O NÚCLEO - MISSÃO AO CENTRO DA TERRA (The Core, EUA, 2002)
Gênero: Ficção Científica, Drama
Duração: 134 min.
Estúdio: Paramount
Elenco: Aaron Eckhart, Nicole Leroux, Hilary Swank, Delroy Lindo, Stanley Tucci, DJ Qualls, Tchéky Karyo, Richard Jenkins
Compositor: Christopher Young
Roteiristas: Cooper Layne, John Rogers
Diretor: Jon Amiel

Núcleo de clichês 

Falência criativa do gênero "catástrofe" fica evidente nessa produção divertida, mas ofensivamente absurda e derivativa

O NÚCLEO é, antes de qualquer coisa, um filme-pipoca, puro entretenimento, daqueles sem qualquer pretensão nobre, a não ser a de deixar o espectador atônito e sem fôlego sequer para pensar. E não se engane: isso é um elogio. Visto dessa forma, é óbvio que ele atinge ao menos alguns de seus objetivos. Mas, verdade seja dita, o cinemão americano parece mesmo estar totalmente esgotado de idéias para promover emoções descerebradas na audiência. 

Talvez seja por isso que a trama de O NÚCLEO impressione tanto. Não por sua grandiosidade ou novidade, muito menos pela sua credibilidade, já que é um primor de absurdos, a ponto de deixar geólogos do mundo todo espumando de raiva por causa das suas teorias risíveis. Mas sim pela óbvia constatação de que já não existe mais o que ser feito nesse filão, que foi tão explorado e reciclado a ponto de deixar um vácuo criativo abismal. Trocadilho à parte, talvez seja por isso que os realizadores voltaram-se para o próprio núcleo do planeta. É de lá que, desta vez, vem a ameaça do fim do mundo! 

Não há muito que dizer do roteiro. É clichê em cima de clichê. Aquela velha história de juntar um grupo de cientistas e militares altamente qualificados, cada um com uma função específica, que deverão descobrir um meio de salvar a Terra. É claro que os personagens coadjuvantes vão morrer de uma forma ou de outra e sempre se sacrificando para o "bem da humanidade". Há também a sub-trama que envolve militares "vilões", o hacker com cara de nerd que consegue entrar em todos os computadores do mundo, etc. Ou seja, nada de novo, mas também nada que irrite demais. Afinal, quem entra no cinema para ver esse tipo de filme já sabe o que vai encontrar. 

O NÚCLEO acaba sendo valorizado pelo bom elenco (onde os destaques são Delroy Lindo e Stanley Tucci, ambos bastante divertidos no papel de "cientistas-malucos") e também pela direção de Jon Amiel que, ciente de sua limitação para realizar grandes cenas de impacto (vide o raquítico A ARMADILHA), volta seu foco para o relacionamento entre os personagens, o que até provoca alguns bons momentos. Entretanto, é inegável que se trata de um filme menor, feito com poucos recursos financeiros e mínima criatividade. Isso fica mais do que evidente na cena da destruição de Roma, totalmente tosca, e também na pobreza do desenho de produção, que copia descaradamente elementos de vários outros filmes - a nave é igual aos vermes de DUNA, de David Lynch, o núcleo lembra as "tempestades espaciais" de STAR TREK e assim por diante. Era para ser homenagem, mas é tudo tão evidente e mal realizado que vira mero plágio. 

O mesmo vale para o roteiro, uma colagem sem-vergonha de todos os "disaster-movies" já feitos - de OS PÁSSAROS a VIAGEM FANTÁSTICA, até ARMAGEDDON. Isso sem falar na fonte de "inspiração" mais óbvia: o livro "Viagem ao Centro da Terra", de Júlio Verne, que ao menos poderia ter sido citado em algum momento do filme, nem que fosse para homenagear essa obra clássica que, no final das contas, é muito mais inacreditável e ingênua que o filme em questão, mas (talvez por isso mesmo) bem mais divertida e marcante. E quanto mais perto chegam do núcleo (tanto da narrativa, quanto do planeta), mais absurdo e inverossímil (como se isso fosse possível!) o filme fica. A conclusão, então, não dá pra engolir nem mesmo desligando todos os neurônios do cérebro, de tão ridícula. É "suspensão de crença" demais, mesmo para um filme desse tipo! 

E é também mais uma prova que Hollywood não tem mais o que inventar. Só resta agora esperar para descobrirmos qual será a próxima "ameaça" que vai destruir a Terra. Um Saddan Hussein geneticamente alterado com 50 metros de altura, talvez? Infelizmente, a realidade atual é mais absurda e chocante do que qualquer "disaster-movie". Quem viver, verá...

Cotação: **½

André Lux
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