X-MEN 2 (X2, EUA, 2003)
Gênero: Ficção Científica, Aventura
Duração: 134min.
Estúdio: Fox
Elenco: Patrick Stewart, Hugh Jackman, Ian McKellen, Halle Berry, Famke Janssen, James Marsden, Rebecca Romijn-Stamos, Anna Paquin, Alan Cumming
Compositor: John Ottman
Roteiristas: Michael Dougherty, Daniel P. Harris, David Hayter
Diretor: Bryan Singer

Evolução nas telas 

Bryan Singer consegue a façanha de fazer um filme superior ao original - e, provavelmente, a melhor adaptação de super-heróis dos quadrinhos para o cinema

No dia 30 de abril 2003 tive o privilégio de assistir X-MEN 2 em uma pré-estréia, portanto antes de milhões de norte-americanos (o filme estreou no Brasil dia 1º de maio, e lá no dia seguinte). Isto já seria uma razão para deixar-me satisfeito, porém fiquei ainda mais após assistir ao filme, que é simplesmente ótimo. E se X-MEN 2 é uma experiência fílmica de exceção para quem já conhecia os mutantes e até mesmo para quem nunca havia ouvido falar deles, devemos agradecer tão-somente a um homem: Bryan Singer.

Aos 37 anos, Singer é detentor de uma filmografia reduzida (Os Suspeitos, O Aprendiz, X-Men, O Filme e este X-Men 2), porém em cada uma de suas realizações, independentemente do gênero, soube imprimir sua marca criativa pessoal - característica que o distingue como um diretor autoral. Singer, além de criativo, é extremamente perfeccionista, e foi uma sorte enorme tê-lo no primeiro X-MEN. Até porque ele trouxe junto a mesma equipe de profissionais que trabalha em seus filmes, habituada a atender ao seu elevado nível de exigência. Singer sabe que a base para um bom filme é o seu roteiro, e essa é a principal vantagem de suas realizações sobre as de grande parte de seus colegas: todos elas partem de um script sólido e coeso. A partir daí, todos os demais detalhes da produção contam com a atuação direta de Singer, o que segundo dizem, não raro gera grandes atritos com elenco e demais membros da equipe.

Assim, o que nos vem à mente após assistir X2 é a qualidade de seu roteiro, que consegue unir elementos do universo de X-MEN (HQs, Graphic Novels e mesmo a série animada) possibilitando que, a partir daí, surja uma grande aventura de ficção científica que é muito mais do que ação e efeitos especiais: ou seja, um filme com cérebro e coração, que não descuida dos personagens e demonstra o carinho que o diretor possui por este material. 

No filme anterior fomos apresentados ao conceito e aos protagonistas de X-MEN, pessoas que, graças a mutações genéticas, são dotadas de poderes sobre-humanos e lutam contra o preconceito das pessoas normais. Refletindo os acontecimentos da época da criação da HQ (anos 60), os mutantes Professor Xavier (Patrick Stewart), poderoso telepata, e seu ex-amigo e agora oponente Magneto (Ian McKellen), capaz de controlar com a mente qualquer objeto de metal, representam as diferenças filosóficas de Martin Luther King e Malcolm X para lidar contra o preconceito da maioria da humanidade - oposição pacífica e luta armada, respectivamente. Cada um deles lidera uma facção de mutantes, sendo que Xavier mantém uma escola para superdotados onde, com o auxílio do poderoso computador CÉREBRO, localiza novos mutantes.

Nesta continuação, os mutantes seguem enfrentando o medo e a desconfiança das pessoas, mas a situação se agrava depois que Noturno (Alan Cumming), em uma cena espetacular musicada com a cantata Dies Irae, do Réquiem de Mozart, invade a Casa Branca e tenta assassinar o Presidente. A opinião pública começa a pressionar pelo retorno da Lei de Registro de Mutantes, e o vilão do filme, o general William Stryker (Brian Cox), que considera os mutantes uma ameaça mas tem como braço direito Lady Lethal - uma versão feminina e aprimorada de Wolverine, resolve eliminá-los com o apoio extra-oficial do governo. Stryker planeja descobrir a localização da escola de Xavier, a fim de atacá-la e obter as especificações do CÉREBRO; e mais, pretende raptar o Professor X a fim de que ele, subjugado por outro poderoso mutante telepata e utilizando-se do novo CÉREBRO, a ser construído em uma base secreta no Canadá, localize e destrua todos os mutantes do mundo. A fim de enfrentar Stryker, Magneto e a transmorfa Mística (a deslumbrante Rebecca Romijn-Stamos, que desta vez tem uma cena sem a pesada maquiagem azul da personagem) decidem aliar-se aos mutantes de Xavier.

Não quero me alongar mais na trama. Basta dizer que X-MEN 2 é um dos melhores filmes de ação surgido em safras recentes, e que consegue aquele feito raro de ser superior ao filme que lhe precedeu, em praticamente todos os aspectos. Sem a preocupação de apresentar os mutantes (à exceção do Noturno, um alemão com a aparência de um demônio azul capaz de teletransportar-se que, ironicamente é um cristão devoto), a trama ganha em agilidade e suas mais de duas horas de projeção passam num piscar de olhos. Mesmo em seus momentos mais fracos, a história flui a contento e não deixa furos ou pontas soltas - uma verdadeira raridade entre os filmes do gênero recentes. As cenas de ação são em muito superiores às do original, não há cabos ou erros de CGI visíveis, os efeitos são suaves e convincentes (à exceção, talvez, da perseguição aérea em meio a tornados digitais). 

X-MEN havia sido uma produção mediana para os padrões orçamentários de Hollywood: custou "apenas" U$ 70 milhões e os destaques do elenco eram os shakespereanos Stewart e McKellen, este uma espécie de ator-fetiche de Singer. Mas o filme foi um estrondoso sucesso, Hugh Jackman (que vive o irascível Wolverine) graças a ele virou um astro e Halle Berry (Tempestade) acabou ganhando um Globo de Ouro e um Oscar por outras produções. Por tudo isso X-MEN 2 ganhou da Fox status de superprodução, 30 minutos a mais de projeção em relação ao filme original e, para bancar tudo isso, U$ 120 milhões.

Mas além do orçamento maior, o filme também se beneficia com as sólidas interpretações de seu elenco principal. Hugh Jackman novamente está espetacular como Wolverine, o solitário com esqueleto e garras de adamantium (não poderia haver escolha melhor para o papel). Ian McKellen está soberbo como o sombrio e dúbio Magneto, e Patrick Stewart mantém a dignidade do papel de mentor dos X-MEN. A enigmática e sensual Mística de Rebecca Romijn-Stamos, outro grande achado da série, felizmente ganha mais espaço nesta seqüência. Os restantes estão bem: o ator mais fraco, James Marsden, não compromete (até porque a participação de seu personagem, Cíclope, foi reduzida) e Famke Janssen cresce ao final (sinalizando a importância que terá Jean Grey/Fênix em X-MEN 3). Halle Berry (Tempestade) e Anna Paquin (Vampira) também tiveram uma certa redução nos seus papéis, mas o roteiro reservou a elas participações decisivas em certos momentos da trama. Para completar, Alan Cumming nos dá uma interpretação surpreendente, até mesmo comovente, do "novato" Noturno.

Não poderia deixar de citar um aspecto relevante, que é a trilha sonora de X2. No filme original o compositor/montador habitual dos filmes de Singer, John Ottman, não estava disponível já que estava envolvido com sua estréia diretorial, LENDA URBANA 2. Singer então teve de valer-se de outro profissional para a montagem do filme, e a música ficou a cargo do conhecido Michael Kamen. O compositor acabou produzindo uma partitura apenas mediana, com temas discretos e acompanhamento eletrônico para as cenas de ação - dizem que seguindo estritas orientações do próprio Singer. O fato é que para X-MEN 2 Ottman compôs uma trilha sonora superior à de Kamen, exclusivamente orquestral, com um tema mais épico e com o acertado uso de coral para certas passagens.

Ou seja, para alegria de uns e desespero de outros, X-MEN 2 é uma literal evolução a partir do filme original (que já era muito bom) e um sério candidato à melhor adaptação dos quadrinhos para o cinema. Um grande filme que, certamente, garantirá sobrevida ao sub-gênero "baseado em super-heróis MARVEL", iniciado em tempos recentes com BLADE (1998), passando pelo X-MEN original (2000), o mega-sucesso HOMEM-ARANHA (2002) e que segue em 2003 com DEMOLIDOR e HULK. Os resultados podem ser variáveis em termos de qualidade, mas a rentabilidade continua enorme. Em um futuro próximo teremos HOMEM-ARANHA 2, QUARTETO FANTÁSTICO e X-MEN 3, e o mestre Stan Lee, com seus mais de 80 anos de idade, agradece.

Cotação:
Jorge Saldanha
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