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VANGELIS

Trabalhos de Vangelis comentados no ScoreTrack:

Alexander
A Música de Blade Runner

Jorge Saldanha

Muitos foram os percalços e dificuldades enfrentados por Ridley Scott na produção do seu moderno clássico da FC, Blade Runner. Nenhuma discussão ou polêmica, contudo, houve quanto à escolha do compositor que criaria uma das mais climáticas músicas da história do cinema: Vangelis, que à época (1982), já era um renomado compositor e tecladista, especializado em música instrumental. Através de melodias interpretadas nos mais variados teclados eletrônicos, Vangelis mostrou-se capaz de criar verdadeiras imagens sonoras, característica que torna sua música perfeita para o cinema (meio para o qual vem compondo desde os anos 70). Seu trabalho hoje pode ser classificado como "new age", apesar de sua música preceder - e até mesmo transcender - a este gênero.

Nascido como Evangelos Odyssey Papathanassiou em 29 de março de 1943 na Grécia, ele começou a tocar piano aos 4 anos de idade, dando seu primeiro concerto, com músicas próprias, apenas 2 anos mais tarde. Nos anos 60 mudou-se para Paris, onde formou a banda de rock progressivo "Aphrodite's Child", que tornou-se muito popular. Algum tempo depois estabeleceu-se em Londres, e após a dissolução do grupo, em 1970, Vangelis iniciou sua rica carreira solo. Apesar da base de sua música ser formada por teclados (piano, sintetizadores, órgão, etc.), o compositor também toca flauta, bateria, xilofone e diversos instrumentos de percussão. Vangelis raramente apresenta-se em público ou dá entrevistas. Seu local preferido é o estúdio, onde compõe e grava álbuns solo ou com parceiros como Demis Roussos e Jon Anderson, bem como trilhas sonoras. Dificilmente alguém não conhece suas músicas: além dos filmes, elas são freqüentemente usadas como trilhas de comerciais. A trilha de Carruagens de Fogo (1981) valeu ao seu compositor um Oscar, e praticamente virou um hino para os Jogos Olímpicos. Na famosa série de TV Cosmos foram usadas muitas composições de Vangelis, principalmente do álbum "Heaven and Hell" (1975). Tendo realizado suas principais trilhas para Ridley Scott, Costa Gavras e cineastas de vários países, Vangelis inicialmente compôs para filmes franceses. Nos anos 70, ele compôs para, entre outros filmes, Salut, Jerusalem, L'Apocalypse Des Animaux, Crime and Passion, La Fete Sauvage e Entends-Tu les Chiens Aboyer.

Na década de 80, até agora o auge de sua carreira, vieram Carruagens de Fogo, Blade Runner, Desaparecido, Pablo Picasso, Antártica, O Ano em que Vivemos Perigosamente, O Grande Motim, etc. Nos anos 90, com a volta das trilhas orquestrais, a música de Vangelis ficou um pouco esquecida, porém fez-se presente em 1492: A Conquista do Paraíso e Lua de Fel. Mas, sem dúvida alguma, foi através de sua parceria de 1982 com Ridley Scott que o músico grego obteve sua maior consagração de público e crítica, até agora. As imagens sombrias e melancólicas de Blade Runner, que descrevem o caminho do caçador de Andróides Rick Deckard rumo a uma nova visão da vida, esteja ela em um corpo orgânico ou sintético, foram a gênese de uma música mais do que inspirada de Vangelis. É interessante notar que grande parte das gravações originais desta trilha, apesar de sua qualidade e popularidade, estiveram inéditas em CD até 1994. Aparentemente por uma destas discordâncias contratuais tão comuns no meio artístico, as gravações de Vangelis não puderam à época ser lançadas, apesar de, nos créditos finais do filme, constar que a trilha estava disponível em álbum da Polydor. Deste modo, para viabilizar o lançamento de um álbum, o compositor e maestro Jack Elliot foi contratado pela Warner para supervisionar uma nova gravação com a New American Orchestra, que foi enriquecida por renomados músicos de jazz como Ian Underwood, Chuck Findley, Richard Tee e Tom Scott (saxofone em "Love Theme"). Os arranjos e orquestrações estiveram a cargo de Pat Williams e Eddie Karam.

Descontada uma que outra edição pirata, esta era a única versão da trilha até então existente. Em 1989, a Polydor lançou o álbum "Themes", onde ao lado de músicas de seus álbuns solo e faixas de trilhas até hoje inéditas (Desaparecido, O Grande Motim), finalmente apareceram as versões originais de "End Titles", "Love Theme" e "Memories of Green", de Blade Runner. Feita a inevitável comparação, foi constatado que, descontada a qualidade do álbum da Warner, este não havia conseguido capturar por completo a beleza e a melancolia presentes na música de Vangelis. Em 1993, quando Ridley Scott conseguiu lançar a versão do diretor de Blade Runner, em momentos essenciais do filme pudemos ouvir a trilha sonora sem a dispensável narração de Harrison Ford, acrescentada pelos produtores em 1982. Assistindo-se a esta versão nota-se que, na cena da morte do replicante vivido por Rutger Hauer, todas as explicações que os produtores quiseram verbalizar sempre estiveram presentes na versão original do filme: basta que se reverencie a morte serena de Hauer ouvindo atentamente à belíssima "Tears In Rain", que emoldura a cena. Este "aperitivo" só fez aumentar a fome pela versão original da trilha, que finalmente chegou em CD da Atlantic, em 1994. Apesar de não conter 100% da música, o CD possui o essencial, ao lado de três novas faixas compostas para trechos do filme que não possuem música de fundo ("Blush Response", "Wait for Me" e "Rachel´s Song"). Apesar de algumas faixas possuírem, em sua introdução, diálogos extraídos do filme (recurso discutível que está tornando-se comum), é uma satisfação ouvir aos arranjos originais de músicas como "Blade Runner Blues", cujo solo de teclado fora substituído por trumpete, na interpretação da New American Orchestra. Caso você não possua este álbum, compre-o. Afinal, se Blade Runner hoje é um clássico, muito do mérito deve ser dado ao trabalho de Vangelis, que compôs melodias que tocam a alma de quem assiste ao filme.

Filmografia de Vangelis, cortesia de Internet Movie Database

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