MICHAEL WANDMACHER
Entrevista exclusiva para o ScoreTrack.Net

Michael Wandmacher sempre foi um fã de quadrinhos e horror. Quando perguntado sobre a música incidental de My Bloody Valentine 3-D, ele diz, “É tão grande e exagerada como uma trilha de horror pode ser. Não tem piedade”. Michael Wandmacher começou sua carreira musical como um compositor comercial em Minneapolis. Desde que se mudou para Los Angeles em 1998, ele aplicou seu talento a uma grande variedade de projetos, incluindo filmes, séries de TV e videogames. Seus créditos cinematográficos incluem Train, Never Back Down, The Killing Floor e Cry Wolf. Além disso ele compôs as trilhas dos videogames Over the Hedge e Madagascar. Wandmacher também grava, produz e remixa música eletrônica sob o pseudônimo Khursor, e compôs e mixou música para Kelly Clarkson no filme From Justin to Kelly. Recentemente ele compôs o score do filme Punisher: War Zone. A colaboradora do ScoreTrack Viviana Ferreira realizou esta entrevista com Michael, esperamos que a apreciem!

Viviana Ferreira - Olá Michael, inicialmente gostaria de dizer que é uma satisfação entrevistá-lo. Bem, vou começar pelo início: quando você descobriu que queria ser um compositor?

Michael Wandmacher - Obrigado! Estou feliz por estar aqui. Creio que meu real interesse em composição veio das canções que escrevia. Antes de compor música em tempo integral passei muitos anos tocando e cantando em várias bandas pop, rock e metal. A mudança para composição aconteceu durante a faculdade, quando comecei a criar músicas para pequenos vídeos infomerciais e industriais, e descobri que gostava desse tipo de trabalho. E também era um meio de ganhar dinheiro por compor músicas! Esse foi um grande incentivo após muitos anos de esforços em vários grupos como cantor/compositor de canções. Meu interesse em trilhas sonoras vem de muito antes. Minha vida caseira, na infância, não era muito rica musicalmente, então muitas das influências que tive vieram do que ouvia em séries de TV e filmes. Também ouvia muitos programas de rádio tipo “The Shadow”. Mesmo quando estava na onda do “rock star”, ainda continuava a colecionar trilhas sonoras.

VF - Em 2001 você compôs música para 'The Hire: Ambush' de John Frankenheimer. Como foi trabalhar com este grande diretor em seu último filme?

 MW - Foi uma situação interessante, porque fiz parte de uma equipe de compositores contratados pela agência publicitária que estava produzindo toda a campanha de “The Hire” para a BMW. Após avaliar demos de cada compositor envolvido, a agência e a produtora musical da qual eu era contratado decidiram que os comerciais de “Ambush” eram mais adequados para mim. Apesar de sempre ter sido um grande fã dos filmes de Frankenheimer e de conhecê-lo desde então, durante este projeto em particular eu estava trabalhando sob a direção da agência. É muito comum em comerciais e mesmo em séries de televisão nunca trabalhar pessoalmente com o diretor. Esta experiência é ainda reservada principalmente para os filmes. Nos mundos da TV e da publicidade diretores são sub-contratados, como qualquer uma das pessoas envolvidas na produção.

VF - A trilha incidental de 'Cry Wolf' é extremamente inteligente... como você se inspirou para criá-la?

MW - Obrigado. Jeff Wadlow, o diretor, tinha uma idéia muito clara sobre focar o score mais nas motivações internas dos personagens: no que eles pensam, como estão se sentindo, o contexto emocional de cada cena…e não muito em circunstâncias externas. Isto levou à criação de uma trilha com ritmos discretos, pulsações e melodias claras e reconhecíveis. Era como se a música fosse a representação do estado de espírito de um personagem em determinados momentos, se estava amedrontado, tenso, coagido, etc. Muitas pessoas descreveram o score como inquietante, claustrofóbico, até mesmo um pouco sexy. São palavras acuradas, porque destacam o relacionamento de flerte e perigo entre os dois personagens principais, além de enfatizar o pânico e a ameaça que Owen, o protagonista, sente enquanto a história progride. Foi uma partitura desafiadora e divertida de fazer.

VF - Fale-nos sobre seu recente score para 'Punisher: War Zone'...

MW - Primeiro, devo esclarecer que sempre fui um fã do personagem The Punisher (O Justiceiro), de verdade, então foi muito importante para mim realizar este trabalho da maneira certa. Eu sabia que teria de ter uma natureza sinfônica e que deveria expressar claramente ambos os lados do personagem de Frank Castle/Justiceiro, um sendo o "herói" vigilante amoral, e o outro o pai profundamente atormentado sofrendo pela perda de sua família. Também necessitava de um tema icônico. Decidi criar algo que, dependendo de como fosse vocalizado e orquestrado, pudesse surgir como um tema forte e poderoso, mas que também fluísse sutilmente em momentos mais calmos e pungentes. Eu reservei uma paleta muito dissonante e perturbada para os inimigos do Justiceiro, Jigsaw e Looney Bin Jim, que são completamente insanos e impiedosos.

VF - Michael, no mundo das trilhas sonoras, quais são os seus compositores preferidos? E quais são seus scores favoritos?

MW - Esta pergunta é muito difícil de responder, porque ouvi muitas trilhas sonoras na minha vida, e o que eu gostava ia mudando enquanto minha vida e estilo de composição também mudavam. Adoro scores tradicionais de Jerry Goldsmith, Bernard Herrmann, Max Steiner, Dominic Frontiere, John Barry, e muitos outros. Minhas maiores influências, contudo, foram Danny Elfman, Alan Silvestri, e James Newton Howard. 'Edward Scissorhands' provavelmente ainda é a minha trilha preferida para só sentar e ouvir. Eu me perco naquelas melodias. É uma obra-prima. Quanto aos compositores contemporâneos, acho John Powell simplesmente brilhiante. Também ouço bastante Marco Beltrami e Clint Mansell. Gosto de uma grande variedade, de fato. Por exemplo, estava escutando o 'Elf' de Debney hoje. É um conjunto muito divertido de faixas! Também gosto de scores híbridos. Samplers bem programados e instrumentos eletrônicos são tão fascinantes para mim como uma música orquestral bem escrita.

VF - Eu adoro o instrumento que toco - violino. Qual é o seu instrumento musical favorito?

MW - Esta também é difícil, porque há muitas variáveis contextuais envolvidas. Toquei guitarra por 30 anos, então eu tenho uma queda por ela, mas especialmente eu gosto de instrumentos tradicionais de cada cultura. Por exemplo, acho o som do erhu chinês fascinante e belo. Bem tocado, ele soa como uma voz humana. Descobrir instrumentos como esse faz parte da diversão deste trabalho! Fiz uma trilha sonora ano passado onde usei bastante o hurdy gurdy. É um tipo de instrumento realmente interessante, muito mecânico.

VF - Você trabalhou nas trilhas sonoras dos videogames 'Madagascar' e 'Over the Hedge'. Como você desenvolve as faixas para os videogames?

MW - O meu caso é um pouco diferente da maioria dos compositores de games, porque trabalhei apenas no que a indústria chama de "ports”. São jogos diretamente ligados a uma marca do cinema ou da TV. Normalmente, o cronograma de seu desenvolvimento é similar ao de um filme, o que significa que pode durar uns 18 meses. Normalmente entro quando o jogo está indo para “Alfa”, que é basicamente sua primeira versão jogável. Muito ainda está incompleto, mas recebo orientações para criar ciclos de música para níveis ou objetivos específicos do jogo. As demandas vêm em blocos, por isso posso trabalhar furiosamente em uma semana e depois, por duas semanas, ficar sem fazer nada enquanto eles implementam e testam a música no jogo. O truque é compor faixas curtas que aumentem a vibração e o ritmo do jogo, sem que distraiam ou irritem. É difícil de atingir esse equilíbrio porque você quer compor melodias e temas memoráveis, mas ao mesmo tempo, em um game, ouvir repetidamente a mesma melodia pode enlouquecer o jogador. Num filme, uma grande melodia ou motivo pode levar toda uma trilha sonora, mas num jogo pode ser de fato um obstáculo para que se obtenha o melhor produto final. Então, há muita tentativa e erro (e jogatina!), o que normalmente não acontece quando você está envolvido com a trilha de um filme.

VF - Seguindo 'Punisher: War Zone', seu projeto seguinte é o score de 'My Bloody Valentine 3-D', refilmagem de um filme de horror cult dos anos 1980. O que você pode nos dizer sobre este trabalho?

MW - Eu descreveria MBV3D como um score clássico de horror com esteróides.  É grande, agressivo, implacável e muito divertido! Além disso, pude construir alguns temas principais que reaparecem em diferentes formas ao longo do filme. Minha intenção foi combinar orquestra, samples extensivamente elaborados, e rock and roll, desde o início. Foi tremendamente divertido de fazer. Não queríamos inovar com o estilo, apenas aumentar o valor de entretenimento do filme. O conjunto baseia-se muito nos clássicos filmes slasher do início da década de 1980.

VF - Michael suas trilhas sonoras são mais relacionadas a suspense, horror e ação. Você gostaria de explorar outros campos, como comédia ou romance?

MW - Certamente! Já fiz alguma comédias e o trabalho pode ser muito interessante, tendo a oportunidade de escrever música realmente vibrante, lírica. Um drama sério que implora por um score fortemente temático e tocante também seria um desafio maravilhoso. Gosto de boas histórias em qualquer gênero, então a oportunidade de criar música para um projeto, independentemente do tipo, é algo que anseio fazer.

VF - Bem Michael, obrigado por sua disponibilidade. Desejamos a você muito sucesso no futuro.

MW - Muito obrigado!

Agradecimentos especiais a Michael Wandmacher e Liz Ferraris, por tornarem possível esta entrevista.

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