TODO PODEROSO (Bruce Almighty, EUA, 2003)
Gênero: Comédia
Duração: 101 min.
Elenco: Jim Carrey, Jennifer Aniston, Morgan Freeman, Lisa Ann Walter, Mark Adair-Rios, Sydney Anderson, Catherine Bell, Brady Benson
Compositor: John Debney
Roteiristas: Steve Koren, Steve Oedekerk, Mark O'Keefe
Diretor: Tom Shadyac

Ele é Deus

Jim Carrey volta ao gênero que o consagrou, mas a comédia dá lugar à pieguice em uma mistura que se torna indigesta para o espectador

Sempre considerado um dos maiores comediantes da atualidade, Jim Carrey continua tentando o sucesso em produções "dramáticas" - desde sua estréia no gênero em 1998, com o ótimo O SHOW DE TRUMAN, até o recente CINE MAJESTIC, Carrey sempre fez bons trabalhos longe de sua origem, nas mãos de diretores de primeira linha (Milos Forman, Frank Darabont, Peter Weir), mesmo negligenciado pela crítica.

Enquanto aguarda sua nova oportunidade, BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS (roteirizado por Charlie Kauffman) ele reatou a antiga parceria com Tom Shadyac (O MENTIROSO, ACE VENTURA) para levar às telas uma comédia baseada em um tema interessante, porém sem originalidade: A chance de se tornar Deus e, com isso, mudar o mundo. Aqui ele interpreta Bruce Nolan, um sujeito que atravessa uma fortíssima maré de azar: perde o cargo de âncora na sua emissora de televisão e, conseqüentemente, o emprego, cai em poças d'água, briga com a namorada e sempre culpa Deus por tudo aquilo de ruim que acontece. Até que o "Todo Poderoso" (Morgan Freeman) se revolta e acaba dando a Bruce o direito de assumir seu lugar por uma semana.

Torna-se, portanto, inevitável a comparação com o nacional DEUS É BRASILEIRO, comédia simpática mas desprovida de qualquer tipo de emoção ou originalidade. TODO PODEROSO, por sua vez, parece mais um filme-exibição de Jim Carrey, que sapateia em cima da total ausência de criatividade no roteiro, escrito a seis mãos. No primeiro ato há uma sucessão de situações e clichês extremamente inconseqüentes para tentar fazer com que o espectador fique preso à trama. O problema é que ela é tão mal amarrada e frouxa que simplesmente não desperta a atenção, até que acontece a concepção dos poderes a Carrey.

É exatamente aí que TODO PODEROSO tem seu melhor momento: as gags baseadas no poder de Bruce são realmente engraçadas, e Carrey sente-se totalmente à vontade para fazer suas caretas e conduzir o filme. Assim, o público consegue dar suas boas risadas e esquecer dos demais aspectos, onde a fita falha bisonhamente. Isso porque a direção de Shadyac, conhecido autor de bombas do gabarito de PATCH ADAMS, é medíocre, não ajuda nem no ritmo nem no desenvolvimento da projeção. O roteiro serve apenas para as piadas, sendo que não há, até aí, nenhuma conjunção de situações que possa ser considerada decente.

Mas por estar sendo engraçado, TODO PODEROSO ainda era tolerável como filme-pipoca. Até que as geniais mentes dos roteiristas resolveram transformar o filme em um sub-PATCH ADAMS, com uma interminável e insuportável lição de moral ao final: "Reze para Deus, siga tudo o que ele disse, respeite o próximo e outras coisas parecidas". Torna-se piegas, tentando copiar dramas do passado. E, assim, rui a última esperança de termos algo agradável.

Difícil acreditar, portanto, que um ator como Carrey, que fazia comédias extremamente engraçadas e anárquicas (como O MÁSKARA) e dramas com algum lado social (O SHOW DE TRUMAN) ou apenas belos (CINE MAJESTIC) conseguiu dar tamanha bola fora - TODO PODEROSO, ao final de sua projeção, revela-se uma indigesta tentativa de propagar bons fluídos de religião entre o público. Caso contrário, é pieguice desnecessária e altamente comprometedora, que não é recomendável para ninguém.

Cotação:
Carlos Massari
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