cenário os nomes de Francesco de Masi, Riz Ortolani, Bruno Nicolai e Luiz Bacalov, entre outros que comporiam basicamente na mesma linha traçada por Morricone, encantando ainda mais os fãs do faroeste com suas trilhas inesquecíveis, imortalizando pistoleiros que despontaram no auge do Spaghetti, como Ringo, Django, Trinity e Sartana. Encarnando estes heróis, uma variedade de atores americanos e italianos então desconhecidos ou que não teriam chance no mercado americano: Clint Eastwood, Lee Van Cleef, Franco Nero, Giuliano Gema, Terence Hill. O Dólar Furado, Era Uma Vez no Oeste e Meu Nome é Ninguém foram alguns dos filmes que abriram ainda mais o mercado Spaghetti para os compositores que já começavam a se destacar no cenário mundial da música cinematográfica. Morricone e alguns colegas, graças à fama alcançada no faroeste italiano, começaram a compor para várias produções de gêneros diversos, tanto na Europa como nos Estados Unidos.

Terminada a década de 60, e já em meados da de 70, o gênero foi desaparecendo gradualmente das telas, dando lugar a novas tendências (policiais, Kung-Fu). Para o cinema italiano, foi o fim de seu período mais popular e rentável. Após ficar esquecido por longos anos, ironicamente o cinema americano, que fornecera a base para o Spaghetti, prestaria uma "homenagem" ao estilo italiano de se produzir faroestes com o filme Rápida e Mortal, dirigido por Sam Raimi e com Sharon Stone no papel principal. Esta produção trouxe de volta às telas o conhecido cenário árido, narrando mais uma vez uma história crua, tendo a vingança como pano de fundo. A trilha sonora foi composta por Alan Silvestri, que em seu tema principal adotou o mesmo estilo que Morricone criara décadas atrás. Infelizmente, a fraca repercussão do filme demonstrou que, definitivamente, o Spaghetti Western já fora explorado à exaustão. Tomemos por exemplo o fraco A Volta de Trinity, que mesmo considerando-se que o original já era uma comédia, é uma mera sombra de seus predecessores.

De qualquer modo, o gênero dificilmente será esquecido, assim como a inegável contribuição dos compositores italianos para a música da sétima arte.

Celso Ávila

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