MARCAS DA VIOLÊNCIA (A History of Violence, EUA, 2005)
Gênero: Suspense
Duração: 96 min.
Elenco: Viggo Mortensen, Maria Bello, Ed Harris, William Hurt, Ashton Holmes, Peter MacNeill, Stephen McHattie, Greg Bryk, Sumela Kay, Kyle Schmid, Deborah Drakeford
Compositor: Howard Shore
Roteirista: Josh Olson
Diretor: David Cronenberg

A Volta de Cronenberg

Em seu novo trabalho, o diretor cult David Cronenberg torna mais evidente uma maturidade de estilo que somente os grandes mestres adquirem

David Cronenberg está de volta. E com um de seus melhores trabalhos. Depois de ter usado um ritmo excessivamente arrastado e sonolento em seu SPIDER - DESAFIE SUA MENTE (2002), o diretor, apreciador de tipos estranhos, se utiliza novamente de uma certa lentidão para narrar a história de Tom Stall (Viggo Mortensen), homem que tem a sua rotina pacata de pai de família alterada depois que ele se transforma num herói nacional, ao matar com surpreendente agilidade dois assassinos que ameaçavam a tranqüilidade de seu café. A fama de herói de Tom se espalha através dos jornais e da televisão. Um dia, chegam em seu estabelecimento dois sujeitos que dizem conhecê-lo. Ele teria um passado negro desconhecido de todos da cidade.

O filme é talvez o mais compacto e econômico das obras de Cronenberg. Tão econômico quanto um Clint Eastwood ou um Alfred Hithcock. Durando apenas 96 minutos, MARCAS DA VIOLÊNCIA (2005) não possui nenhuma cena supérflua, nada desnecessário. Seu rigor narrativo e a bela construção dos enquadramentos torna cada vez mais evidente uma maturidade no estilo que só os grandes mestres adquirem. Nesse filme, em especial, ele também subverte a ordem dos clímaxes.

Suas obsessões por coisas orgânicas aparecem aqui de forma mais sutil. Embora não se possa chamar de sutil as cenas que envolvem tiros e sangue. Foi-se o tempo em que a gente assistia faroestes onde um sujeito levava um tiro e apenas caía do cavalo ou de cima de um telhado, sem traços de derramamento de sangue. O cinema de hoje adota uma violência mais gráfica. Os tiros que Tom dá em seus inimigos arrancam pedaços de seus rostos, num trabalho de maquiagem excepcional.

Mas, voltando às suas obsessões, um suposto homossexualismo sempre foi um assunto que de vez em quando surgia nas discussões sobre a obra cronenberguiana. Basta lembrar dos orifícios em formas de ânus de EXISTENZ (1999), o ânus que fala de MISTÉRIOS E PAIXÕES (1991) e as relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo em CRASH - ESTRANHOS PRAZERES (1996). Tenho um amigo que diz que o tema do homossexualismo está presente em MARCAS DA VIOLÊNCIA através de símbolos. Nesse caso, abaixo das camadas superficiais, o filme seria sobre alguém tentando fugir de seu passado gay, escondendo-se numa comunidade ortodoxa americana. A segunda cena de sexo com Maria Bello seria, então, uma espécie de auto-afirmação masculina. Não deixa de ser uma teoria interessante.

Ainda em relação a Maria Bello, a cena que mostra rapidamente a ferida em suas costas, resultado do sexo na escada, é puro Cronenberg, numa espécie de auto-homenagem. A primeira cena de sexo do filme é belíssima. Acho que foi a primeira vez que vi uma cena de "meia-nove" romântica, cheia de ternura, pouco intoxicante. Chega a ser impressionante a forma como Cronenberg equilibra essa ternura com uma violência tão brutal que até parece que faz pingar sangue em nossa roupa. Um dos melhores filmes do ano, sem dúvida.

Cotação:
Ailton Monteiro
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