EM DEFESA DA MÚSICA DO CINEMA


Morricone no concerto de São Paulo

Não pude estar presente no concerto de Ennio Morricone em São Paulo e, portanto, qualquer comentário sobre a apresentação em si seria jornalisticamente irresponsável. Mas me permito rebater as críticas que a música de cinema recebeu da imprensa paulista nas matérias a respeito da atração apresentada na noite de segunda-feira, 24 de março de 2008, no Teatro Alfa.

Estou cansado dessa ladainha arrogante, elitista, desinformada e contraditória que os críticos de música “clássica”, geralmente designados para esse tipo de cobertura, disparam cada vez que o assunto trilhas sonoras vem à tona. Ninguém tem obrigação, claro, de ser fã de Morricone ou quem quer que seja. O problema é difamar artistas sérios com argumentos frágeis e preconceituosos, que não condizem com a importância dos veículos nos quais são publicados.

Por que essa implicância com os músicos de cinema? Apenas compositores mortos há 300 anos são capazes de criar trabalhos orquestrais de qualidade? Ou o “pecado” é escrever para filmes, entretenimento popular que pode ser apreciado no shopping, com um saco de pipoca na mão, entre um beijo e outro na namorada?

Seja qual for a acusação, é resultado de falta de conhecimento sobre o assunto e amnésia. Bach também escrevia por encomenda. Strauss também escrevia música programática e descritiva. Haydn também produzia em escala industrial (mais de 100 sinfonias). Prokofiev e Vaughan Williams, entre outros, também musicaram filmes. Instrumentistas como Leonard Pennario e Itzhak Perlman gravaram trilhas sonoras.

Quanto à recorrente reclamação de falta de originalidade, também é injusta. Sim, compositores de cinema foram influenciados – qual artista não é? – pelos mestres do passado, mas desenvolveram estilo próprio, que qualquer um familiarizado com suas obras é capaz de reconhecer. Sim, existem trilhas plagiadas da música erudita, mas são casos isolados, diante da quantidade de composições singulares e memoráveis.

No entanto o que mais incomoda, aparentemente, os detratores do gênero, é o sentimentalismo e a simplicidade das melodias. Talvez o cinismo e a insensibilidade que assolam o mundo tenham deixado algumas pessoas envergonhadas de expôr suas emoções. A acessibilidade e o forte apelo emocional da maioria das trilhas sonoras é conseqüência das exigências do veículo (predominantemente escapista) e do background de pioneiros como Korngold e Steiner, discípulos da tradição romântica européia. Será que alguém ousaria atacar os inquestionavelmente sentimentais e acessíveis Chopin, Tchaikovsky, Rachmaninov ou Elgar? Só tem valor o que é compreendido por meia dúzia?

Mas os críticos de cinema também são culpados. Nas análises do recente Desejo e Reparação, alguns jornalistas disseram que a música, onipresente e melosa, estragava o filme. Acho justamente o contrário. Os temas de Dario Marianelli fortalecem a história, dando-lhe maior dimensão trágica e proporcionando uma experiência comovente. Onde, atualmente, pode se ouvir música instrumental e original dessa beleza e capricho?

Mas não é de hoje (e não apenas no Brasil) que críticos de cinema são surdos à imensa contribuição dada pelas trilhas sonoras à Sétima Arte. O consagrado autor americano Roger Ebert, premiado até com um Pulitzer por suas críticas, discorreu sobre E o Vento Levou sem nunca mencionar a magnífica trilha de Max Steiner. Façanha como essa também mereceria um prêmio.

Fábio Scrivano
 

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