TROPA DE ELITE (Brasil, 2007)
Gênero: Aventura, Drama
Duração: 118 min.
Elenco:
Wagner Moura, Caio Junqueira, André Ramiro, Milhem Cortaz, Fernanda de Freitas, Fernanda Machado, Thelmo Fernandes, Maria Ribeiro, Emerson Gomes, Fábio Lago, Paulo Vilela, André Mauro,
Compositor: Pedro Bromfman
Roteiristas: Rodrigo Pimentel, Bráulio Mantovani, José Padilha
Diretor:
José Padilha

Um novo rumo

O filme policial de José Padilha prova que é possível fazer cinema de gênero de excelente qualidade no país, e com cenas de ação de tirar o fôlego

Numa das cenas de TROPA DE ELITE (2007), André, o personagem de André Ramiro, dança numa festa com uma colega da faculdade. Ele é dos poucos policiais que insiste em fazer faculdade de Direito. Enquanto eles dançam ao som de "Shiny Happy People", do R.E.M., o DJ bota pra tocar "Polícia", dos Titãs, na pick-up. Obviamente ele não gosta nada. André, como jovem membro do BOPE, acredita no seu trabalho, acredita que existe honestidade na força policial e que a visão burguesa que os seus colegas têm da polícia é bem superficial.

TROPA DE ELITE é um dos poucos filmes brasileiros a mostrar o ponto de vista dos policiais. Estamos acostumados a ver nos nossos filmes a visão dos bandidos, dos traficantes ou daqueles que moram nos morros do Rio de Janeiro ou na periferia de São Paulo, e sofrem com a rotina de violência. Com a situação alarmante de guerra civil noticiada todos os dias nos telejornais, a população, mesmo as das classes média e alta, as principais consumidoras das drogas vendidas pelos traficantes, sabe que algo precisa ser feito.

Talvez TROPA DE ELITE seja o começo de um retrocesso na maneira de ver da sociedade ou da mídia. Talvez estejamos voltando aos tempos em que ser "subversivo" era coisa de bandido, e não um termo usado para designar pessoas ousadas e corajosas a ponto de peitar o sistema e os tabus da sociedade. Ser maconheiro, então, era um crime gravíssimo. E é por isso que o filme é acusado por muitos de fascista, de tentar trazer de volta os anos negros da ditadura militar. E talvez tocar "Lado B Lado A", d'O Rappa, nos créditos finais, seja uma maneira de equilibrar um pouco a balança "polícia versus habitante do morro", já que as canções da banda costumam se solidarizar com as comunidades dos morros, inclusive os "olheiros", os "fogueteiros" etc.

É praticamente impossível deixar de lado a questão social do filme, mas é sempre bom lembrar que estamos diante de um dos melhores, senão o melhor filme policial já feito no Brasil. José Padilha, estreando na ficção depois do documentário ÔNIBUS 174 (2002), que agora está sendo dramatizado pelas mãos de Bruno Barreto, provou que é possível fazer cinema de gênero de excelente qualidade no país e com cenas de ação de tirar o fôlego. A sua experiência como documentarista contribuiu para tornar o filme ainda mais realista, com direito até a sangue na lente numa determinada cena. Tudo bem que o Brasil já produziu filmes policiais de primeira linha e com a nossa cara nos anos 70, mas infelizmente as novas gerações desconhecem.

Wagner Moura é a alma do filme como o Capitão Nascimento, o homem que sofre de ataques de pânico e tem uma mulher grávida (Maria Ribeiro) em casa, que insiste para que ele saia do BOPE. O fato de o filme mostrar o lado frágil de Nascimento torna-o mais humano e não apenas uma versão brasileira de um Chuck Norris, ou qualquer outro herói ou anti-herói do cinema americano. Se há algo para se falar contra TROPA DE ELITE do ponto de vista narrativo talvez esteja na maneira superficial como é mostrado o vilão, o traficante Baiano (Fábio Lago). Porém, se o filme tentasse abordar mais a fundo o personagem, talvez isso comprometesse o ritmo - um dos maiores méritos do filme é a sua edição ágil. Não cheguei a ver a cópia pirata, mas gostei também da cronologia adotada. A cena do treinamento, em flashback, lembra bastante NASCIDO PARA MATAR, de Stanley Kubrick.

Quanto ao vazamento das cópias piratas nos camelôs e na internet, o fato de isso ter sido usado como marketing para o filme só foi possível porque TROPA DE ELITE é bom e de apelo popular. Se fosse ruim, passaria desapercebido. E é sabido que as classes mais pobres já perderam o hábito de ir ao cinema há muito tempo, e essa é uma chance de elas participarem dessa discussão, desse verdadeiro acontecimento que pode mudar o rumo não apenas do cinema brasileiro como também influenciar a maneira como o povo pode passar a enxergar a guerra entre polícia e bandido. Para o bem e para o mal.

Cotação:
Ailton Monteiro
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