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Citações na obra de John Williams |
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Quando foi a última vez que ouviu música clássica? Ou música das Big Bands? Se fizer esta pergunta a um jovem, provavelmente ele falará com desdém da música do tempo dos seus avós. Algum desinteresse poderá vir mesmo de habituais ouvintes de trilhas sonoras, muito embora muito dos compositores a trabalhar activamente no cinema tenham tido um treino clássico, ou venham do mundo do Jazz. Poucos serão os casos em que o compositor vem do mundo do Pop ou Rock. Nós ouvimos, numa das suas variantes, música clássica quando vamos ao cinema, e ouvimos a sua trilha. Williams, bem como muitos dos seus colegas, são bons exemplos disso. Mas por vezes, o compositor poderá citar, intencionalmente, ou porque já lá estava, na temp track, determinada peça de música. Aqui tenta-se apresentar uma lista e descrição de alguns desses casos na obra de um dos compositores mais celebres de Hollywood. John Williams, que recebeu um treino clássico na UCLA e na Julliard School of Music, também trabalhou com muitos músicos de Jazz, o que lhe deu uma preparação invejável para o trabalho nos estúdios de Hollywood. Williams conseguiu sempre sintetizar todos esses estilos na sua obra composicional. Richard Dyer, crítico musical do Boston Globe, chegou mesmo a chamar Williams de o "mestre da pastiche." O estilo de Williams é o somatório de um vasto conhecimento da história da música, tanto erudita como popular. Mas esse assunto (o das influências) ficará para outra vez.
Williams citou em diversas vezes, de uma forma consciente e deliberada, a obra de vários compositores. Existem casos em que a comparação é rebuscada, mas noutros é demasiado óbvia. Em "Superman" (1978), vários fans reconheceram uma semelhança nas primeiras notas de "Can You Read My Mind" com as primeiras notas do poema musical de Richard Strauss "Morte e Transfiguração" (o mesmo se passa com as primeiras notas da "Jaws" (1975) e a 2ª Sinfonia de Rachmaninoff). Strauss é um modelo em "Superman", como é na obra de Williams em geral, mas essa presença é muito mais intensa na fanfarra do Planeta Kripton, construída à semelhança da introdução de "Assim falou Zarathustra" (muitas vezes reconhecida como o tema de 2001). Não é uma citação directa, mas uma interpretação: aquilo que Williams eventualmente teria escrito, caso tivesse sido ele a escrever o poema musical baseado na obra de Nietzche. Outra situação semelhante deu-se no ano seguinte, com "1941". Para a cena da luta e concurso de dança, o realizador usou o lendário "Sing, Sing, Sing" de Luis Prima, imortalizado por Benny Goodman, para coreografar a cena. Quando o filme foi montado, certas alterações tinham que ser feitas à música para que acompanha-se a acção no écran e o compositor optou por escrever uma homenagem à peça que estava na temp track, a que chamou "Swing, Swing, Swing" (um dos clarenetistas na gravação, não foi outro senão o próprio Steven Spielberg). No mesmo filme, Williams usou alguma música pré-existente, mas foi toda usada como source music. Mesmo o "By the Beautiful Sea", embora integrado com a partitura, é usado como a música da roda gigante. Mas se "1941" faz uso de música das Big Bands como source music (embora gravada toda por Williams), há uma outra citação totalmente integrada na partitura. Para ilustrar a batalha nas ruas de Hollywood entre Marinheiros e Aviadores, Williams recorre à música tradicional Irlandesa "The Rakes of Mallow". O efeito é único. Outro caso de reinterpretação de material pré-existente deu-se no recente "Episode 1: The Phantom Menace" (1999), na peça intitulada "The Flag Parade", uma homenagem ao célebre "Parade of the Charioteers", de Miklós Rózsa, para o filme "Ben Hur". Mais rebuscada, mas por certo próxima da verdade, é associação das elegias para cordas que Williams compôs para os filmes de Oliver Stone. Estas peças são autênticos adágios para cordas, por vezes com um obligato para trompa ou trompete. Podemos encontrar o tema "Arlington" em "JFK" (1991) e "The Meeting with Mao" de "Nixon"(1995). Em estrutura estão próximos do célebre "Adágio para Cordas" de Samuel Barber, que Stone usou em "Platoon" (renegando para o esquecimento o tema de Georges Delerue), por cuja peça o realizador nutre grande admiração. Os casos mais antigos de citações de outras peças de música (pelo menos que eu conheça) dão-se com "The Rare Breed" (1966) e "The Reivers" (1969), em que devido ao assunto do filme, a música folclórica de Stephen Foster faz várias aparições. Em 1973 "The Paper Chase" inclui alguma música barroca, que Williams gravou para representar uma das personagens, assim como os seus gostos mais requintados. A música é usada sem nenhum tipo de arranjo, mas cumpre as funções de underscoring. O caso mais celebre e emblemático de Williams citar a obra de outros compositores é o "When You Wish Upon a Star" de Leight Harline e Ned Washingon, em "Close Encounters of the Third Kind" (1977). Williams e Spielberg (é a sua canção preferida) usam o enternecedor tema do filme "Pinocchio" para criar uma ligação emocional e benigna entre a aparição dos visitantes e o espectador. Embora agora seja familiar para todos os fans, na altura, não era possível ouvir a canção em toda a extensão nos créditos finais. Só em 1980, para a edição especial do filme, é que a Disney autorizou que a canção fosse apresentada na sua forma completa, num arranjo de Williams, que o compositor gravou em Boston.
No mesmo ano, Williams cita Igor Stravinsky na sua partitura mais famosa. Em "Star Wars" (1977), nós ouvimos um curto excerto do seu bailado "A Sagração da Primavera" na seqüência em que R2-D2 e C-3PO atravessam o deserto (pode ser ouvido na faixa "The Desert and Robot Auction"). Embora a citação seja directa, o seu uso é extremamente inteligente. Em 1940, no filme da Disney "Fantasia", em que era apresentada a história da Terra, via a música de Stravinsky para este bailado, este mesmo trecho ilustrava musicalmente a travessia dos dinossauros pelo deserto. Williams limitou-se a associar idéias, um dos princípios inerentes à composição para cinema.
Em 1978, no mesmo ano de "Superman",
Williams compôs uma das suas melhores partituras, para um dos piores filmes do
ano, "The Fury". No final, quando a personagem interpretada por Amy
Irving explode, através dos seus poderes sobrenaturais a cabeça do seu
oponente, nós ouvimos os primeiros compassos da 5ª Sinfonia do compositor
russo Dmitri Shostakovich. Williams também cita os seus colegas, compositores
de Hollywood e da Broadway em "E.T." (1982) e "Indiana Jones and
the Temple of Doom". No primeiro, enquanto o simpático extra-terrestre
está a ver o filme "A Quiet Man" na televisão, Williams cita o
belissimo "The Isle of Innisfree" de Richard Farrely, via a partitura
que Victor Young compôs para esse filme (Young usou esta canção
extensivamente na partitura, bem como muita música tradicional, agradando assim
o realizador John Ford). Em "Indiana Jones and the Temple of Doom"(1984),
Williams integra música incidental com a canção de Cole Porter "Anything
Goes", que é usada simultaneamente como source music, como
acompanhante da acção e uma capaz abertura para o filme. Mais recentemente, em
"Witches of Eastwick" (1987), incorpora um excerto do primeiro
movimento do Concerto para Violoncelo de Antonin Dvorák , que usa como love
theme para uma das personagens, interpretada por Susan Sarandon, que toca
violoncelo, num escaldante dueto com Jack Nicholson.
Em "JFK" (1991), o compositor integra o tradicional "Drummer's Salute" na partitura, usado durante o cortejo presidencial que sabemos vai acabar em desgraça. Sobre o rufar de tambores, o tema de Williams toca na trompa, como que a pressagiar a tragédia. Mais tarde, aparece uma versão orquestral de "Eternal Father Strong to Save" de Whiting e Dykes, mas esta peça surge mais como source music, uma vez que foi usada no funeral de Kennedy, em 1963. Em 1997, o compositor faz uma integração mais etnográfica em "Seven Years in Tibet", ao recorrer a dois cânticos dos monges tibetianos, que auxiliam a estabelecer o ambiente e localização. No seu recente "Angela's Ashes" (1999) há um breve gesto musica, reminescente de outro Concerto para Violoncelo, desta feita de Edward Elgar, um dos compositores favoritos de Williams. As obras para concerto também incluem citações ocasionais: em "Pops on the March" (1981), composto em memória de Arthur Fiedler, Williams cita brevemente "The Star and Stripes Forever", a imortal marcha de John Philip Sousa, muito associada ao lendário maestro. Em "To Lenny, To Lenny" (1988), Williams compõem uma curta rapsódia sobre "New York, New York" de Leonard Bernstein. Em 1996, "Variation on Happy Birthday" usa naturalmente como base a conhecida melodia. Certamente poderá encontrar outros casos, em que
Williams citou material pré existente. Caso encontre poderá avisar-me através
de miguel.jw@mail.telepac.pt, para poder
completar o presente artigo. E já agora, se calhar a última vez que ouviu um
excerto de música clássica e gostou até, foi quando esteve no cinema. Miguel Andrade
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